Crédito da ilustração: CAB@22 / Valor Econômico

A China é o único país que reúne comércio externo e estrutura financeira para ampliar substancialmente o uso internacional de sua moeda, não apenas por parceiros em busca de proteção, mas também por agentes privados interessados em diversificação de carteira e em oportunidades de negócios usuais. Movimentos mais firmes na direção do que se chama de desdolarização, contudo, envolvem grandes desafios para Pequim.

O comunicado oficial da videoconferência entre Xi Jinping e Biden, em 18 de março, reiterou o compromisso com a validade das regras internacionais vigentes, reafirmando a estratégia de ascensão chinesa há décadas: avançar dentro da ordem existente e explorar seus limites, ou seja, avançar na internacionalização do yuan, mas sem pretender “desbancar” o dólar. O yuan não tem condições de substituir o dólar neste momento, nem Pequim deseja isso. A estratégia chinesa é avançar dentro da ordem liderada pelo dólar e fortalecer suas posições, mas sem rupturas.

O cenário externo mudou, é certo. As sanções contra a Rússia evidenciaram que um país pode sofrer bloqueio de reservas e severas restrições monetárias por decisão unilateral dos EUA e de seus parceiros, com extensão e duração indefinidas. Como precaução, muitos países já haviam criado ou previsto sistemas de pagamentos alternativos e diversificado reservas.

Nova Déli e Moscou faziam pagamentos bilaterais em rúpias e rublos em tecnologia militar e espacial na Guerra Fria e há notícias de que pretendem retomá-los. A Rússia buscou conectar seu sistema bancário com o Irã depois das sanções de 2012 e a Índia estabeleceu pagamento em rúpias e riais para garantir fornecedores para os 85% do petróleo que consome. Em 2019, a Turquia sofreu sanções unilaterais dos EUA pela compra de mísseis russos e Moscou iniciou negociações com Ancara para pagamentos em rublos e liras e promoveu o uso de cartões de crédito da bandeira MIR pelos turcos.

Estas iniciativas não alcançaram volumes relevantes. Riscos políticos de negociar em outras moedas diminuíram em termos relativos com o cerco à Rússia, mas persistem os riscos financeiros de reter saldos em moedas com baixa liquidez e muita incerteza sobre seu valor. A intensificação do uso do yuan poderia superar estes obstáculos. Também por isso causou especial interesse a notícia de que a Arábia Saudita cogita aceitar yuans no comércio bilateral de petróleo (Valor, 15/03/22).

Do lado chinês, desde 2015 Pequim promove o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriço (Cips) como alternativa de serviços de compensação e liquidação paralelo ao Swift, baseado no yuan, e negocia desde 2019 seu uso mais intenso com a Rússia e a Índia. O Cips ainda é restrito, mas já é utilizado por bancos e organizações de mais de cem países. A bandeira de cartões de crédito UnionPay tem alcance reduzido diante das gigantes Visa e Mastercard, mas conta agora com apoio de bancos russos.

Pequim tem evitado movimentos bruscos que prejudiquem os negócios com parceiros ocidentais. O país participa da OMC e do FMI e enfatiza que iniciativas como a BRI, o Banco dos Brics e o Banco Asiático procuram ampliar a ordem financeira mundial. E sabe que há rivais poderosos na Ásia, além do Ocidente. Na visita do ministro de relações exteriores da China a Nova Déli, em 25/3, seu homólogo indiano lembrou que os laços diplomáticos não foram normalizados após os conflitos de fronteira em 2020 no Himalaia. E a imprensa australiana alertou para o possível pacto defensivo com as Ilhas Salomão que permitiria à China usar uma base estratégica no Pacífico.

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No plano interno as dificuldades são consideráveis. Para ampliar o uso internacional de sua moeda, supõe-se que a China deveria acelerar a abertura financeira e criar um mercado amplo para agentes estrangeiros negociarem yuans. Deveria haver presença ativa do BC chinês operando com títulos públicos e capacidade de garantir a liquidez e a estabilidade da moeda, sem depender de reservas em moedas ocidentais em escala relevante. A política monetária teria que estimular a demanda por yuans para formar taxas de juros e de câmbio confiáveis.

Supõe-se que isto reduziria o poder dos bancos chineses no crédito interno, decisivo até aqui para a forte alavancagem das empresas e o crescimento acelerado. Implicaria aceitar déficits em transações correntes para ampliar a oferta de yuans no exterior, a serem cobertos com aplicações de curto prazo no mercado chinês. E não está claro de que formas o processo seria facilitado pelo yuan digital, a criptomoeda estatal em uso experimental em algumas regiões do país.

Este desenho das dificuldades da China supõe a repetição da configuração atual dos EUA que ancora o dólar fiduciário. É possível imaginar uma evolução diferente, algo como uma zona monetária do yuan, com algum grau de isolamento em relação à área do dólar, apoiada na Rússia e em exportadores de petróleo, com presença firme da Índia e de outros países. Pode ser o plano chinês, um dos destinos almejados para as iniciativas em desenvolvimento até aqui.

É possível que a China pretendesse continuar avançando aos poucos e a iniciativa russa tenha antecipado decisões difíceis. A demanda russa por yuans ajudaria muito e pode gerar em Pequim a tentação de acelerar projetos desenhados há anos.

A China não tem condições de criar uma ordem monetária alternativa em futuro previsível, mas daí não decorre que o sistema seguirá como é hoje. Precedentes históricos são poucos e são muito peculiares. Nos anos 1920 o dólar ascendeu sob a hegemonia da libra. As crises de 1929-1931 quebraram o sistema inglês, mas o dólar não ocupou o lugar vazio, algo que os EUA na época não queriam ou não podiam fazer. O fim da libra como moeda central inviabilizou a cooperação e levou à fragmentação do sistema e à desordem. Ficou tristemente famosa a expressão “empobrecer os vizinhos”, o jogo de soma negativa. Não há sinais de que a China veja este caminho como desejável, mas nos anos 1920 ninguém desejava e nem conseguia prever o horror que viria depois.


*Revisão: Stella Bonifácio da Silva Azeredo

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI), do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI/UNESP).

*** Este artigo foi publicado anteriormente pelo jornal Valor Econômico

Autor(a)

  • Carlos Eduardo Carvalho é Professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Departamento de Economia, do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP) e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC). João Paulo N. Gabriel é doutorando em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP).