O discurso de Jair Bolsonaro na ONU trouxe de volta uma era que já não mais existe, marcada por cortinas de ferro, guerras frias e obsessões nacionalistas. Um mundo que submergiu. O presidente brasileiro optou por falar de temas que não refletem a atual estrutura do mundo. Tolerância zero com preocupações ambientalistas, com os que se batem pela recuperação das florestas e a proteção das populações originais, com os que desejam um mundo mais pacífico e harmonioso. A beligerância deu o tom.

O presidente brasileiro bateu a torto e a direito, como um pugilista desorientado, sem dar a mínima para as consequências.

Mal articulado, o discurso presidencial insistiu em ênfases que importam a seus seguidores mais fanáticos e à extrema direita europeia, mas que pouca relevância têm para o conjunto da humanidade ou para os brasileiros. Quando falou da Amazônia – esse sim um tema inequivocamente relevante – foi para atacar a mídia, as organizações não governamentais e as potências “colonialistas”, acusando-as de mentir e inventar uma crise só para roubar a soberania brasileira.

Não mostrou a altivez que se espera de um país do porte do Brasil. Optou por se alinhar atabalhoadamente aos Estados Unidos e aos governos europeus de extrema direita. Tendo Donald Trump como sua referência de estadista, o presidente brasileiro só faltou se ajoelhar compungido diante de Tio Sam. Em seu radar, porém, figurava também Steve Bannon, o desafeto de Trump que deseja pilotar uma guinada direitista no mundo.

Bolsonaro falou para seus eleitores brasileiros e para os “nacionalistas iliberais” de outros países. Tentou forçar uma aproximação com Macri, da Argentina, sem se dar conta de que Macri é uma direita de outro tipo, que quer distância da direita bolsonarista. E tentou passar por líder de uma articulação internacional que não está interessada em lhe estender a mão, nem muito menos em tratá-lo como um igual.

Não é só que o discurso decepcionou. Não havia muita expectativa de que Bolsonaro impressionasse. Ele é o que é, um homem simples e rude, que vai direto ao ponto, não esconde suas preferências ideológicas, nem se preocupa com o que dirão dele no dia seguinte.

Leia mais:  Sem âncora diplomática, América do Sul fica à deriva

Mas era de esperar que, falando num ambiente onde prevalece a diplomacia e a linguagem cuidadosa, e no qual muitas tratativas estratégicas podem ser feitas, o presidente brasileiro caprichasse um pouco mais na retórica, no mínimo para não brigar desnecessariamente e se mostrar sintonizado com o mundo real. Cabia a ele aliviar a crise diplomática que se abateu sobre o Brasil, dar sinais de moderação, procurar a recomposição de relações trincadas. Em vez disso, a opção foi entrar em um túnel do tempo de volta o passado.

Houve escorregões escandalosos. Ele se vangloriou de ter feitos acordos envolvendo o Mercosul e a União Europeia, esquecendo-se de dizer que o desenho desses acordos antecedeu em muito sua gestão na Presidência. Deu de barato algo que ainda está em processo de aprovação pelos Parlamentos dos mesmos países que ele chama de “colonialistas”. Falou em socialismo 30 anos depois do fim da URSS e mentiu ao dizer que “os presidentes socialistas que me antecederam desviaram centenas de bilhões de dólares comprando parte da mídia e do parlamento, tudo por um projeto de poder absoluto”. De tabela, desancou gratuitamente Cuba e a Venezuela.

Como se fosse pouco, Bolsonaro pediu ajuda à indígena Ysani Kalapalo, que integrou a delegação brasileira, para atacar, com rara grosseria, o líder caiapó Raoni. Tentou usar politicamente os problemas da população indígena brasileira, cujas principais lideranças imediatamente o desmentiram. Foi patético.

Prestou um desserviço ao País. Houve evidentemente quem o aplaudisse, a começar de seus ministros e assessores, que elogiaram, a clareza, a firmeza e a “contundência” do discurso. Sergio Moro chegou ao ponto de dizer que Bolsonaro defendeu a soberania, a liberdade, a democracia. E houve também quem aproveitasse para criticar e diminuir a ONU, vista como se fosse uma instituição decadente e inútil, povoada de esquerdistas desempregados..

O mundo ficou mesmo complicado.