No último domingo, dia 5 de junho de 2016, foram realizadas eleições locais no México. Estavam em disputa vários cargos públicos, entre eles para governador e prefeitos municipais nos estados de Aguascalientes, Baja California, Chihuahua, Durango, Hidalgo, Oaxaca, Puebla, Quintana Roo, Sinaloa, Tamaulipas, Tlaxcala, Veracruz e Zacatecas.

O pleito não foi importante somente porque elegeu representantes para os cargos em disputa, mas também porque é considerado um indicativo para as eleições presidenciais de 2018 e, portanto, funcionou como um indicador da própria aprovação popular do atual presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI). Já em junho de 2015, o partido havia passado por um primeiro teste popular nas eleições legislativas, quando conseguiu manter maioria simples, à frente dos outros dois maiores partidos do México, o Partido da Ação Nacional (PAN) e o Partido da Revolução Democrática (PRD).

Nas eleições de agora, o PRI também conseguiu manter a maioria dos estados. Com os novos resultados, o partido governará quinze entidades, enquanto o PAN governará oito e o PRD, quatro, sendo as outras federações governadas pela coalizão PAN-PRD, Partido Verde e um candidato independente. Ainda assim, o Partido Revolucionário Institucional perdeu quatro estados que governou de 2010 a 2016, quando possuía dezenove entidades. Veracruz, o terceiro estado com maior população do México, ganhou relevância, neste contexto, já que depois de 86 anos sendo governado pelo PRI, passou para o comando de Miguel Ángel Yunes Linares, candidato da coalizão PAN-PRD.

Pode-se afirmar então que o partido da situação não saiu propriamente vitorioso, o que se apresenta como um grande desafio para o presidente atual. Algumas análises políticas chegaram a afirmar que o mandato de Enrique Peña Nieto estaria esgotado com a aprovação das reformas estruturais, em 2012, e com os baixos índices de popularidade, que aumentariam as incertezas para 2018.

A popularidade do presidente mexicano vem caindo desde dezembro de 2012, quando estava em torno de 50%. Hoje, atinge 32%, segundo pesquisa divulgada em março deste ano. No final de 2012, foram aprovadas reformas estruturais conhecidas como “Pacto pelo México” a partir de um grande acordo nacional entre forças políticas governamentais e da oposição. O presidente declarou que as treze reformas estruturais permitiriam impulsionar o crescimento econômico a partir de modificações no mercado de trabalho, finanças, telecomunicações e no setor energético, o qual envolveu a abertura da Petróleos Mexicanos (Pemex), empresa petroleira estatal, para o investimento privado internacional.

As expectativas com o Pacto não foram longe. Em novembro de 2013, o Partido da Revolução Democrática anunciou sua saída da mesa de negociações e acusou o governo e o Partido da Ação Nacional de não promoverem uma reforma política de grandes proporções, assim como de incentivarem privatizações no setor energético. Ademais, os números também questionam os efeitos e as possibilidades de alcance das reformas propostas: nos últimos dez anos (2006-2015), a média do crescimento econômico mexicano ficou no patamar de 2,4%, segundo dados do Banco Mundial. O índice de pobreza, por sua vez, mantém-se aproximadamente no mesmo patamar de 2000, na faixa de 53% da população, sendo que desde 2006 a tendência seguiu ascendente. É claro, portanto, no caso mexicano, a dificuldade que têm as políticas liberalizantes, mantidas pela gestão de Enrique Peña Nieto, de oferecerem uma resposta efetiva para os dilemas sociais do país, que assim como a América Latina de forma geral, sofre os efeitos da desigualdade social e da heterogeneidade estrutural, sendo os estados sulistas consideravelmente mais pobres.

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Outras questões também impactam a popularidade de Peña Nieto e aumentam as expectativas para as próximas eleições presidenciais. O desaparecimento de 43 estudantes no estado de Guerrero, em setembro de 2014, evidenciou a grave crise de direitos humanos no país. Só na campanha para as eleições legislativas de 2015 foram registrados 70 ataques e 19 assassinatos, incluindo candidatos a prefeituras. A atual conjuntura vem sendo denunciada por organizações internacionais, como a Anistia Internacional, por exemplo, que a classificou como “uma das mais perturbadoras crises de direitos humanos de todas as Américas”. O aumento da violência, em grande parte associado ao narcotráfico, vem justificando o uso cada vez mais intensivo de forças federais na segurança pública. Desde 2007, acredita-se que cerca de 100 mil pessoas morreram no México por causa da violência relacionada aos cartéis.

Outro fator que impacta a popularidade presidencial é o combate a corrupção. Em abril de 2015, foi aprovado no Senado federal o Sistema Nacional Anticorrupção (SNA), que modificou quatorze artigos da Constituição mexicana visando aumentar o combate aos atos ilícitos. Contudo, mesmo com a aprovação, as críticas da oposição não cessaram, já que não foi alterado o Artigo 108, que mantém inimputável o presidente do país. A polêmica ganhou corpo justamente porque, em novembro de 2014, saíram denúncias de conflito de interesse envolvendo Peña Nieto e sua esposa, dona de uma mansão construída por uma empresa que prestava serviços ao governo priista.

Serão, portanto, muitos os desafios que o presidente Enrique Peña Nieto enfrentará em seus próximos dois anos de mandato. Ele também terá dificuldades para emplacar outro candidato priista em 2018, já que no México não há possibilidade de reeleição. Em entrevista ao jornal La Jornada, em 23 de maio de 2016, o atual chefe do Executivo mexicano declarou: “Los datos acreditan que hay más empleo que nunca. Todos los indicadores hablan de que estamos avanzando. Además, en un entorno mundial muy difícil. En Latinoamérica nos estamos convirtiendo en el principal motor de crecimiento. México está creciendo, no a tasas que quisiéramos, pero sí de manera relevante”.

Basta, contudo, um olhar mais cauteloso para ver que nem tudo segue avançando, nem tudo está bem.