A “guerra cambial” foi alertada, em 2010, pelo ex-ministro da fazenda do Brasil, Guido Mantega, para descrever as oscilações bruscas do dólar e do yuan chinês. Naquela altura, vivia-se um momento em que desvalorizar moedas se tornara estratégia global para enfrentar a crise financeira.

Rejeitada pelo FMI, a expressão “guerra cambial” retorna agora à tona, acompanhando o temor sobre a desaceleração da economia chinesa. Se voltarmos alguns anos no tempo, especificamente ao ápice da crise financeira internacional (2008-9), é possível notar que a tática de desvalorizar o câmbio foi usada por diversos países – inclusive os Estados Unidos e o Japão – para enfrentar a crise.

Em 2008-9, os Estados Unidos foram os primeiros a adotar o afrouxamento quantitativo. O abrandamento da política monetária norte-americana causou forte expansão monetária, que se somou à taxa de juros baixa e ao enfraquecimento do dólar. Como consequência, países como Brasil conheceram a valorização de suas moedas e a redução de suas exportações, uma vez que o dólar mais barato é sinônimo de produto nacional mais caro no exterior. Como resposta, diversos governos intervieram no mercado de câmbio, caracterizando o momento de estratégia global como uma “guerra cambial”.

O governo japonês, por exemplo, interferiu no mercado de câmbio como não fazia desde 2004, em um esforço para reduzir o valor dos ienes em relação ao dólar. No Brasil, o governo impôs controles de capital e ameaçou uma intervenção direta, a fim de suprimir a nova apreciação do real (que aquela altura estava próximo a 1,70 reais em relação ao dólar). Outros países como, por exemplo, Coreia do Sul, Taiwan e Tailândia, adotaram medidas semelhantes em resposta aos grandes influxos de capital. Na Europa, críticas foram feitas à estratégia de flexibilização quantitativa norte-americana, como medida projetada para orientar a taxa de câmbio do dólar artificialmente para baixo com a ajuda de altíssimas quantidades de moeda impressa pelo Federal Reserve (o BC dos EUA). Em 2010, o governo alemão afirmava a falta de coerência “quando os norte-americanos acusam a China de manipulação cambial e, em seguida, orientam a taxa de câmbio do dólar artificialmente baixa com a ajuda do seu Banco Central”.

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Em 2015, o temor do mercado em relação às ações do governo chinês é exatamente o mesmo que ocorria em 2008-9 em relação aos Estados Unidos. Em ambos os casos, a falta de harmonia macroeconômica é considerada uma das principais causas a gerar distorções. Além disso, a excessiva proteção do mercado doméstico, recorrente em períodos de crise, pode, em última instância, afetar o comércio internacional.

Embora os Estados Unidos acusem os chineses de “manipuladores de moeda”, a liquidez internacional causada pelo Banco Central norte-americano, lá atrás na crise financeira dos sub-primes, também causou distorções e protegeu as empresas nacionais. Portanto, tanto nos Estados Unidos quanto na China, o papel das políticas cambiais está intimamente ligado às políticas que estimulam o crescimento da demanda interna e das exportações. No Brasil o sinal de alerta está ligado, apesar da latente vulnerabilidade da nossa economia. [Publicado originalmente no Estadão Noite de 27/08/2015].

Autor(a)

  • O Núcleo de Estudos e Análises internacionais (NEAI), vinculado ao Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP) busca dialogar com o mundo em que vivemos, com o sistema internacional de Estados, seus atores e processos, seus temas e problemas, e as ideias que nele circulam.