Fonte: El Mundo (2023) 

A contraofensiva ucraniana finalmente teve início após mais de um ano de conflito ativo. Nesse contexto, os principais objetivos da Ucrânia parecem ser (i) a retomada dos territórios ocupados, que hoje representam quase 20% do território de todo o país; e (ii) a quebra da comunicação das tropas russas com o território sul da Ucrânia, ao qual a Rússia está atualmente ligada por um trecho terrestre contínuo que se estende até a Crimeia. Acerca do andamento da empreitada ucraniana, é interessante perceber que, desde o início da contraofensiva, Kiev parece ter feito pequenas alterações em sua estratégia. Se no começo as tropas ucranianas indicavam ter como intuito testar possíveis falhas na frente russa, dividindo-se em diferentes pontos de todo o terreno ocupado, atualmente os ataques indicam estar se concentrando de forma mais clara em regiões da Zaporizhzhia e de Donetsk. 

Progresso e lentidão: desafios à empreitada ucraniana e limites à ação russa

A tomada de decisão do comando militar ucraniano aparenta ter logrado certo sucesso se considerarmos o avanço da contraofensiva, que até o momento retomou o controle sobre 8 territórios. Quando analisamos tais ganhos à luz das perdas, do tempo e dos efetivos dispensados por Kiev, porém, percebemos que o avanço se dá a passos lentos e que ainda parece distante de alcançar vitórias realmente expressivas. Tal lentidão foi recentemente reconhecida pelo próprio presidente dos EUA, Joe Biden, que declarou que “guerras são maratonas e não corridas”. Entendemos que dois fatores principais justificam a morosidade da reação ucraniana: (i) a capacidade defensiva de Moscou, e (ii) a disponibilidade de uso de força militar por parte da Ucrânia. 

Por um lado, a Rússia teve muito tempo para se preparar e montou uma eficiente defesa multinível que se estende desde as linhas de frente dos territórios ocupados até o litoral ucraniano banhado pelos mares de Azov e Negro. No front russo destacam-se o considerável volume de minas terrestres e a superioridade da força aérea, fatores que têm sido responsáveis por grandes baixas no lado ucraniano. A estratégia de Moscou, dessa forma, parece buscar evitar o combate direto e mobilizar esforços orientados ao fortalecimento de medidas de média e longa distâncias. Estas, por outro lado, representam um dos principais desafios ao sucesso ucraniano. O uso de drones altamente tecnológicos vinha sendo um dos trunfos de Kiev, mas os mesmos têm tido seu alcance reduzido pela capacidade de interceptação russa. Ademais, os caças F-16, cujo uso por parte da Ucrânia foi recentemente liberado pelos EUA, só poderão ser operados após o devido treinamento dos pilotos ucranianos, o que não deve ser concluído no curto prazo e pode, no limite, determinar o desfecho da operação de Kiev.

Ainda que a defesa russa pareça estar logrando sucesso ao limitar a expansão da contraofensiva ucraniana, e a despeito de recentes declarações de Putin segundo as quais a estratégia de Kiev é um fracasso, há indícios de que ambos os lados estão se desgastando razoavelmente com os atuais embates. Sergei Shoigu, ministro da defesa da Rússia, declarou na última sexta (16/06) que a produção de tanques deveria ser aumentada para reabastecer as linhas defensivas. A solicitação sugere que, apesar de relativamente bem-sucedida até o momento, a operação russa vem se desgastando frente aos esforços ucranianos, suscitando preocupações no que diz respeito à disponibilidade de recursos militares. 

Possíveis desdobramentos: retomada territorial e além

Mesmo que alguns pesquisadores venham sugerindo que a Ucrânia ainda não usou de todo arsenal que tem à sua disposição, o que poderia significar que Kiev tem capacidade de promover um reforço à contraofensiva a qualquer momento, a retomada completa dos territórios ocupados pela Ucrânia não parece tarefa fácil. Por mais que disponha de tecnologia e efetivo militares ainda não empregados nos esforços atuais, parte crucial de seu poder de fogo, os caças F-16, ainda não pode ser utilizada. Ademais, soldados ucranianos que atualmente estão sendo treinados pela OTAN em campo secreto no Reino Unido não voltarão ao front de imediato. Portanto, se considerarmos o tempo necessário para a conclusão deste período preparatório, podemos concluir que, mesmo que conte com poder contraofensivo não utilizado, Kiev terá ainda de resistir ao front russo por algumas semanas antes de poder revidar com força total, o que pode levar a desgastes importantes. Diante dessas limitações, a retomada integral de territórios ocupados parece improvável sobretudo no curto prazo. Contudo, uma reconquista parcial poderia aumentar o poder de negociação ucraniano, constituindo importante arma para Zelensky, se bem usada.

Para além das discussões acerca do poder de fogo da operação ucraniana e da possibilidade da concretização efetiva dos objetivos de Kiev, outras questões relacionadas à contraofensiva merecem ser destacadas. Uma dessas é a quebra da barragem de Kakhovka, anunciada entre 6 e 7 de junho. A responsabilidade pelo desastre, fruto de bombardeios ocorridos às vésperas do início efetivo da contraoefensiva, ainda não foi atribuída a nenhuma das partes envolvidas, porém as consequências já são sofridas por muitos. O primeiro resultado catastrófico foi o alagamento de cidades e áreas de cultivo nos arredores da construção, o que levou a perdas materiais, deslocamento de pessoas e danos à produção agrícola. Este último, que afeta tanto o abastecimento local de alimentos quanto a atividade econômica nacional, teve seus efeitos razoavelmente contidos pois boa parte da área afetada se localiza em território ocupado e, consequentemente, isolado do comércio internacional. 

Outro resultado potencialmente mais preocupante é o ocorrido na usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior do tipo na Europa. Parte do volume das piscinas de resfriamento dos reatores da célula é garantido pela barragem de Kakhovka. A queda desta, por conseguinte, levou a uma redução nos níveis das piscinas, aumentando os riscos de possíveis falhas nos reatores. Após alguma resistência por parte de Moscou, representantes da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) visitaram a usina, localizada em território ocupado pela Rússia, para avaliar a situação. Segundo Rafael Grossi, diretor da agência, o cenário é estável e esforços serão realizados para o restabelecimento dos níveis normais das piscinas. Desde o início do conflito em 2022, porém, diversos alertas foram emitidos acerca da segurança da usina, a qual volta a ser foco de atenção com a escalada de manobras militares nos arredores da célula nuclear.

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Rebelião do Grupo Wagner e capacidade de resistência russa 

Para além dos fatores discutidos até aqui, o futuro da guerra na Ucrânia ganhou recentemente mais uma variável que pode influenciar a longevidade do conflito: o levante do Grupo Wagner. Exército mercenário comandado por Yevgeny Prigozhin que vem lutando ao lado da Rússia desde o início da guerra na Ucrânia, o grupo se rebelou contra Moscou na última sexta-feira (23/06) e colocou a mídia em alerta acerca da capacidade do Kremlin de manter a eficácia de suas defesas. A tomada da cidade de Rostov e a ameaça de marcha até a capital russa, no entanto, logo foram contidas e, ao final de algumas horas de alerta, a desavença entre as tropas particulares de Prigozhin e o alto comando moscovita parece ter sido controlada. As reais consequências do ocorrido para o contexto da contraofensiva de Kiev, contudo, ainda estão por vir.

