Início de governo é sempre um momento paradoxal. As expectativas positivas dos que elegeram os novos governantes dão-lhes condições de ousar, ao mesmo tempo em que a equipe que chega enfrenta diversas dificuldades políticas e operacionais, associadas ao desconhecimento relativo dos mapas do poder. O governo vive uma lua-de-mel com a sociedade e tende a se valer disso para apresentar suas propostas e lutar por elas, unificar seus colaboradores e organizar as bases políticas que lhe darão sustentação no Congresso e na opinião pública.

O governo de Jair Bolsonaro não foge à regra. Mas se mostra propenso a não aproveitar os ventos favoráveis que o elegeram em 2018. Não conseguiu ainda transformar suas ideias-força em propostas factíveis, o que o faz caminhar aos solavancos, com hesitações e vai-e-vem. Carece de coordenação interna e de uma boa comunicação para fora, problemas explicados em parte por uma composição ministerial de baixo perfil, na qual poucos se destacam e vários tropeçam no cotidiano.

Na estratégica área da Política Externa, há como que uma reação de espanto e pasmo com os primeiros sinais da orientação que se está a gestar. Analistas, jornalistas, políticos, empresários e militares manifestam-se seguidamente para avaliar os movimentos do chanceler Ernesto Araújo, na expectativa, também, de destacar os riscos e inconvenientes que a política em gestação poderá acarretar para o País. Foi-se formando assim um consenso, assentado no reconhecimento de que a tentativa de reescrever a presença do Brasil no mundo mediante o uso abusivo de construções ideológicas “antiglobalistas” e de alinhamentos automáticos com os Estados Unidos de Donald Trump rompe com as melhores tradições da diplomacia nacional e oferece ao mundo uma coreografia regressista e de qualidade discutível, que não beneficia a imagem internacional do País. Um patrimônio político de grande relevância é assim dilapidado.

Leia mais:  Sem âncora diplomática, América do Sul fica à deriva

A exoneração do diplomata Paulo Roberto de Almeida da presidência do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), do Itamaraty, no último dia 4 de março, só confirma os critérios ideológicos e a intolerância que preponderam na condução da política externa.

O NEAI está em sintonia com essa preocupação e pretende continuar contribuindo para a análise crítica e independente da política externa brasileira, como tem feito ao longo dos últimos anos e como fizemos em algumas atualizações anteriores. (Ver artigos de Roberto Abdenur, Matias Spektor  e Marco Aurélio Nogueira).

Para tanto, selecionamos alguns artigos publicados recentemente na imprensa nacional, assinados por importantes intelectuais e estadistas, que nos auxiliam a compreender os problemas de política externa que estão, hoje, há poucos meses da posse de Jair Bolsonaro, a criar um ambiente de pessimismo e perturbação nos negócios do Estado nacional.

Outras contribuições serão progressivamente incorporadas. Damos a largada com a íntegra da conferência pronunciada pelo diplomata Rubens Ricupero no CEBRI – Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Na sequência, virão artigos de Fernando Henrique Cardoso, Luiz Werneck Vianna e Celso Lafer.

1. Política externa: desafios e contradições. Por Rubens Ricupero

2. A vez da Venezuela. Por Fernando Henrique Cardoso

3. Sobre a identidade internacional do Brasil. Por Celso Lafer

4. Impasses da hora presente. Por Luiz Werneck Vianna

5. O centro da crise do Itamaraty. Por Míriam Leitão

6. Bolsonaro, Trump e o Brasil no mundo. Por Marco Aurélio Nogueira

7. Riscos da diplomacia paralela. Por Roberto Abdenur