Crédito da ilustração: Valor Econômico

Índia e Paquistão avançam como potências regionais no vazio criado pela retirada militar dos Estados Unidos, mas devem arcar com o desafio de assegurar estabilidade no Afeganistão e no seu entorno, além de lidar com os movimentos de Pequim, Moscou e Washington em suas estratégias globais e nas disputas pela Ásia Central.

Na Guerra Fria, os paquistaneses eram cruciais para os americanos no confronto com a União Soviética, na tentativa de criar a Organização do Tratado do Sudeste Asiático (Seato) e no apoio aos rebeldes afegãos que formariam o Talibã, a Al-Qaeda e outros grupos fundamentalistas.

Com o Talibã em Cabul, o Paquistão pode reforçar sua imagem de mediador de conflitos na Ásia Central e ganhar poder de barganha. Buscaria ampliar suas relações com a Rússia, interessada na estabilidade regional, mas que não quer descontentar a Índia.

 A Índia ganhou relevância ao apoiar tacitamente as intervenções dos EUA na região depois do 11 de Setembro, com o objetivo inclusive de apaziguar tensões dos testes nucleares de 1998. O combate ao jihadismo aproximou Nova Déli de Washington e aumentou a pressão contra Islamabad. Durante os 20 anos de intervenção dos EUA, os indianos apoiaram o governo de Cabul, visando combater grupos radicais na Caxemira, região que pertence à Índia, mas com maioria muçulmana e disputada com o Paquistão. Após décadas de alinhamento com a URSS, a Índia tornou-se peça fundamental na estratégia dos EUA para o Indo-Pacífico, como se verificou na ênfase de Biden no diálogo Quad, que inclui Austrália e Japão.

O Paquistão fortaleceu vínculos com Pequim e é parte importante da “Belt and Road Initiative” (BRI) com o corredor econômico que leva ao porto de Gwadar. Os chineses têm investido em diversas frentes na diplomacia com Islamabad, com formas variadas de intercâmbio, como técnicas agrícolas sofisticadas e até canais de televisão.

Pequim e Washington sabem que estratégias para Cabul passam por Nova Déli ou Islamabad, como se viu em movimentos recentes. Em julho, autoridades indianas sinalizaram apoio ao então governo afegão de Ashraf Ghani, com a recusa oficial de aceitar qualquer forma de transição política no país por vias não pacíficas. A Índia tem usado a presidência rotativa do Conselho de Segurança da ONU, assumido em 2021, para convocar reuniões sobre o Afeganistão, sob protestos do Paquistão. No último dia 6, os indianos permitiram que diplomatas de Cabul alegassem, no Conselho de Segurança, que o Paquistão serviria de abrigo para os talibãs, mas recusaram a participação de autoridades paquistanesas.

O primeiro-ministro Narendra Modi procura aproveitar as disputas com o Paquistão para reforçar a imagem de líder forte e justificar gastos militares, como ocorreu diante das alegações da oposição, em 2018, de que a compra de caças franceses incluíam um escândalo de corrupção. A saída dos EUA do Afeganistão provoca cautela em Nova Déli. É esperado o receio de ascensão de grupos favoráveis a agentes atuantes na Caxemira, responsáveis por ataques dentro de seu território. Em julho de 2021, diplomatas da Índia aceitaram fazer parte das negociações multilaterais pela paz do Afeganistão no Catar, que incluíam líderes talibãs. A imprensa internacional noticiou que houve uma abertura tímida e secreta de canais de conversação entre Nova Déli e o Talibã, o que os indianos não comentam.

A estratégia preferencial da Índia é pressionar as grandes potências ocidentais a resguardar os interesses que anunciam em suas parcerias no Indo-Pacífico. Em recente visita a Nova Déli, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, ouviu dos indianos que um Afeganistão estável só seria possível com o afastamento de “influências malignas”, referência aos grupos jihadistas que alegadamente receberiam apoio do Paquistão.

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Na primeira reunião do Conselho de Segurança da ONU após a tomada do poder pelo Talibã (16/8), a Índia enfatizou que não toleraria qualquer expansão do terrorismo na região. Nova Déli procura indicações de até que ponto os EUA estariam dispostos a defender seus interesses. Esse tem sido o principal motivo de relutância do país com a institucionalização do Quad, que se daria mais pelas conveniências de Washington do que por seus compromissos em atuar em favor de um parceiro. Os indianos avaliam que o adensamento do Quad trará benefícios reduzidos diante dos custos e riscos de atuar assertivamente frente à China.

O Paquistão se apresenta a China, Rússia e EUA como único ator capaz de pacificar a Ásia Central. No início de agosto, Islamabad convenceu as três potências a não incluir Nova Déli em discussões sobre o tema. Diplomatas do país difundem suspeitas de apoio do serviço secreto da Índia a redes jihadistas afegãs em recente atentado contra diplomatas chineses e ações de separatistas no Paquistão.

Os acontecimentos no Afeganistão influenciam diretamente o cenário político paquistanês. Clérigos locais e lideranças políticas apoiaram a tomada de poder pelo Talibã. Embora negue envolvimento, o governo paquistanês se mostra menos reticente em estabelecer diálogo com o grupo. Em evento público em 16/08, o primeiro-ministro Imran Khan declarou que o Afeganistão estava “rompendo as algemas da escravidão”. O mandatário paquistanês sabe que ceder às pressões internacionais contra o Talibã envolve grandes riscos políticos.

Nunca um primeiro-ministro eleito democraticamente terminou o mandato no país. A influência de líderes militares e religiosos pró-Talibã é forte, como se viu em recentes protestos contra diplomatas franceses em debates no país sobre regras do islamismo. Nesse sentido, Khan estica a corda em favor dos líderes mais fundamentalistas.

Os líderes paquistaneses procuram usar a proximidade com o Talibã como ativo diplomático. O país é cobrado pela China para evitar que grupos rebeldes atrapalhem projetos da BRI. Com o Talibã em Cabul, o Paquistão pode reforçar sua imagem de mediador de conflitos na Ásia Central e ganhar poder de barganha pelo acesso ao Talibã. E buscaria ampliar suas relações com a Rússia, interessada na estabilidade regional. Moscou, porém, não quer criar descontentamentos com Nova Déli, importante parceiro comercial de sua indústria militar, sob pressão dos Estados Unidos para abdicar dos contratos com os russos.


*Revisão: Stella Bonifácio da Silva Azeredo

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI), do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI/UNESP)

*** Este artigo foi publicado anteriormente pelo Valor Econômico

Autor(a)

  • João Paulo N. Gabriel é doutorando em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP). Carlos Eduardo Carvalho é professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP) e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC).