Crédito da ilustração: Valor Econômico

A Declaração de Los Angeles sobre Migração e Proteção, emitida no final da Cúpula das Américas, em 10/06, frustrou de vez as expectativas do México de contar com apoio dos EUA para o Plano de Desenvolvimento Integral – PDI, envolvendo Honduras, Guatemala e El Salvador, os países do chamado Triângulo Norte da América Central, os mais afetados pela crise migratória.

Proposto pelo governo de Andrés Manoel López Obrador, o PDI previa programas sociais e investimentos em infraestrutura para desenvolver a região e frear a busca por trabalho e melhores condições de vida nos Estados Unidos. O plano queria oferecer compromissos de Washington na coordenação de recursos e colaboração com o setor privado. A Declaração aprovada também prevê ajuda financeira a países das Américas para lidar com os desafios das migrações, mas não define valores e nem mesmo cita o PDI. É um grande revés diplomático para o governo mexicano, um golpe no objetivo de ganhar protagonismo como mediador entre as demandas da região e Washington. Fontes do governo mexicano até sinalizaram apoio discreto à Declaração, mas o texto nem aparece na página da Secretaria de Relações Exteriores.

Apesar das pressões e incentivos do governo Biden, os presidentes dos três países do Triângulo Norte também não foram à Cúpula. López Obrador justificou a ausência alegando que o convite deveria ter incluído Cuba, Venezuela e Nicarágua, posição que é compatível com princípios históricos da política externa mexicana. A motivação maior, contudo, parece ser mesmo dar uma resposta ao que o governo mexicano considera como desinteresse do atual presidente americano pelo seu vizinho, sobretudo depois de posições do governo Trump tidas como mais colaborativas.

López Obrador negociou com o ex-presidente o Acordo Estados Unidos-México- Canadá, o USMCA, que sucedeu o Nafta, e o Protocolo de Proteção ao Migrante, que obrigava as pessoas em trânsito a permanecer no México até a decisão definitiva sobre a aceitação nos Estados Unidos. A colaboração de López Obrador reposicionou o país como aliado estratégico dos Estados Unidos na contenção dos fluxos de pessoas provenientes da América Central para atravessar a fronteira para os EUA.

A política migratória do governo Trump enfrentou críticas de organizações civis e do então candidato democrata. Para cumprir a promessa de campanha, Biden decretou o fim do Protocolo, decisão barrada por ações dos estados do Texas e do Missouri, que determinaram sua manutenção. Apesar da decisão de Biden, López Obrador reiterou o compromisso de ampliar os programas de trabalho temporário para centro-americanos que utilizam o país como território de trânsito, tratados então como refugiados.

Diante dos entraves recentes, as relações do México com o governo democrata esfriaram. No campo comercial, o mandatário mexicano enfrenta pressões crescentes de Washington para implementar as regras trabalhistas previstas no Acordo Estados Unidos-México-Canadá, que endureceu as normas e os procedimentos de controle. O Mecanismo de Resposta Rápida verifica o descumprimento das regras em uma planta da General Motors e na fábrica de auto- peças Tridonex. O Acordo prevê que o não cumprimento das regras pode levar a sanções contra o México e que as empresas acusadas sejam obrigadas a realizar novas eleições para representantes sindicais na presença de observadores internacionais.

No âmbito regional, López Obrador busca uma posição de liderança ocupando o vácuo de poder deixado pelo Brasil no governo de Jair Bolsonaro, que abandonou a União das Nações Sul-americanas e a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos. O presidente do México defendeu a reformulação da Organização dos Estados Americanos, e o fim do bloqueio comercial a Cuba e realizou visita oficial a Havana para tratar de assuntos bilaterais.

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Contudo, o maior ativismo do México esbarra na dependência estrutural em relação aos Estados Unidos e nos recursos limitados para projetos de cooperação, inclusive na América Central. A busca de protagonismo do presidente mexicano enfrenta dificuldade para materializar iniciativas práticas na América Latina e no Caribe, inclusive diante dos problemas internos enfrentados pelos países no pós-pandemia e pela complexidade do cenário internacional, marcado pela instabilidade econômica, com reflexos nos preços das commodities, e pela acirrada disputa política entre a Rússia e as potências ocidentais. A polarização político-partidária que vigora em vários países da região também preocupa, com destaque para as eleições no Brasil.

Mesmo que os resultados práticos sejam limitados, o presidente mexicano quer aproveitar uma política externa mais ativa no quadro regional para fortalecer sua posição no cenário doméstico já mirando as eleições presidenciais de julho de 2024. Nos pleitos estaduais realizados em junho, o Movimento de Renovação Nacional, Morena, partido do presidente, passou a controlar 20 dos 32 estados mexicanos. O estado de Hidalgo, reduto do Partido Revolucionário Institucional, elegeu um candidato do Morena e marcou uma alternância histórica na política local.

O governo de López Obrador é aprovado por 63% dos mexicanos. Apesar de persistirem as preocupações relacionadas à segurança e as dificuldades econômicas, o presidente tem sido eficiente na preservação da imagem de austeridade e simplicidade, de acordo com suas principais promessas de campanha, voltadas para as políticas sociais e o combate à corrupção.

No entanto, López Obrador ainda precisa ir além do discurso transformador para angariar apoio interno e externo consistente. As críticas da Organização das Nações Unidas com relação à militarização da política de segurança e o futuro incerto da economia, que está longe de recuperar a queda de 9% do Produto Interno Bruto em 2020, enfraquecem a imagem internacional do país e podem influenciar no resultado eleitoral.


*Revisão: Stella Bonifácio da Silva Azeredo

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI), do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI/UNESP).

*** Este artigo foi publicado anteriormente pelo jornal Valor Econômico

Autor(a)

  • Marcela Franzoni é Professora de Relações Internacionais no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e Tutora Especialista na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Doutora (2022) e mestra (2018) pelo Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP) e graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de São Paulo (2015). Bolsista pela FAPESP, foi Visiting Graduate Student no Center for Iberian and Latin American Studies (CILAS) da Universidade da California, San Diego (UCSD). No mestrado, fez estágio de pesquisa na Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e na graduação, intercâmbio na Universidade de Coimbra. Pesquisadora no Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI) e no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu). Carlos Eduardo Carvalho é Professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Departamento de Economia, do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP) e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC).