Crédito: CAB@21 / Valor Econômico

No documento oficial da Cúpula de 14 de junho, pela primeira vez a Otan apontou nominalmente a China como desafio para seus membros. Dois dias antes, a declaração do G-7 questionou o tratamento dado por Pequim às minorias muçulmanas no país, as políticas contra opositores em Hong Kong e as tensões territoriais no Mar do Sul da China, temas muito sensíveis para a liderança chinesa. Pequim classificou as referências como provocativas e instigadoras de uma reprovável lógica de Guerra Fria. Os dois comunicados apresentam conteúdo semelhante aos pontos debatidos em março na Cúpula do Quad, o arranjo estratégico composto por EUA, Índia, Japão e Austrália. Nos três eventos a presença assertiva do novo presidente americano foi decisiva para a ênfase contra Pequim.

Os documentos caracterizam as ambições chinesas como desafios internacionais a serem enfrentados de forma conjunta em diversas frentes – segurança, infraestrutura, comércio, saúde pública, meio ambiente. A disputa é cada vez mais ampla e global.

Ao contrário da estratégia de Donald Trump, a política externa de Joe Biden quer restabelecer os pilares da ordem mundial liberal erigida com a consolidação da liderança americana na sequência da vitória na Segunda Guerra Mundial. O novo presidente joga no tabuleiro do Indo-Pacífico em busca de oportunidades para contrapor a capacidade de liderança dos EUA às ambições chinesas. A expansão dos projetos geopolíticos de Pequim tem criado diversos descontentamentos.

Alegações de que investimentos chineses criam dívidas impagáveis para os beneficiários estimularam críticas severas em países como Malásia, Maldivas, Montenegro, Sri Lanka e Indonésia. O governo Trump era mais enfático na vocalização dessas críticas e se sustentava no 2018 Build Act, lei de apoio bipartidário para facilitar a promoção de investimentos e parcerias com setores privados em países de menor desenvolvimento. A atual administração da Casa Branca tenta encorajar seus tradicionais parceiros a estabelecerem planos multilaterais robustos no enfrentamento da influência chinesa promovida pela “Belt and Road Initiative”.

Nos anos de Trump os EUA enfatizavam apenas suas capacidades nacionais de fazer frente aos planos chineses. As iniciativas diplomáticas do presidente republicano para buscar aliados se reduziam de fato às tentativas de institucionalizar arranjos como o Quad de acordo com suas políticas militares. Com este enfoque, não houve resultados expressivos na desejada atração nem mesmo dos parceiros do próprio Quad. Austrália, Índia e Japão continuaram reticentes a assumir movimentos assertivos contra Pequim e indicavam considerar os EUA como parceiro pouco confiável. Mais que isso, Washington assistiu a proliferação de estratégias nacionais para o Indo-Pacífico não apenas dos integrantes do Quad, mas também do Reino Unido, da França, da Alemanha e de blocos regionais como a Asean.

Na reunião dos líderes do G-7 foram lançadas as bases do “Reconstruir um mundo melhor”, iniciativa que emula a estratégia nacional de Biden, “Build Better Back”. Ainda em estágio preparatório, a iniciativa pretende prover crédito de US$ 40 trilhões, durante quinze anos, com apoio da iniciativa privada, para estabelecer projetos de infraestrutura em países de baixa renda que valorizem esforços anticorrupção, regras ambientais e transparência nas questões financeiras. Vale destacar que a iniciativa foi apresentada numa reunião em que o anfitrião, o Reino Unido, convidou Índia, Austrália e Coreia do Sul, três potências do Indo-Pacífico que já demonstraram insatisfação com as regras da BRI.

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O “Reconstruir um Mundo Melhor” busca integrar em um mecanismo comum diversos projetos de iniciativas de membros do G-7. O Japão se destaca por sua tradicional diplomacia de promoção de investimentos e desde 2017 está empenhado em consolidar o Corredor de Crescimento Ásia-África em parceria com a Índia, focado em parcerias nos setores de saúde, tecnologia e infraestrutura. Porém, enquanto diplomatas indianos dão sinais favoráveis ao projeto, aparecem receios de membros da União Europeia. A Itália teme que medidas provocativas contra Pequim provoquem reações negativas sobre seus vantajosos fluxos comerciais e também sobre os investimentos chineses, da ordem de US$ 98 bilhões nos últimos anos. Roma aderiu recentemente à BRI, para descontentamento de parceiros do G-7.

Um ponto da estratégia de Biden que encontra maior apoio dos europeus é a promoção global da vacinação contra a covid-19. Esse aspecto já havia sido abordado durante a reunião do Quad, em que todos se comprometeram com a ambiciosa tentativa de agilizar a imunização nos países do Indo-Pacífico. Formou-se em março um consórcio em parceria com a Johnson & Johnson para produzir um bilhão de doses na Índia, financiadas principalmente pelos EUA e Japão e distribuídas pela Austrália aos países da região, com prioridade para ilhas da Oceania e Timor-Leste, que não conseguem bancar quantidades suficientes de imunizantes.

Os países do G-7 se comprometeram a doar também um bilhão de doses para países mais pobres por meio do sistema Covax da ONU. Esse ponto é tema controverso entre os europeus. A China se fortaleceu como grande doadora de imunizantes para diversos países e com isso reforçou seus laços diplomáticos com Budapeste.

A Hungria foi o primeiro país da UE a receber doses de vacinas chinesas além de robustos fluxos de investimento chinês, com destaque para a inauguração do primeiro complexo universitário chinês no território da zona de integração europeia. O movimento foi seguido pela Sérvia, um dos países interessados em aderir à UE e que se destaca no continente pela velocidade do programa de imunização. O presidente Aleksandar Vucic se referiu a Xi Jinping como “irmão” e beijou a bandeira chinesa ao receber respiradores, equipamentos de segurança e máscaras contra a covid-19 em Belgrado.


*Revisão: Stella Bonifácio da Silva Azeredo

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI), do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI/UNESP)

*** Este artigo foi publicado anteriormente pelo jornal Valor Econômico

Autor(a)

  • João Paulo N. Gabriel é doutorando em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP). Carlos Eduardo Carvalho é professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP) e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC).