A notícia pegou todo mundo de surpresa. Sem anúncio prévio ou vazamento à imprensa, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai e Peru suspenderam a participação na Unasul (União de Nações Sul-Americanas).

O propósito é quebrar o impasse sobre a eleição do novo secretário-geral do organismo, acéfalo há mais de um ano. Sem secretário-geral, a Unasul fica à deriva, pois seus mecanismos deixaram de operar e o trabalho da burocracia emperra.

A crise é grave. Responsável por quase 40% do orçamento do organismo, o Brasil acumula uma dívida que chegará a R$ 37 milhões até o fim deste ano. Os governos argentino e colombiano cogitaram a possibilidade de abandonar o barco, e o futuro da instituição nunca foi tão incerto.

A chacoalhada era inevitável.

A performance da Unasul na provisão de bens públicos regionais deixa muito a desejar. Quando a natureza do problema é transnacional —como é o caso da epidemia de zika, do crime organizado e do narcotráfico, por exemplo— a América do Sul precisa de coordenação regional para valer.

De quebra, a Unasul foi facilmente capturada por governos de plantão. Durante os últimos dez anos, ela fez vista grossa aos crimes do chavismo e aos ataques de Evo Morales e Rafael Correa contra as instituições de controle e a imprensa livre.

Ela também legitimou a tese segundo a qual seria bom privilegiar o capital sul-americano nas grandes obras de infraestrutura da região. Mas, quando investigações criminais revelaram o modelo pelo qual empreiteiras brasileiras e o Palácio do Planalto utilizavam dinheiro público para emplacar contratos superfaturados e financiar campanhas com dinheiro sujo por toda a região, houve silêncio sepulcral por parte da organização.

Em que pesem esses problemas, entretanto, seria um erro acabar com a Unasul. O organismo cumpriu sua função com rapidez quando houve situações críticas, como o embate territorial na Bolívia, em 2008, e o acirramento das tensões entre Colômbia e Venezuela, em 2010.

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Sem a Unasul, o ambiente regional seria mais precário do que hoje. Num momento em que políticos de todas as colorações prometem resolver problemas sérios fechando fronteiras, um organismo regional de coordenação é o melhor espaço para encontrar soluções inteligentes.

A prioridade, portanto, não deveria ser a de desmantelar ou abandonar o organismo, mas reformá-lo para que possa cumprir seu papel direito. A fórmula para fazê-lo não existe, então terá de ser politicamente costurada.

Matias Spektor

Professor de Relações Internacionais na FGV. Trabalhou para a ONU antes de completar o doutorado em Oxford.