Compreender o surgimento e a evolução do conceito de saúde global é essencial para diferenciá-la de seus parentes próximos, a saúde pública e a saúde internacional. É importante, também, para que se estabeleçam as abordagens a serem seguidas, tanto pelos acadêmicos quanto pelo decisores públicos, considerando que a saúde é um tema que desafia as distinções entre a política doméstica e a internacional. Neste sentido, Koplan et al (2009) definem a disciplina de Saúde Global como sustentada por quatro fatores: (1) tomada de decisão com base em dados e evidências; (2) foco nas populações e não nos indivíduos; (3) objetivo de justiça social e equidade; e (4) ênfase na prevenção, em vez de cuidados curativos.

Fried et al (2010) afirmam que saúde global e saúde pública são indistinguíveis: ambas disciplinas vêem a saúde em termos de bem-estar físico, mental e social, e não apenas como ausência de doença. Ademais, tanto a saúde pública quanto a saúde global enfatizam a necessidade de abordagens individualizadas para a promoção da saúde e a compreensão das causas sociais, culturais e econômicas da falta de saúde. Para debatermos e adotarmos uma definição de saúde global, precisamos de uma contextualização histórica.

A Saúde Pública teve origem no século XIV em um contexto de respostas institucionais organizadas ao controle de doenças durante a epidemia de peste bubônica (1347-1352). Provocada pela bactéria yersinia pestis e transmitida ao homem pela pulga através do rato-preto, a peste bubônica foi espalhada por marinheiros e matou cerca de 50 milhões de pessoas, correspondente a 60% da população da Europa no período (Benedictow, 2005). Com efeito, McNeil (1976) alega que a medicina foi impotente contra a peste bubônica e que a única maneira encontrada para impedir a propagação da infecção era evitar contato com pessoas infectadas e objetos contaminados. Foi assim que surgiu a quarentena.  Algumas cidades-estado impediram a entrada em seus territórios principalmente de comerciantes e grupos minoritários, como judeus e pessoas com hanseníase. Um cordão sanitário foi imposto por guardas armados ao longo de rotas de trânsito e em pontos de acesso às cidades. A implementação dessas medidas exigiu uma ação rápida das autoridades, incluindo a mobilização de forças repressivas.

Posteriormente, a expansão colonial contribuiu para a dispersão de doenças como influenza e varíola. Na esteira da Revolução Industrial (1750-1850), a rápida urbanização e a expansão cidades, somadas às condições insalubres de trabalho e de  moradia, levaram a um aumento das taxas de mortalidade e de doenças como tuberculose e tifo. Houve dois grandes surtos de cólera em Londres: em 1832 e em 1848. Assim, a primeira lei de saúde pública, em 1848, criou um Conselho Central de Saúde visando: melhor drenagem e fornecimento de esgotos; remoção de todos os resíduos de casas, ruas e estradas; o fornecimento de água potável e a nomeação de um oficial médico para cada cidade.

Três anos depois, em 1851, a Primeira Conferência Sanitária Internacional (Paris) foi convocada para debater os requisitos de quarentena conflitantes e dispendiosos de diferentes países europeus bem como o controle da cólera, da peste e da febre amarela. Ela foi ratificada e entrou em vigor na Sétima Conferência Sanitária Internacional em Veneza, em 1892. Outras conferências em Dresden, em 1893, e em Paris, em 1894, resultaram em duas convenções adicionais relacionadas à cólera. A conferência de 1897 em Veneza adotou uma nova convenção internacional para a prevenção da propagação da peste. As quatro convenções foram consolidadas em uma única Convenção Sanitária Internacional em 1903 (WORLD HEALTH ORGANIZATION).

No final do século XIX e início do século XX, houve um aumento no conhecimento sobre as causas e a disseminação de doenças transmissíveis levando a diminuições dramáticas na mortalidade de crianças e adultos através de melhorias nas condições sociais e econômicas. Destacam-se, ainda, a descoberta de vacinas e a implementação de programas de educação em saúde. Em 1909 o Escritório Internacional de Higiene Pública (L’Office Internationale d’Hygiene Publique) foi fundado em Paris com o objetivo de supervisionar as regras internacionais relativas à quarentena de navios e portos – para evitar a propagação da peste e da cólera – e para administrar as convenções de saúde pública. Neste período também foram estabelecidas escolas de saúde pública, fundações internacionais – como a Fundação Rockefeller – e agências intergovernamentais interessadas em saúde pública, como a Organização de Saúde da Liga das Nações, cujo foco inicial eram epidemias que assolaram a Europa oriental após a Primeira Guerra Mundial.

