Erick Reis Godliauskas Zen

Doutor e Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente realiza estágio de pós-doutorado como Visiting Scholar na Universidade de Columbina em Nova York, bolsista Capes. Professor da Unisepe / FIVR. Twitter @erickrgzen

 

No início das primárias da eleição americana, o pré-candidato Donald Trump chamou bastante a atenção da imprensa. O bilionário midiático se destacou por vociferar frases misóginas, racistas, anti-imigrantes, anti-latinos, anti-China e anti-etc. Seu jeito espalhafatoso, cabelo engraçado e sem nenhuma noção de respeito fizeram com que suas bobagens ecoassem e despontassem como o fator mais importante das primárias. No entanto, para além da panaceia de ódio e mediocridade do pré-candidato Republicano, o fato mais relevante está do lado Democrata, com o crescimento de Bernie Sanders.

Bernie Sanders se define como um “socialista democrata”. Essa definição tem causado muita confusão, em particular no Brasil, tanto na imprensa como nas publicações especializadas. Essa dificuldade se dá, ao meu ver, pelo impressionante eurocentrismo nas Ciências Humanas no Brasil. Eurocentrismo tanto na elevada carga horária dos cursos de graduação (seja em História de Ciências Políticas, Relações Internacionais e Jornalismo), bem como na visão europeia de mundo que coloniza a nossa percepção. Com isso, o nosso conhecimento, e a produção do conhecimento, sobre Estados Unidos é muito limitado.

No que se refere às questões temáticas, em geral, os estudos sobre os EUA se dedicam à política externa americana e sua influência no Brasil e muito pouco à sociedade americana (a exceção são as comparações entre escravismo no Brasil e nos EUA). Como resultado, não dispomos de muitos analistas que tenham instrumentos intelectuais adequados para interpretar a sociedade e a política americana e, quando o fazem, utilizam instrumentos e paradigmas europeus para a análise ou se colocam mais no papel de tradutores do que de intérpretes.

O fenômeno Sanders poderia servir como estudo de caso, nesse sentido. O principal erro, me parece, está em tentar analisar o que Sanders propõe como socialismo através da história da Europa, pela lente do Partido Social Democrata Alemão ou pelo Partido Socialista Francês, ambos utilizados como paradigma da social-democracia. Ocorre que, em grande medida, o socialismo tem um desenvolvimento histórico particular nos Estados Unidos.

Se é verdade que o Partido Socialista e o Comunista seguiram por longo tempo os caminhos da Segunda e da Terceira Internacional, no que se refere ao campo das ideias, muitas perspectivas socialistas e anarquistas, nos EUA, se combinaram com um liberalismo radical, em particular na virada do século XIX para o XX.

O local mais profícuo do desenvolvimento socialista e anarquista nos EUA foi Nova York, em especial em dois bairros, Harlem e Brooklyn. Bairros estes que são tradicionalmente de operários negros, mas também de imigrantes do leste Europeu, no início do século, e de imigrantes latinos a partir da segunda metade do século XX. Em muito, esses imigrantes operários se desenvolveram economicamente e chegaram à classe média americana, principalmente após a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945).

O socialismo na América, no decorrer do século XX (e aqui precisaríamos de páginas e páginas para explicar), toma bandeiras como a luta por igualdade e equidade, o que significou defender salário justo, direitos trabalhistas, liberdades individuais e direitos civis, sobretudo para inclusão do negro, do indígena e das mulheres. Ao mesmo tempo, apresentou uma crítica aguda ao domínio do Estado e às ameaças à liberdade individual, desferidas por uma plutocracia financeira, ao segredo de Estado, às guerras não justificadas, ao crescente poder do complexo militar e industrial sobre a democracia. Tais ideias se manifestaram fortemente em movimentos sociais, mas não alcançaram os dois principais partidos e as candidaturas para o presidência durante a Guerra Fria, o que não significa que devam ser desprezadas, pois o poder de pressão dos movimentos sociais é significativo nos Estados Unidos.

Portanto, se existe um socialismo à americana, ele é uma combinação peculiar entre a defesa dos direitos individuais, herdados do liberalismo radical, e a perspectiva social-democrata de um Estado que garanta os direitos trabalhistas, os direitos fundamentais, como saúde e educação e assistência aos mais necessitados através de programas sociais.

 

Quem é Bernie Sanders?

Bernie Sanders nasceu no Brooklyn em 1941, filho de judeus imigrados da Polônia e foi educado em uma família laica e progressista. Sua paixão pelos Direitos Civis tem uma longa trajetória e um acúmulo de experiência que deixam claro não se tratar de um oportunista, mas sim de um militante histórico. Iniciou sua carreira política na juventude da Liga Popular Socialista, participou ativamente da luta pelos Direitos Civis na década de 1960, do histórico Congresso pela Igualdade Racial, bem como diretamente se envolveu no movimento estudantil pacifista contra a Guerra do Vietnã. Em 1963, participou da Marcha de Washington por Emprego e Paz. Ainda na década de 1960 teve uma experiência em Israel onde atuou como voluntário em um Kibutz formado por judeus socialistas laicos.

