Ilustração de Foreign Policy. (Crédito: Madoka Ikegami-Pool / Getty Images / Drew Angerer / Getty Images)

Desde que Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos, embasado no discurso de America First, as desavenças entre EUA e China têm-se acirrado. Ainda ao início de 2018, um ano após ter assumido a presidência, Trump anunciou que colocaria tarifas sobre as importações de aço e alumínio, justificando a decisão como necessária para lidar com o que ele considerou como concorrência desleal da China no comércio internacional e que, como consequência, estava prejudicando as indústrias e os trabalhadores estadunidenses.

A ação desencadeou uma guerra comercial bilateral, que perdurou por dois anos repletos de retaliações de ambos os lados. A disputa se estendeu, inclusive, ao âmbito financeiro, quando Trump, no segundo semestre de 2019, acusou o governo chinês de manter o yuan desvalorizado artificialmente, condenando o país por manipulação cambial e clamando ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que eliminasse a prática.

Mais recentemente, a questão da tecnologia 5G entrou na pauta das tensões. Trump acusou a China de roubo de propriedade intelectual, atingindo diretamente as empresas chinesas de tecnologia, entre elas Huawei e TikTok, classificadas como ameaça à segurança nacional dos EUA. Em resposta, a China adotou represálias contra empresas estadunidenses, como Apple, Cisco e Qualcomm.

Por fim (ainda que o fim das tensões não pareça próximo), Trump passou a defender publicamente que o vírus responsável pela pandemia da covid-19 teria sido criado em um laboratório em Wuhan como arma biológica, apesar de diversos cientistas ao redor do mundo terem apontado evidências de que se trata de uma mutação vinda da natureza. Em meio ao caos sanitário e econômico causado pela pandemia, os Estados Unidos iniciaram o processo de se retirarem formalmente da Organização Mundial da Saúde (OMS), enquanto a China passou a enviar médicos e equipamentos de saúde para vários países, em busca de reverter sua imagem prejudicada pelas afirmações de Trump.

Diplomacia e espionagem

A Convenção de Viena sobre Relações Consulares de 1963 define que o estabelecimento de relações consulares deve ser feito, com base no consentimento mútuo entre os dois Estados-parte. Em caso de rompimento das relações consulares e/ou fechamento temporário, ou definitivo, de uma repartição consular, é obrigação do Estado receptor respeitar e proteger os locais consulares, seus bens e arquivos. Tanto os arquivos e documentos consulares quanto os próprios consulados são invioláveis, de modo que as autoridades do Estado receptor são impedidas de ali adentrar sem consentimento do chefe da repartição consular. Aos funcionários, a Convenção de Viena garante que recebam tratamento respeitoso por parte do Estado receptor, não podendo ser detidos, ou presos, preventivamente, ou terem sua liberdade limitada, salvo em casos de crimes graves.

Na terça-feira de 22 de julho, os Estados Unidos ordenaram o fechamento do consulado chinês em Houston (Texas) em um prazo de três dias, com a justificativa de que seria uma medida para proteger a propriedade intelectual dos EUA e as informações privadas de seus cidadãos, acusando a China de espionagem e de ciberataques para roubar propriedades intelectuais de empresas estadunidenses, inclusive de empresas relacionadas ao desenvolvimento de uma vacina para a covid-19. O Departamento de Estados dos EUA alegou ainda que não iria tolerar as violações feitas pela China à soberania do país e que o consulado em Houston seria o nó central de uma rede de espiões do Partido Comunista Chinês.

Como resposta à decisão unilateral, a China ordenou, na sexta-feira 24 de julho, o fechamento do consulado estadunidense em Chengdu, acusando os funcionários de se intrometerem e de interferirem nos assuntos internos chineses, ameaçando a segurança e os interesses da China. O Ministério chinês das Relações Exteriores argumentou que a decisão foi uma resposta legítima e necessária à ação injustificada dos EUA. Porta-vozes chineses alegam que a responsabilidade pela atual situação entre os dois países cabe exclusivamente aos Estados Unidos, sendo algo que a China não deseja.

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As acusações dos EUA sobre espionagem chinesa, porém, vão além das embaixadas. Os Institutos Confúcio, órgãos do governo chinês para promover a língua e a cultura do país e reforçar laços de amizade e cooperação entre China e os países que os recebem, também têm sido atacados e fechados pelos estadunidenses. Provavelmente, as acusações do Tio Sam se devem ao receio de que, além da política e economia, sua dominância cultural seja ameaçada e suas bases de poder internacional enfraquecidas. Principalmente porque os EUA promovem, igualmente, seus centros culturais pelo mundo e não sofrem acusações do mesmo tipo advindas de seus anfitriões.

Vale lembrar, ainda, que os Estados Unidos promovem espionagem pelo mundo. Em 2014, Edward Snowden, ex-analista de Inteligência contratado da CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA) e da NSA (a Agência de Segurança Nacional), vazou informações sobre atividades de espionagem dos Estados Unidos, realizadas em todo mundo via Internet e celulares, assim como sobre programas de vigilância dos EUA e do Reino Unido que monitoram cidadãos, autoridades e instituições ao redor do planeta. Snowden comunicou ainda que os Estados Unidos mantinham operações de hacking de universidades, funcionários públicos e empresas na China continental e em Hong Kong.

E o futuro da ordem internacional?

O contexto colocado tem sido apontado como o de uma nova Guerra Fria, em alusão aos anos de competição entre Estados Unidos e União Soviética, potências capitalista e socialista, respectivamente, pela liderança do sistema internacional no pós-Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, apesar das tensões, não houve uma guerra mundial – o conflito armado, quando ocorreu, deu-se na periferia do sistema. É evidente que as relações entre Estados Unidos e China passam por um momento de forte instabilidade, com retaliações e acusações mútuas em um sistema internacional ainda caracterizado pela hegemonia dos EUA, por um conjunto de regras e normas e, é claro, pela dependência econômica que se estabeleceu entre os dois países ao longo das décadas.

Diria Clausewitz que a guerra é a continuação da política por outros meios. Resta esperar o desenrolar dos acontecimentos para saber se as ações econômicas e diplomáticas de Estados Unidos e de China serão suficientes para evitar que, no jogo das grandes potências, a política continue de forma armada.

No momento, as dúvidas sobre os rumos da ordem internacional são maiores do que as respostas. Serão as atuais regras do jogo suficientes para normalizar as relações econômicas entre os dois países? Irão os policy-makers atuar no sentido de manter a estabilidade das relações, da qual ambos os países se beneficiam? Estão os Estados Unidos agindo de forma desesperada para manter sua hegemonia frente à ascensão chinesa, ou suas ações são, de fato, um cálculo de custos e benefícios em que demonstrar sua preponderância visa a coibir o avanço da China?


*Revisão: Tatiana Teixeira

** Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI) ou do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI/UNESP)”

Autor(a)

  • Doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP)  Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e bacharel em Relações Internacionais e em Ciências Econômicas pela FACAMP. Pesquisadora do Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais (CERI-IE/Unicamp) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU). Tem interesse nas áreas de: Economia Política Internacional, Sistema Monetário e Financeiro Internacional, Instituições Internacionais.