Muita gente afirma que Hillary e Trump, tudo somado, não são tão diferentes assim.

Os que assim pensam compõem dois tipos básicos de “realistas”.

Há os pessimistas à moda antiga, para quem a democrata e o republicano são igualmente “imperialistas” e defendem o mesmo way of life, o mesmo sistema, além de serem, cada um a seu modo, arrogantes, milionários e filhos da “elite branca”. Ambos encarnariam o que há de pior nos EUA, para dentro e para fora. Para eles, os dois candidatos estão ali para “representar um papel”: rosnam, se ofendem e se agridem reciprocamente, mas nos bastidores trocam afagos, abraçados em mediocridade e falsidade.

Numa variante meio irônica dessa posição, Leandro Karnal chega mesmo a falar em “Trumpillary” (Estadão, 08/11/) para salientar que “quem manda nos EUA e no Brasil não está concorrendo”.

E há os otimistas desencantados de maiores utopias, que dizem que tanto Hillary quanto Trump são bons candidatos, a cara dos EUA, ele a melhor expressão do self-made man, do empresário voluptuoso e com “espírito animal”exacerbado, ela a defensora dos direitos civis e das políticas sociais.

São dois blocos de torcedores que olham para os times em campo e não torcem. Nem querem torcer, pois pensam que tanto faz. Mais ou menos como a atriz Susan Sarandon, que recentemente disse que não vota em Hillary porque “não vota com a vagina” e está em busca de coisa mulher. A disputa, para ela, é indiferente.

Na área de Relações Internacionais, há teses tradicionais, quase lugares-comuns. Os republicanos seriam melhores para o Brasil, porque são menos protecionistas, ao passo que os democratas tendem a endurecer o jogo comercial. Por isso, alguns pensam que, ganhando quem ganhar, o ideal seria que o Congresso tenha maioria oposta ao presidente, gerando uma situação intermediária, de equilíbrio, nem tanto ao céu, nem tanto à terra. É uma forma de indiferença.

Tempos difíceis os nossos. As pessoas precisam se posicionar sobre tudo e precisam manifestar publicamente seus posicionamentos. Ao fazê-lo, são arrastados pelos detalhes, perdem de vista a partitura completa e valem-se de malabarismos para, de algum modo, chamar atenção. Quem fala a coisa mais “engraçada” ou “genial” ganha pontos, likes no Facebook e aplausos. Metodologia, esforço de totalização e de politização bem compreendida? Ora, às favas com tudo isso.

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Bem, eu torço por Hillary, com e sem metodologia. E o faço em nome de coisas básicas e de valores que para mim continuam a ser importantes. Para a humanidade (e quero crer que para os norte-americanos também), um democrata será sempre melhor que um republicano. Uma mulher empoderada democraticamente valerá mais que 10 milhões de machos-alfa falando alto e batendo na mesa. O casal Obama é um certificado de garantia. Defender direitos civis e sociais é melhor, mais digno e mais importante do que defender que a América seja “grande de novo”.

Pode ser verdade que quem manda não está concorrendo; mas quando é que esteve, em que país ou época histórica? Um presidente não é uma marionete, tem margem de manobra e autonomia decisória, por mais que o sistema seja forte e o limite. Fala para o povo e para o mundo, tem peso simbólico, é uma referência ética para todos, ajuda ou atrapalha.

Podemos buscar chifre em cabeça de cavalo para nos posicionarmos e justificarmos nossa indiferença, mas não deveríamos deixar de lado jamais a differentia specifica que faz com que os gatos não sejam pardos, nem sequer à noite.

Trump é machista, Hillary não é. Ele fala feio e é agressivo, ela é educada no falar e tem gestos elegantes. Ele apela o tempo todo, ela tenta manter a serenidade. Ele explora a frustração das pessoas e difunde uma esperança demagógica, ressentida, ela se apoia na continuidade do processo de melhoria progressiva da vida. Podem ambos ter o rabo preso, mas o rabo de cada um deles é específico. Podem estar só desempenhando papéis definidos por marqueteiros. Mas estão amarrados por tradições políticas relevantes, traduzem vínculos e compromissos diferentes, sugerem orientações políticas e morais particulares.

Seria preciso mais, nesses tempos em que a estética e a narrativa contam tanto?

De resto, como sempre, que vença quem conseguir mais votos.