Radicou-se no Estado de Vermont e foi eleito prefeito (Mayor) de Burlington, a principal cidade, por três vezes. Serviu como Congressista deste mesmo Estado por dezesseis anos, sendo que, na maior parte das vezes, sua eleição se deu como candidato independente, sem vínculos com Democratas ou Republicamos. Em 2006 foi eleito Senador e reeleito em 2012 com 71% dos votos.

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Como Senador, Sanders foi um dos poucos que votaram contra a Guerra no Iraque durante o governo  W. Bush e criticou  ferrenhamente o corte de impostos para os ricos feitas por este presidente. Se posicionou contra o USA Patriotic Act, adotado após o atentado terrorista de 11 de setembro, que deu enormes poderes de espionagem para as agências de Segurança limitando Direitos Civis. Mais recentemente se tornou um dos críticos dos programas de espionagem defendendo, como sempre, as liberdades individuais, como a liberdade de expressão.

Contudo, é importante lembrar que a sua defesa radical da Constituição americana já foi alvo de crítica pelos setores progressistas. Um exemplo é a sua interpretação da Segunda Emenda, o que fez com que ele nunca se colocasse como favorável a restrição para a aquisição de armas de fogo. Quando foi eleito Governador do Estado de Vermont recebeu, inclusive, doações da NRA (Associação Nacional de Rifles), principal lobista dos fabricantes de arma.

Assim, Bernie Sanders reúne algumas características muito importantes enquanto candidato: uma ampla trajetória e larga experiência na administração pública além de uma incondicional luta pelos direitos dos trabalhadores. O candidato não é um exótico, oportunista, populista, ou um falso socialista. Ao contrário, faz parte das lutas políticas e das crises recentes pelas quais os Estados Unidos passaram nas últimas décadas.

 

Se as ideias de Sanders têm longa trajetória, o que levou a que ele crescesse politicamente bem agora, a ponto de colocar pressão sobre Hillary Clinton?

Duas respostas me parecem ser centrais. O fato de Barack Obama não ter realizado suas promessas de campanha, desagradando os setores mais progressistas entre os Democratas e, principalmente, a defesa que Sanders propõe dos direitos dos trabalhadores. Esse é o ponto central.

Desde a crise de 2008 os EUA passaram por uma enorme onda de desemprego que vai até 2010 (2011). Atualmente, a maioria dos americanos já recuperou o emprego (o desemprego está por volta de 5%). No entanto, nesse dado esconde uma mudança nas relações de trabalho.

Se o nível de emprego aumentou, o salário diminuiu, ou seja, os americanos que já estiveram próximos a classe média tem dificuldade de pagar suas contas. Quem recebe o salário mínimo ($7 dólares por hora) não consegue pagar por aluguel ou hipoteca, ter um plano de saúde (nos EUA não há saúde pública universal e é preciso comprar um plano privado ou agora estatal) e menos ainda pagar educação (College) para os filhos!

Ainda é preciso acrescentar o papel dos jovens, que são os principais apoiadores da sua campanha. As possibilidades de entrar ou de se manter na classe média na atual situação americana é bastante limitada, para os jovens, ainda mais com as enormes dívidas que  acumulam para estudar e a dificuldade para se conseguir um emprego com benefícios ou contrato longo. É para essa população que as propostas de Sanders soam como música.

As propostas econômicas de Bernie Sanders, vale ressaltar, são distantes da dos demais candidatos, Democratas e Republicanos, pois não defendem uma forma de liberalismo, mas colocam como horizonte o Estado de bem-estar social dos países escandinavos. Sanders sempre cita o New Deal de Franklin D. Roosevelt (1882-1945), como uma referência. Propõe que os mais ricos paguem mais impostos e que o Estado seja provedor de melhores e universais serviços públicos, como saúde, educação, incluindo a universitária, bem como a regulamentação do mercado financeiro e das grandes corporações, a defesa dos direitos trabalhistas e o aumento do salário mínimo.

A esta visão de economia se soma a uma defesa dos direitos civis, dos direitos individuais, a defesa das minorias étnicas, da  LGBTT, dos imigrantes, do aborto, da liberação da maconha, de uma reforma do sistema penal, de um salário igual entre homens e mulheres, e, também, ponto mais polêmico, do porte de armas (que na tradição americana faz parte do direito dos indivíduos). Com relação ao sistema democrático, defende o poder local contra o poder das corporações e a influência do mercado financeiro nas decisões políticas e econômicas do país. Não é à toa que é o único candidato que não aceita receber doações de corporações.

As lutas de Bernie Sanders são históricas e ganharam força diante de uma conjuntura em parte estrutural e em parte específica. Se tudo isso será suficiente para conseguir a vitória sobre Hillary Clinton e sobre o candidato Republicano ainda é cedo para saber. O certo é que tentar medir Sanders e suas ideias a partir de uma referência europeia ou latino-americano não vai facilitar nosso entendimento e pode resultar em um desprezo por possíveis mudanças ou em empolgação demais com relação a elas.