O acordo da Parceria Transpacífico foi anunciado em outubro de 2015 e conta com a participação de doze países – Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Cingapura, Estados Unidos, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru e Vietnã. Considerado o principal investimento multilateral da política externa de Barack Obama, o acordo tem pretensões econômicas e geopolíticas. Se por um lado coloca-se como uma iniciativa de integração que busca facilitar os negócios, indo além do livre cambismo, por outra representa uma ofensiva dos Estados Unidos em direção ao Pacífico, onde tenta retomar espaços estratégicos em meio à ascensão econômica chinesa.

O México passou a participar das negociações da Parceria Transpacífico em 2012, conjuntamente com o Canadá. Com alguns dos países participantes, ele já possui Acordos de Livre Comércio em vigor, como com o Peru e com o Chile, os quais integram a Aliança do Pacífico junto com a Colômbia. Há também países que compõem ainda a Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC), a qual contempla, por sua vez, a China.

Nesse contexto, quais os interesses da diplomacia econômica mexicana em participar deste acordo regional?

Assim como para os Estados Unidos, a dimensão econômica e geopolítica também está presente. Nesse sentido, o primeiro aspecto a ser destacado é a convergência entre a Parceria Transpacífico e a estratégia de inserção internacional do México, marcada pela exportação de produtos manufaturados para os países desenvolvidos. A formalização do Tratado de Livre-comércio da América do Norte, em 1992, consolidou a dependência mexicana da economia vizinha e favoreceu uma estrutura industrial específica, as conhecidas maquiladoras, empresas que importam componentes de empresas sediadas no exterior para depois exportarem o produto final para os países de onde se originam as importações, empregando para isso, regra geral, trabalho mal remunerado. A participação do México na Parceria Transpacífico é, nesse contexto, uma forma de mantê-lo vinculado aos grandes projetos estratégicos dos Estados Unidos, para onde o país exporta grande parte dos seus produtos e apresenta superávit comercial, além de fonte de investimentos externos.

Além disso, apesar das relações econômicas internacionais mexicanas centrarem-se majoritariamente na América do Norte, a Parceria Transpacífico não deixa de ser uma via para que o México expanda suas relações comerciais com países pouco representativos na sua pauta de comércio, os asiáticos. Alguns deles, inclusive, competem com os produtos intermediários mexicanos, o que faz com que a Parceria possa criar um ambiente de maior harmonização econômica e ampliação de laços de cooperação. Nesse sentido, a abertura de novos mercados e possibilidades de investimentos não contradiz o foco econômico mexicano nos Estados Unidos, pelo contrário, visto que ambos os países participam da iniciativa e possuem canais bilaterais próprios.

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Além da dimensão econômica, a participação do México na Parceria Transpacífico também tem uma dimensão geopolítica. A ascensão econômica chinesa impôs desafios à diplomacia mexicana – além de maquiladoras terem migrado para a Ásia, a China é a segunda maior parceira comercial do México. Assim, se por um lado a Associação Estratégica Integral México-China, de 2013, formalizou-se com o intuito de maior harmonização econômica e política, “resistir” à relação assimétrica com a China tornou-se uma necessidade. A iniciativa pode contribuir para que a pauta de importações mexicana seja mais equilibrada, contrabalanceando o peso crescente dos produtos chineses e o peso que o país exerce hoje na América Latina.

A participação do México na Parceria Transpacífico exemplifica também o objetivo da política externa do presidente Enrique Peña Nieto, destacado no Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2018, de inserção do México como um “ator de responsabilidade global” e de fortalecimento da presença mexicana no mundo. Com isso, busca-se expandir suas relações econômicas internacionais e ampliar sua capacidade produtiva e exportadora.

A formalização do acordo contribui para a estratégia mexicana de associação preferencial com o Norte, não questionando a projeção dos Estados Unidos e participando de seus projetos estratégicos. A partir disso, a Parceria Transpacífico é uma das vias da diplomacia econômica mexicana para que o país amplie seu peso na economia política internacional, atuando em proximidade com seu maior parceiro econômico. É um meio de diversificar suas relações comerciais e as fontes de investimentos externos, além de contrabalancear o peso da influência chinesa.

Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e mestranda no Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP).