O presidente Jair Bolsonaro discursou na manhã de 24 de setembro durante encontro de chefes de Estado e governo na Assembleia-Geral da ONU. Como praxe, o Brasil abre os discursos e, historicamente, costuma ressaltar o valor das instituições, defender o multilateralismo e o direito internacional. Não dessa vez.

Em um discurso que parecia por vezes improvisado ou mesmo afastado das grandes construções narrativas que marcaram o posicionamento brasileiro via Itamaraty, Bolsonaro mais uma vez se afastou das nossas tradições diplomáticas e reiterou nossa posição ao lado de líderes e grupos conspiracionistas.

Ao invés de promover a abertura do diálogo, o presidente brasileiro preferiu mandar indiretas aos líderes europeus e exaltar seu colega americano, Donald Trump. Esquece, contudo, Jair Bolsonaro, que o tão aclamado acordo de livre-comércio com a União Europeia (que ainda é apenas uma promessa cada vez mais distante) precisa passar pela aprovação de parlamentos europeus onde sua popularidade é cada vez menor e seu discurso cada vez mais combatido.

O tom conspiracionista acertou diretamente na mídia, acusada de mentir sobre a realidade brasileira, e se inspirou nas sandices anti-globalistas de que nosso país foi resgatado de uma iminente revolução socialista patrocinada por Cuba e Venezuela.

Em termos práticos, o Brasil se isola ainda mais. A tradição de país mediador, aberto e tolerante, dá espaço a um país que julga mais importante a orientação sexual de seus cidadãos que o combate às desigualdades. Pior ainda: que adota um discurso soberanista em um período que exige entender justamente o transnacional, o diverso, o “outro”. A vergonha agora foi internacionalizada.