Nos dias 13 e 14 deste mês de novembro, acontece a XI Cúpula do BRICS, reunindo os chefes de Estado e de Governo dos países que formam o grupo: Jair Bolsonaro (Brasil), Vladimir Putin (Rússia), Narendra Modi (Índia), Xi Jinping (China) e Cyril Ramaphosa (África do Sul). O tema geral do encontro é “Crescimento Econômico para um Futuro Inovador”, e o objetivo fixado pelo grupo, o “fortalecimento de cooperações em ciência, tecnologia e economia”.

As cúpulas do BRICS são sempre acontecimentos de grande relevância política e diplomática para as relações internacionais. As personalidades que se reúnem representam 42% da população mundial, 23% do PIB mundial, 30% do território mundial e 18% do comércio mundial. Além da expressividade dos números, é necessário considerar o que eles representam em diversidade étnica, linguística, religiosa e cultural. Em virtude da importância que cada um destes Estados tem em seus respectivos continentes, pode-se considerar que representam a maioria da humanidade em toda sua diversidade.

O BRICS começou a ganhar forma em 2006. A partir desse ano, os diplomatas dos quatro primeiros começaram a se articular para atuarem em bloco nos diferentes fóruns multilaterais. E, no ano de 2009, o grupo se formalizou com as reuniões de chefes de Estado e de Governo. Desde então, as cúpulas têm sido regulares e sempre antecedidas pelas reuniões preparatórias de diplomatas e secretários.

Inicialmente, no Brasil, o grupo foi alvo de grande descrédito. A mídia brasileira, em especial, foi pródiga em afirmar a desnecessidade de reuniões de países que nada tinham em comum. Sempre procurando dar a entender que o grupo havia sido uma invenção de Jim O’Neil e que, por isso, pouco ou nada teriam a acrescentar, quando reunidos. Segundo o economista do Goldman Sachs, se as economias dos países que formam o grupo continuassem a crescer com os mesmos índices de então, esses países teriam peso decisivo no conjunto da economia mundial no futuro próximo.

O argumento mais usado pelos articulistas especializados em economia era que os países do grupo eram concorrentes. A heterogeneidade política e cultural, de um lado, e a falta de complementaridade econômica, de outro, inviabilizariam qualquer articulação que resultasse em benefícios mútuos. Evidentemente que essas avaliações negativas deram lugar a outra visão quando os países-membros decidiram criar, na Cúpula de Fortaleza, em 2014, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e o Arranjo Contingente de Reservas (ACR).

Diferentemente da mídia brasileira, os agentes do governo norte-americano e os formuladores de política dos diferentes think tanks daquele país viram, desde o início, a formação do grupo com grande preocupação. Os argumentos da mídia nada diziam a essas pessoas. Os critérios da mídia lhes eram completamente irrelevantes. O que lhes parecia muito preocupante era o impacto político que o grupo podia causar, em razão de seu grande potencial. Afinal de contas, o grupo reúne três potências nucleares (Rússia, China e Índia), dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Rússia e China), um fundador do Movimento dos Países Não-Alinhados (Índia), um país cujo líder maior é símbolo do antirracismo (África do Sul de Nelson Mandela) e, finalmente, um país que sempre estivera na linha de frente na luta em favor de uma ordem econômica internacional mais justa para com os países em desenvolvimento (Brasil). Cada qual uma liderança em seu respectivo continente.

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A preocupação dos norte-americanos dizia respeito à motivação do grupo em trabalhar em favor de uma nova ordem internacional, reeditando em bases mais realistas e a cavaleiro de um significativo crescimento econômico a bandeira que fora levantada pelo Terceiro Mundo na década de 1970. Além do mais, a formalização do BRICS coincidia com a decisão do G20 Financeiro, organizado em 1999, de se transformar, justamente no ano de 2009, em grupo permanente, assumindo assim o lugar do G7 como coordenadores da governança econômica global.

Ao chegar à cúpula deste ano de 2019, observamos que muita coisa mudou em relação ao BRICS e, hoje, já não apresenta a unidade que tinha. A chegada ao poder do Partido do Povo Indiano, em 2014, produziu impacto no grupo. O BJP (Bharatiyana Janata) é um partido nacionalista hindu, defensor do liberalismo econômico, que apresenta dificuldades no relacionamento com a China e é tradicionalmente mais próximo dos Estados Unidos.

A África do Sul foi outro país-membro a se afogar em crise. Desde a eleição de 2014, o país se viu sacudido por persistente redução da atividade econômica, ao mesmo tempo em que sofreu forte instabilidade política decorrente das acusações de corrupção contra o presidente Jacob Zuma que, em 2018, foi deposto e substituído por seu vice Cyril Ramaphosa. A combinação de fraco desempenho econômico com agitação política resultou, como não podia deixar de ser, em acanhamento político e diplomático da África do Sul que, assim, chega um tanto enfraquecida à atual cúpula.

Por último, há a considerar o caso do Brasil. A eleição de Jair Bolsonaro mudou completamente a direção da política externa. Ainda que os vínculos econômicos que o Brasil mantém com a China sejam mais fortes do que com os Estados Unidos, a Chancelaria brasileira deu brusca guinada em direção ao país do norte. Fascinado pelo governo Trump, o governante brasileiro tem procurado seguir cegamente o que ele considera ser do agrado do presidente norte-americano. Como não se pode servir a dois senhores simultaneamente, as relações do Brasil com o BRICS esfriaram de forma considerável. Afinal, como se posicionar em favor de nova ordem internacional e, ao mesmo tempo, associar-se subservientemente àquele Estado que se considera o guardião da ordem internacional vigente?

Nada disso significa que o BRICS está ultrapassado. Com o passar do tempo, seus membros foram descobrindo e encontrando muitas oportunidades de cooperação, assim como as organizações da sociedade civil foram aproveitando para se conhecer e empreender interessantes processos de cooperação, particularmente na área da ciência e da tecnologia, envolvendo institutos e universidades.

O núcleo duro do BRICS, formado por Rússia e China, permanece firme em relação ao propósito inicial. Naturalmente, a atitude dos dois é a de ter paciência, manter o que já se conquistou e esperar que, no futuro próximo, mudanças políticas ocorram mais uma vez, para que o BRICS recupere seu importante papel de ator coletivo e defensor dos interesses dos países em desenvolvimento.


Williams Gonçalves é pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU) e professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval (PPGEM-EGN).