Paulo Timm

Economista, Pós-Graduado CEPAL/ESCOLATINA, Professor Aposentado da UnB. Fundador do PDT (Lisboa, 1979), partido pelo qual foi candidato aos governos de GO e DF.   Site: http://www.paulotimm.com.br/

 

Setores conservadores respiram, aliviados, com a nova realidade política na América Latina, depois de várias defecções alinhadas com o que se convencionou de “bolivarismo”, uma tendência de esquerda não revolucionária, originária na Venezuela, sob a batuta do Comandante Chávez, confiante no uso do Estado como mecanismo de transformações sociais. Insisto no “não revolucionária” porque, apesar da retórica inflamada, ela difere muito, tanto do tradicional “nacional-desenvolvimentismo” latino-americano, que teve no Brasil seu maior trunfo com o varguismo, quanto das correntes insurretas da luta armada que varreram o continente nos anos 60-70. O bolivarismo é mais um justicialismo radical, de corte reformista, apoiado no Estado como promotor da cidadania.

A “verdade”, entretanto, nem está aí. Mudou de lugar, como diriam os Poetas. As verdades históricas só se instauram mesmo, à luz do tempo, apesar de Hegel insistir no contrário. No curto prazo, sucedem-se, em consequência de “ações políticas”, sublinharia Brutus aos pés estendidos de Cesar, vitimado pela eterna luta no Senado Romano, entre optimates x populorum. (Leia-se: Elites x Plebe). Essas “ações políticas” podem ser um assassinato, um suicídio, um golpe, ou até uma vitória eleitoral. Fáceis de compreender, difíceis de julgar “cientificamente”. Além do caráter de classe, sempre produzem efeitos, acompanhados das dores de seu parto. Às vezes deixam vítimas inconsoláveis, rastros de sangue e lamentos profundos. Quando, apesar das resistências, elas se impõem, de nada adianta torcer o nariz. Cedo ou tarde somos obrigados a administrá-las, o que não significa aceitá-las, nem muito menos a elas aderir. Não existe trégua, enfim, no mundo político, nem espaços vazios. Há sempre disputa, nem sempre por métodos construtivos.

Lembro-me muito do golpe de 64. Todos pensavam tratar-se de uma nuvem passageira. “Afinal, dizia-se, os militares não têm respaldo para governar e, de resto, não conseguirão retomar o crescimento da economia. Daqui a um ano, no máximo, convocarão eleições…”. Tomados por tais ideias logo se acendeu a chama da resistência subindo a Serra de Caparaó, em Minas, ou atravessando a galope a fronteira do Brasil com o Uruguai. Poucos tiros e tudo arrefeceu. Em 1968, nova onda de rebeldia revolucionária, desta vez animada por jovens estudantes, inconformados com os militares no Poder. Um último suspiro do velho Brizola conclamou, em 1970, ao voto nulo. Outra catástrofe. A “ação política militar” já se havia consagrado e o General Médici, em meio aos Anos de Chumbo seria ovacionado no Maracanã. Aí caímos, todos, na real.

A verdade é que os quadros ideológicos da direita e da esquerda ainda insistem em que há uma só maneira de Governar: a que se rege por seus cânones. E não se cansam de tentar doutrinar a sociedade sobre eles. “Temos que conscientizá-los”, afirmam. No Governo, então, basta-lhes a “cor”, para se sentirem abençoados, forçando, por todos os meios, sobretudo a pesada mídia, o conjunto da sociedade para que concorde que se está no caminho certo. Errado é sempre “o outro”. Autocrítica, neste processo, nem de longe, talvez em confessionários lacrados. Mal sabem que todos os conselhos contemporâneos apontam para diretrizes que combinem Mercado, Estado e Sociedade, com boa dose de democracia. Em nenhuma das combinações se eximem, também, os governantes de uma atitude ética e transparente diante da sociedade, além de um mínimo de capacidade governativa. Um galo sozinho nem faz uma madrugada, nem garante, por si só, o amanhecer.

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Ora, é tempo de se proclamar que isso tudo é pura crença fundamentalista, disseminada, tanto à esquerda, como à direita. O Iluminismo teve sua parcela de culpa nisso, ao disseminar a esperança de haver nas sociedades humanas fenômenos e regras similares ao mundo natural: Simples de catalogar, observar em suas determinações e prever resultados.  Marx, então, e sobretudo seus seguidores, foi pródigo nisso: “O mundo marcha inexoravelmente para o socialismo”…Vã ilusão. Ninguém sabe para onde irá o capitalismo, embora se intua que ele seguirá o curso da Lei, que desemboca numa forte presença do Estado na Sociedade. Mas quando? Como? É até importante ler os clássicos da Teoria do Estado, das Classes e do Poder, mas é imprescindível ler Shakespeare.  Política é sobretudo arte, ética, ótica. Política é enigma, à espera de decifrações. As Teorias ajudam, mas não resolvem. De repente: o destino…Portanto, prudência, que é o olho das virtudes.

Não estou aqui a proclamar que não exista uma esquerda e uma direita, correspondendo, sempre, aos polos opostos do sistema de dominação. Sempre há. Como bem assinalou  Norberto Bobbio, a esquerda puxará pela igualdade, enquanto a direita postulará a defesa da liberdade. Contudo, isso não se confunde com os protagonistas que se proclamam líderes de um e outro lado. Para Noam Chomsky, por exemplo, grande crítico dos tempos atuais, nada atrapalhou mais o socialismo do que Lenin e Stalin. E eu diria que Pinochet, no Chile foi um coveiro do neoliberalismo. Se em algum lugar do mundo tivermos que fazer o que ele fez no 11 de setembro com Salvador Allende, melhor ficarmos todos onde estamos.

Como diz até FHC em seus Diários I, pg. 55: “Política não se faz apenas afirmando o que é certo e o que é errado mas articulando as forças capazes de provocar modificações”. Faltou, claro, ele enfatizar a importância ética desta articulação. Mas se entende…

Economista, formado pela UFRGS. Pós Graduado na ESCOLATINA, da Universidade do Chile e CEPAL/BNDES. Foi professor da Universidade de Brasilia- UnB – e Técnico do IPEA, órgão do Ministério do Planejamento, em Brasília.