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Considera-se o fim da Segunda Guerra Mundial como o início da Saúde Pública Internacional (Fried et al, 2010). Observa-se um reconhecimento crescente de que muitas doenças no mundo colonial não eram facilmente resolvidas com intervenções médicas e estavam intrinsecamente ligadas à desnutrição e à pobreza. Em 1948, foi criada a Organização Mundial da Saúde com o objetivo de “fornecer liderança em questões críticas para a saúde e envolvimento em parcerias onde é necessária uma ação conjunta; moldar a agenda de pesquisa; estabelecer normas e padrões e promover e monitorar sua implemtanção; articular opções políticas éticas e baseadas em evidências; fornecer apoio técnico e construir capacidade institucional sustentável e monitorar a situação da saúde e avaliar as tendências” (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1948?).

Com efeito, o termo saúde internacional foi usado para o trabalho de saúde no exterior, com foco geográfico nos países em desenvolvimento e muitas vezes com um conteúdo de doenças infecciosas e tropicais, água e saneamento, desnutrição e saúde materno-infantil (Koplan et al, 2009). Merson, Black e Mills (2006, p. XIV) definem saúde internacional como “a aplicação dos princípios da saúde pública a problemas e desafios que afetam países de baixa e média renda e ao conjunto complexo de forças globais e locais que os influenciam”.

Assim, a saúde global compartilha com a saúde pública e a saúde internacional algumas características: prioridade da abordagem preventiva; foco em populações mais pobres, vulneráveis e carentes; abordagens multidisciplinares e interdisciplinares; ênfase na saúde como bem público e na importância dos sistemas e estruturas de saúde; e a participação de diversos interessados diretos nas tomadas de decisão. Neste contexto, no artigo “Towards a common definition of global health”, Koplan, Bond & Merson apontam que global refere-se a qualquer questão de saúde que preocupe muitos países ou seja afetada por determinantes transnacionais, como mudança climática ou urbanização, e exijam soluções específicas, igualmente transnacionais. Dessa forma, o global na saúde global refere-se ao escopo dos problemas, não à sua localização.

A área da saúde tem sido desafiada constantemente devido ao ressurgimento de doenças infecciosas e ao aumento das doenças não transmissíveis ou crônicas – que já foram consideradas um problema de nações de alta renda e hoje atingem milhões de pessoas de países de baixa e média renda -, como obesidade, doenças cardiovasculares, hipertensão e diabetes; e também pela ascensão de novos atores como ONGs, setor privado (incluindo empresas farmacêuticas), fundações filantrópicas (Bill e Melinda Gates, Ted Turner), entre outros.

O gerenciamento dessa rica interdependência de atores, redes e interfaces exige a consolidação de uma governança global, que passa pelo debate acadêmico, a fim de lidar com os crescentes desafios à saúde, os quais requerem ação coletiva e transfronteiriça para que possam ser efetivamente abordados.


REFERÊNCIAS

Benedictow, O. The Black Death: The Greatest Catastrophe Ever. History Today. 2005. [online] Disponível em: www.historytoday.com (Acesso 20/10/2018)

Fried, L.P., Bentley, M.E., Buekens, P., Burke, D.S., Frenk, J.J., Klag, M.J. and Spencer, H.C. Global health is public health. The Lancet, 375(9714): 535–537. 2010

Koplan J; Bond T; Merson M. Towards a common definition of global health. The Lancet; 373: 1993-1995. 2009.

McNeill, WH. Plagues and Peoples. New York: Doubleday. 1976

Merson MH, Black RE, Mills AJ. International public health: diseases, programs, systems, and policies. 2nd ed. Sudbury, MA: Jones and Bartlett; 2006.

Merson MH, Black RE, Mills AJ. Global health: diseases, programs, systems, and policies. Jones & Bartlett Learning; Burlignton, MA. 2012

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Origin and development of health cooperation. Disponível em: https://www.who.int/global_health_histories/background/en/ (Acesso: 22/10/2018).

WORLD HEALTH ORGANIZATION. What we do. Disponível em: https://www.who.int/about/what-we-do/en (Acesso: 22/10/2018).

Doutoranda em Relações Internacionais na Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Política Internacional e Comparada pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). Atuou como pesquisadora da Fiocruz e consultora da Unesco.