Em recente declaração, Vladimir Putin ofereceu aos soldados do Grupo Wagner a possibilidade de se juntarem ao exército moscovita ou se mudaram para a Bielorrússia. A reação ao discurso do presidente é de suma importância, pois definirá não somente de que maneira os combatentes de Prigozhin irão se portar, mas também como isso irá impactar a operação militar russa. Se optarem por aceitar o convite e se tornarem soldados da Federação, esta continuará a ter disponíveis para si soldados altamente treinados e com experiência de guerra. Caso se recusem a adentrar o Exército de Moscou, poderão implicar em defasagem do front russo. A dimensão desta, porém, apenas poderá ser calculada com maior precisão uma vez que se saiba com mais clareza qual a porcentagem de mercenários que se manterão fiéis ao comando do Wagner. A despeito dessas incertezas, parece seguro dizer que o evento concedeu pequena vantagem, ao menos temporária, aos soldados ucranianos.

Para além do contexto essencialmente estratégico e militar que permeia o episódio, devemos, ainda, considerar a forma com que Putin vem lidando com a situação. Desde o começo, o presidente foi cauteloso ao evitar uma resposta violenta à rebelião. Apesar de ter mantido um tom duro em suas declarações, nas quais diversas vezes cita o evento como fruto de ação terrorista organizada por traidores, o líder do Kremlin evitou que sangue russo fosse derramado. Ademais, as ameaças de retaliação mais severas foram, até o momento, nomeadamente destinadas àqueles que ocupam posições de chefia no grupo mercenário, traçando uma clara divisão entre estes e os demais membros da milícia. Ao conter um eminente fratricídio como forma de contenção do motim de Prigozhin, Putin reforça o devir moscovita de proteger seu povo, o “mundo russo”, e procura evitar novos desgastes à sua figura. Até o momento, a saída encontrada pelo presidente para ter de fato evitado que a situação tomasse maiores proporções sociais. As desavenças entre o comandante do Grupo Wagner e grupos do alto escalão do Kremlin, contudo, contrapõem a ideia de inquestionabilidade das decisões de Putin no contexto da guerra na Ucrânia, indicando um cenário potencialmente menos uníssono na Praça Vermelha. Sabemos que a rebelião parece ter sido mais um protesto do que uma real ameaça de golpe de Estado. Contudo, (i) a proximidade das eleições na Rússia; (ii) a condução da operação especial na Ucrânia, cuja liderança foi usada como estopim do levante e cuja organização não foi capaz de evitar o mesmo; (iii) e a aparentemente efetiva reação do governo à rebelião fazem com que os efeitos deste cenário sobre o futuro da guerra no momento continuem incertos.

A eficácia da contraofensiva ucraniana e, por conseguinte, a longevidade do conflito, portanto, parecem estar atreladas a inúmeras variáveis de difícil precisão. Do ponto de vista estratégico, a capacidade de empregabilidade de arsenal militar por parte da Ucrânia e a real defasagem que a rebelião do Grupo Wagner causará à Rússia dificultam qualquer estimativa mais certeira acerca da possibilidade de continuidade da contenda em termos bélicos. Do ponto de vista político, o baque das desavenças entre Prigozhin, Shoigu e Putin, ainda que possivelmente minimizado pela estratégia de contenção adotada pelo Kremlin, pode vir a impor novos desafios à manutenção do conflito nos moldes atuais por parte de Moscou. Por fim, a ameaça de desastre nuclear, agravada pela intensa mobilização de tropas e armamentos nas proximidades de Zaporizhzhia, aumenta a lista de possíveis consequências de uma guerra que, apesar de limitada espacialmente, tem dimensões muito mais alargadas.

Autor

  • Danielle Amaral Makio

    Mestranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP) . Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) com período de mobilidade na Universidade de Coimbra, Portugal. Atua em pesquisas nas áreas de Segurança Internacional, Teoria das Relações Internacionais, Sociologia Política Internacional e Estudos Pós-Soviéticos. Integrante dos grupos de pesquisa LEA (Laboratório de Estudos Asiáticos), NEAI (Núcleo de Estudos e Análises Internacionais) e GEDES (Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional), no qual atua no Observatório de Conflitos.