A questão da autonomia no sistema internacional é um dos principais fios condutores das análises acerca da inserção internacional brasileira. Tal prerrogativa pode ser compreendida pela capacidade produzida pelo conceito, auxiliando interpretar de maneira mais ampla as questões internacionais, adicionando na mesma lógica os âmbitos domésticos e estruturais sob uma lente histórica. Por meio dela é possível revisitar toda a trajetória do país, observando como a dimensão da autonomia se fazia presente.

Nos últimos anos, contudo, diversos acontecimentos têm demonstrado a alta vulnerabilidade do Brasil em relação aos acontecimentos internacionais, em um cenário de ampliada assimetria entre os países. Neste sentido, os pontos de contato entre a greve dos caminhoneiros no Brasil (mesmo que sob ‘locaute’) e as últimas grandes alterações no cenário internacional, passaram a intensificar a vulnerabilidade e a fragilidade brasileira, especialmente quando conjugadas com as indefinições internas.

A greve, com início em 22/05/2018, desencadeou uma crise de abastecimento inédita no país, tendo como uma das principais reivindicações a redução do valor do diesel. O Brasil possui grande dependência externa do combustível, na ordem dos 80%, sendo importado em sua maioria dos Estados Unidos. O critério de cálculo dos preços dos combustíveis no Brasil segue os preços internacionais, o que significa que mesmo sendo autossuficiente com capacidade para abastecer o mercado interno, os preços aqui seguem a cotação do mercado global.

Combinado com fatores domésticos e insatisfações generalizadas – que uniram os caminhoneiros inclusive com a afinidade entre patrões e empregados – a greve chamou a atenção para três elementos: primeiro, a segurança energética e a dependência quase absoluta à importação de um combustível fundamental para mover toda a economia do país; segundo, a discutível política de preços da Petrobrás durante a gestão de Pedro Parente; terceiro, a posição periférica brasileira, incapaz de influenciar nas arenas decisórias e políticas no campo da energia.

Neste sentido, o cenário geopolítico do Oriente Médio, produtor global de petróleo, é determinante, assim como a política americana para a região. A saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã, no último dia 8, pode ser exemplificador nesse contexto. Logo após a saída dos EUA do arranjo, os preços do petróleo sofreram expressiva alta, o que significou, portanto, a alta dos preços do diesel por aqui. As implicações da política de Trump logo impuseram um quadro de instabilidade e perspectivas pessimistas.

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O acordo nuclear, que fora desenhado desde o governo Obama em 2015 juntamente com a União Europeia, era até então considerado uma das grandes vitórias da diplomacia americana nas tentativas de conter a proliferação nuclear no Oriente Médio. Com a retirada das pesadas sanções em troca do estancamento das atividades nucleares, o Irã fora fortalecendo os laços com os países europeus, além de uma constante aproximação coma Rússia. Assim que Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos do acordo se desencadeou uma onda de protestos e reações de adversários e aliados, questionando a legitimidade e eficácia daquela ação.

Ademais, no âmbito da ‘grande política’, o quebra-cabeças geopolítico mundial torna-se ainda mais complexo se adicionarmos nessa equação as dúvidas acerca da capacidade americana de resolver os novos dilemas do sistema internacional (palcos e temas como a questão síria, refugiados, etc.), além de outros movimentos ainda mais incertos, como as consequências da ascensão chinesa e a ameaça de uma concertação de potências euroasiáticas encabeçadas pela Rússia e pela China. Essas instabilidades afetam diretamente o Brasil, que recebe os impactos diretos dessas movimentações.

O alcance e capacidade dessas alterações sobre o destino do Brasil são difíceis de determinar, todavia, seria pouco provável que o país passasse incólume por esse ciclo incessante de mudanças. A diminuição na capacidade relativa do governo brasileiro em dispor de recursos de poder para alimentar e criar projetos de inserção externa autônoma confirma esse diagnóstico. É provável que circunstâncias externas voltem a impor nos próximos anos alterações na dinâmica doméstica, de maneira similar à ocorrida durante a greve dos caminhoneiros. A falta de consenso interno e a baixa capacidade dos atores políticos em superar as contradições internas intensificam a condição marginal e periférica. Essa dimensão deveria ser a principal preocupação dos candidatos à presidência no ano de 2018.

Sara Toledo é mestre e doutoranda pelo PPGRI San Tiago Dantas. Especialista em Política e Relações Internacionais (FESPSP). Socióloga pelo Centro Universitário Fundação Santo André (FSA). Professora de Relações Internacionais e Direito Internacional Público e Direitos Humanos na Universidade Positivo (UP), em Curitiba.

Daniel Rei Coronato é doutor em Relações Internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas e professor da Universidade Católica de Santos.