Crédito da imagem: News.am

A estátua caída de Nazarbaev no coração de Almaty sugere algo de anormal. Presidente do Cazaquistão desde a independência do país em 1991 até sua renúncia, em 2019, o político ainda hoje é um dos principais símbolos do estado. Imortalizado pela narrativa oficial do governo como o grande líder da nação, é celebrado como o responsável por diversos avanços no país e cultuado quase como uma entidade sobre-humana – as reverências vão desde murais imensos pintados em estações de metrô a livros e celebrações nacionais atrelados à sua figura. Seu retrato estilhaçado nas ruas, derrubado por protestantes que se mobilizam contra o governo desde 4 de janeiro de 2022, é, pois, um recado muito mais forte do que se pode imaginar à primeira vista, trata-se de um manifesto de uma sociedade que clama por mudança.

Embalados por uma nuvem de gás lacrimogênio e pelos sons de bombas, tiros e vidros se quebrando, cazaques travam uma luta contra um regime ensimesmado que, em nome da glória, prefere se voltar a grandiosos projetos estatais do que à construção de um tecido social mais coeso. O governo altamente personificado do Cazaquistão, típico das outras repúblicas da Ásia Central, sofre de um profundo distanciamento entre as elites que governam o país e a população a quem deveriam favorecer. Nesse contexto, é comum vermos, ao mesmo tempo, projetos nacionais de grande magnitude, como as complexas relações com a China, responsáveis por atrair milhões de dólares ao país, e políticas públicas questionáveis, como aquelas que classificam como terroristas movimentos populares que contrariem o regime. De um lado, um dos principais parceiros da China para a ambiciosa Nova Rota da Seda, uma terra de potencialidades, do outro, um país que nega a população de acesso à internet ao menor sinal de mobilização popular – vivendo em Almaty há quatro meses fiquei sem sinal algum no celular pelo menos uma vez ao mês.

Os recentes protestos em cujo contexto se deu a derrubada da estátua de Nazarbaev, pois, não se dão sem justificativa e muito menos se agravaram por culpa dos manifestantes. É preciso ter em mente que se trata de um país que vem de um histórico de repressão truculenta de levantes populares, haja vista o indelével massacre de Zhanaozen, episódio ocorrido em 2011 que terminou na morte de 14 cidadãos por tiros disparados por policiais. As mãos ensanguentadas e os olhares de terror de muitos dos manifestantes parecem dizer-me que, dessa vez, nada mudou. Ademais, as recentes declarações do governo reiteram a opção pela violência: Tokayev, atual presidente, no dia 5 de janeiro de 2022, solicitou auxílio militar da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO) para lutar contra seu próprio povo. Um regime sem legitimação. Um líder pedindo intervenção militar para se proteger de sua própria população já vulnerável. Esta, vale lembrar, que, dado o estado de emergência decretado no país, encontra-se privada de acesso à internet, privada do direito de sair de suas cidades, de sair de suas casas para além do toque de recolher instituído pelo regime. Algumas regiões de Almaty nesse momento funcionam à margem da lei.

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Em vista dos embates entre oficiais e manifestantes já não há espaço para a ordem, e a violência se alastra entre polícia e protestantes e entre aproveitadores que se se valem da situação para atentar contra a população em geral. Há relatos não oficiais de cidadãos tendo suas residências invadidas por militares e civis empunhando armas de alto calibre e fazendo demandas de diversas naturezas. Tudo isso pelo preço do petróleo e da gasolina? Ouso dizer que não. Tudo isso por anos de um regime corrupto e deliberadamente distante de sua população, que sofre com altos níveis de desigualdade e baixa capacidade de mobilização. Tudo isso por um governo que sistematicamente se negou a ouvir seus cidadãos, a não ser, claro, aqueles que lhe apoiam. Tudo isso por um corpo político que, em detrimento da resolução de questões sociais internas, parece sempre muito mais interessado em servir a interesses externos como forma de aumentar o prestígio da nação.

A recente resignação do governo nesta quarta-feira, 5 de janeiro 2022, e a aparente redução na violência policial parecem apontar para um cenário de evolução no qual o regime reconhece sua inabilidade em lidar com a situação. Contudo, é preciso um olhar mais atento. O Cazaquistão, assim como toda a Ásia Central e muitas ex-repúblicas soviéticas, vem de um histórico de instrumentalização da atitude de renúncia e/ou resignação de cargos oficiais. Em outras palavras, é comum, no léxico político do Cazaquistão e demais estados, que líderes renunciem como forma de apaziguar manifestantes e demonstrar certo grau de controle para demais atores internacionais como forma de controlar a crise e minimizar os efeitos da mesma. O Quirguistão talvez seja o exemplo mais recente de tal manobra, que sempre é adotada de forma isolada, sem que demais medidas substanciais, que realmente teriam potencial de mudar o regime, sejam debatidas.

Portanto, ao pensar os recentes acontecimentos em Almaty e no Cazaquistão, entendamos que é preciso, antes de proferir qualquer afirmação, ter em mente o contexto político no qual o país se encontra. É preciso compreender que as razões por trás das tensões atuais vão muito além de uma alta nos preços, assim como é preciso ter um olhar crítico para o que a mídia cazaque oficial nos diz e para o que as declarações do governo realmente significam.


*Revisão: Giovanna Bertolaccini

** Artigo de opinião

*** Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI), do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI/UNESP)

Autor(a)

  • Mestranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP) . Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) com período de mobilidade na Universidade de Coimbra, Portugal. Atua em pesquisas nas áreas de Segurança Internacional, Teoria das Relações Internacionais, Sociologia Política Internacional e Estudos Pós-Soviéticos. Integrante dos grupos de pesquisa LEA (Laboratório de Estudos Asiáticos), NEAI (Núcleo de Estudos e Análises Internacionais) e GEDES (Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional), no qual atua no Observatório de Conflitos.