Fernanda Magnotta

Professora da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), mestre e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP / UNICAMP / PUC-SP)

 

Com o resultado das prévias em Iowa, as eleições nos Estados Unidos voltaram a movimentar o noticiário. Embora ainda seja muito cedo para definir os efeitos nacionais desta votação, o caucus, que tradicionalmente é responsável por dar início ao processo formal de escolha dos candidatos republicanos e democratas, permitiu problematizar tendências, além de ter instigado tentativas de distinguir ganhadores e perdedores desta primeira etapa da disputa eleitoral.

Do lado republicano, o resultado de Iowa deu a vitória para Ted Cruz, senador pelo Texas e preferido dos mais conservadores a la Rick Santorum. Com 27,6% dos votos, desbancou o favoritismo de Donald Trump, que até a véspera da eleição liderava as pesquisas com 30,8%. Trump, que ficou cerca de três pontos atrás de Cruz (obteve 24,3% de votos), amargou não apenas o segundo lugar, como também teve de assistir Marco Rubio, senador pela Flórida, contrariar as pesquisas preliminares e reinar, do alto da terceira colocação, como a revelação da vez. Depois de figurar com apenas 14,5% das intenções de votos no dia anterior ao caucus, Rubio – um moderado que agrada ao grupo ligado a Mitt Romney – alcançou 23,1% na eleição per se.

Entre os democratas, conforme esperado, Hillary venceu, ainda que a diferença mínima de 0,3% dos votos tenha mantido viva a campanha de seu principal adversário, o senador de Vermont, Bernie Sanders, que agora aguarda as primárias de New Hampshire, em 06 de fevereiro, para as quais tem sido considerado o favorito.

Apesar da excitação da mídia internacional, especialmente pela derrapada de Trump, o caucus da última segunda-feira surpreendeu menos do que poderia. Ele, porém, forneceu lições importantes para avaliarmos o que virá nos próximos meses. Entre as verdades inconvenientes que se fazem notórias desde o dia primeiro de fevereiro, três são as mais importantes: (1) Iowa confirmou o diagnóstico de que estamos lidando com um país dividido e polarizado; (2) ratificou a importância de se analisar o perfil do eleitorado e, sobretudo a demografia política de cada estado da federação; e, finalmente, (3) relembrou ao mundo que o sistema norte-americano, em toda sua complexidade, requer um olhar cada vez mais apurado em relação à questão das taxas de comparecimento às urnas.

Trump, que tem sido tratado pela imprensa norte-americana como “candidato tabloide”, ampara sua campanha nos medos e carências da sociedade norte-americana. Como um outsider, ele explora, com ar populista, o esgotamento da “política tradicional” e aposta na crítica ao establishment. Apesar disso, não defende uma plataforma ideológica sólida e é conhecido por ter mudado de posição várias vezes em relação a diferentes temas. Para além do discurso xenófobo e por vezes racista, Trump enfrenta resistência da base de seu próprio partido e publicamente já contrariou os pares em aspectos como ortodoxia fiscal, sistema de saúde e política externa. Neste sentido, a volatilidade do apoio a Trump, em Iowa, ficou clara a partir de dois grupos específicos se mobilizaram e fizeram a diferença para Ted Cruz: os conservadores e os protestantes, muitos dos quais originalmente manifestavam-se em favor do empresário.

O eleitorado de Trump (que já chegou a ser chamado de “Trumpenproletariat”) é composto, em sua maioria, por homens brancos acima dos 50 anos de idade e que concluíram menos de 20% do ciclo básico de educação formal. Além disso, pesquisas indicam que nas projeções nacionais, ele tem alcançado maior número de eleitores independentes, não registrados e de democratas insatisfeitos do que em faixas moderadas do GOP, sigla pela qual é conhecido o partido republicano no país. Em tempo, é importante ter claro que, curiosamente, o grupo de eleitores que geralmente não se dispõe a comparecer para votar durante primárias e caucases converge com o perfil do eleitorado que declara apoio a Trump. Em termos simples, portanto, se ele quiser ser nomeado candidato oficial em julho e tornar-se presidente dos EUA em novembro deverá encontrar meios para converter seus simpatizantes politicamente desengajados em cidadãos mobilizados que depositem votos em urnas.

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Desafio semelhante enfrentará Bernie Sanders nas próximas semanas. O democrata, que recentemente cresceu nas pesquisas, tem investido em um discurso que clama por uma “revolução política” e se apoia na ideia de manter os “cidadãos unidos”. Social-democrata declarado, sua plataforma inclui propostas para revisar o sistema de financiamento de campanhas nos EUA e rever os sistemas educacional, prisional e de saúde. Também inclui severas críticas a Wall Street. Apesar de mobilizar o público jovem (menor de 45 anos de idade), predominantemente masculino e que se considera liberal em larga medida, Sanders deverá enfrentar algumas dificuldades para agradar ao eleitorado médio do país.

Em primeiro lugar, a narrativa da oposição a Sanders tem explorado o “fantasma do socialismo”, descrevendo-o, caricaturalmente, como um radical de esquerda. Além disso, pesquisas já apontaram em mais de uma ocasião que uma parte considerável da sociedade norte-americana tem dificuldades de reconhecer em Sanders o “comandante em chefe” da nação, principalmente pela inexperiência do senador no campo de política externa. Na esteira deste processo, críticas partem também do próprio partido democrata. Entusiastas de Hillary Clinton afirmam que Sanders não teria condições de vencer um republicano na eleição nacional e que prejudicaria as perspectivas do partido de reconquistar o Senado e avançar na Câmara dos Representantes, que atualmente possui maioria republicana. Não à toa, depois dos últimos debates, muitos analistas passaram a afirmar que campanha de Sanders tem forte valor simbólico, mas envolve promessas que nunca poderiam ser cumpridas. O bordão rapidamente se espalhou: “Bernie is a dreamer, Hillary is a doer”.

Em se tratando de Clinton, o favoritismo persiste principalmente entre o eleitorado feminino, que tem idade superior a 45 anos e que se declara liberal em certa medida. Após ter sido senadora, Secretária de Estado e primeira dama, é a candidata mais experiente destas eleições. Apesar disso e do apoio de Obama, que contrariando os primeiros anúncios de sua assessoria acabou por declarar sua preferência antes do início das prévias, Hillary tem pela frente ao menos três grandes desafios: administrar o desgaste, na mídia e na campanha, de uma exposição proporcional às expectativas geradas por sua candidatura; conquistar o voto dos independentes, que na seara democrata tem sido predominantemente capitaneado por Sanders; e atingir uma parcela do eleitorado jovem que atualmente apresenta resistência a ela.

A cinco meses das nomeações oficiais e a nove da eleição nacional, muitas ainda são as dúvidas, mas os inputs a serem monitorados parecem claros. Por ora, em todos os lugares ecoa a canção de Alice Cooper: “everyone in the United States of America wants to be selected, elected, elected, elected”.

Que venham os próximos capítulos.

Autor(a)

  • Fernanda Magnotta

    Fernanda Magnotta é mestre e doutoranda pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP), pós-graduada em Globalização e Cultura (FESP-SP) e bacharel em Relações Internacionais (FAAP). Atualmente é professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP. Autora do livro “As Ideias Importam: o Excepcionalismo Norte-Americano no Alvorecer da Superpotência” (2016) pela editora Appris.