O estado indiano de Karnataka realizou, no último dia 12 de maio, seu pleito regional, com o comparecimento de aproximadamente 72% dos eleitores – um recorde histórico. O resultado, anunciado em 15 de maio, foi ambíguo: enquanto o Partido do Povo Indiano (BJP), do primeiro-ministro Narendra Modi, fortaleceu sua força política ao obter 104 das 224 cadeiras disputadas, sua incapacidade de alcançar a maioria absoluta possibilitou que seu principal opositor, o Congresso Nacional Indiano (INC), articulasse uma coalizão com o partido secular Janata Dal de maneira a obter o direito de formar o governo. Embora o INC tenha assistido à redução considerável de sua bancada na legislatura local (de 122 cadeiras para 78) em detrimento do aumento das proporções do BJP, a estratégia de se vincular a lideranças regionais pode servir como um trunfo político desse tradicional partido, que vinha acumulando consecutivos reveses.

Desde que o BJP assumiu o governo indiano, através da obtenção de maioria absoluta na câmara baixa durante as eleições nacionais de 2014, o cenário político da Índia tem passado por uma situação inédita: o tradicional INC, outrora considerado o principal partido pela presença de líderes como Mahatma Gandhi e Jawaharlal Nehru, passou a ver sua base eleitoral minguar gradativamente em meio às dificuldades em aplicar políticas econômicas e sociais durante seu último governo nacional, que perdurou de 2004 até 2014, diante das heterogêneas demandas de sua instável coalizão e do descontentamento popular referente a casos de corrupção que permeavam os noticiários e desencadeavam  volumosos protestos.

Aproveitando-se do conturbado cenário, o BJP catalisou um processo de reconfiguração de sua estratégia. A convergência entre Amit Shah, como presidente do partido, e a nomeação de Narendra Modi como primeiro-ministro indiano provocou uma readequação do BJP diante da sociedade indiana. Enquanto Modi conquistou o respaldo dos meios econômicos e financeiros internacionais através de suas propostas de facilitação da entrada de investimentos e abertura comercial indiana, o BJP procurou gradativamente se distanciar da tradicional imagem de uma agremiação que representava as altas castas do histórico sistema de estratificação social indiano – ainda presente, apesar da ilegalidade de discriminação. Pautando-se na tradicional defesa dos preceitos hinduístas e mantendo vínculos com organizações chauvinistas, o BJP mesclou seu discurso com as alegadas bandeiras da boa-governança e da desburocratização. Ademais, Modi vale-se da carta nacionalista quando o assunto é política externa, uma vez que seu ativo engajamento internacional se apoia na assertividade no combate ao terrorismo e na pragmática alocação da Índia como uma potência global e importante ator na região do Indo-Pacífico – mesmo que isso signifique enveredar por maiores rivalidades com a China.

Na Índia, votações regionais permeiam o intervalo de cinco anos entre as eleições gerais, apresentando o comportamento da população e servindo aos partidos políticos como verdadeiros ensaios para a formulação de suas estratégias em âmbito nacional. Cada pleito regional é considerado um desafio para os principais partidos. Nos últimos anos, o BJP e seu aliados passaram a consolidar gradativamente  sua força regional, embora no sul do país ainda encontre grandes dificuldades. Dos 29 estados indianos, essa coalizão já controla 21; ou seja, 70% da população da Índia. A concentração de poder levou a migração estratégica de partidos regionais para seu entorno – caso do líder Nitish Kumar, que preferiu romper recentemente uma parceria de partidos locais com o INC no estado de Bihar após conturbadas alegações de corrupção envolvendo um líder regional.

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O INC e seu líder Rahul Gandhi, herdeiro político da dinastia Nehru-Gandhi, procuraram diversas formas de superar o capital político de Modi e as proporções do BJP – maior partido político do mundo em termos de filiados. São diversas as dificuldades alegadas pelos rivais do BJP, que vão desde suposta utilização de meios corruptos até as dificuldades impostas no financiamento partidário após a “desmonetização” de janeiro de 2017, que retirou de circulação as cédulas de 500 e 1000 rúpias numa economia em que o papel-moeda é amplamente utilizado como meio de pagamento. O INC procurou jogar com diversas questões com a expectativa de vencer o BJP: apresentar as reformas econômicas e tributárias aprovadas pelo atual governo como prejudiciais às pessoas mais pobres e aos trabalhadores informais; chegou mesmo a se aproximar provisoriamente das bandeiras hinduístas, o que choca com os tradicionais posicionamentos seculares do partido. Pouco sucesso foi obtido. As eleições de Karnataka, porém, apresentaram um novo panorama ao INC.

As coalizões pontuais são instáveis pelas suas incertezas, mas as possibilidades de união pragmática das oposições ao BJP apresentam uma sobrevida ao INC. Em Karnataka, onde vivem 64 milhões de pessoas e há um importante centro econômico e tecnológico, o BJP observou certas limitações de sua estratégia na medida em que o INC procurou prontamente se aproximar de partidos locais buscando estabelecer maioria. Somou-se ao contexto o fato de o partido chauvinista Shiv Sena ter rompido com o BJP em Karnataka alegando incompatibilidades e defendendo valores culturais regionais. A disputa eleitoral foi permeada por alegações de corrupção e uma inusitada tentativa do BJP de reivindicar a possibilidade de nomeação de seu líder. Porém, Rahul Gandhi obteve uma importante vitória num momento em que sua liderança era questionada.

Embora vitorioso e vendo o INC perder 44 cadeiras e consequentemente a maioria absoluta conquistada em 2013, o BJP encara o resultado com certa frustração. Em meio ao agravamento de sensíveis problemáticas existentes na sociedade indiana – caso dos problemas com estupro e ações de chauvinistas hindus –, o BJP se deparou novamente com a problemática do enfrentamento às suas oposições conjugadas. Para o INC, essa estratégia deve ser vista como efêmera já que suas incertezas são conhecidas devido as dificuldades em coordenar grandes heterogeneidades e às ambições de retornar ao governo indiano. Porém, num cenário em que disputar contra o BJP é desafiador, uma vez que esse partido possui recursos financeiros e respaldo de relevante parcela da sociedade, encontrar possibilidades de arrefecer seu expansionismo é visto como importante por seus adversários.

Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (PUC-SP/UNESP/UNICAMP) e pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Política Externa dos Estados Unidos (NEPEU).