Assim como acontece em outros espaços institucionais e posições de poder – como liderança no mundo corporativo, representatividade nos poderes públicos e na esfera política, meios militares, hierarquias religiosas, etc. –, a desigualdade de gênero se faz presente nos think tanks (TTs) americanos desde sua origem.

Há algum debate sobre desde quando podemos falar neste tipo de instituição nos Estados Unidos, se levarmos em conta que algumas assim chamadas existiam antes mesmo de o termo ser criado, ou pelo menos começar a ser usado em sua acepção atual – caso do Council on Foreign Relations (1921) e da Brookings Institution (1927), por exemplo. Como não se trata de anacronismo grave, vamos tomar o início do século XX como um marco relativamente consensual entre os estudiosos do tema. Isso significa, portanto, que o fenômeno não é novo, nem conjuntural, nem efêmero.

A ausência de novidade não impediu, porém, que este tenha sido até hoje um recorte muito pouco explorado nos estudos sobre estes institutos de pesquisa e análise de políticas públicas – tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. A desproporção na presença de homens e mulheres nos think tanks americanos continua a ser enorme nos cargos de comando, assim como em suas equipes de pesquisadores e na participação de eventos.

Em artigo de 2013 publicado na revista Foreign Policy, Blake Hounshell apontava que, da relação dos 50 think tanks considerados mais relevantes nos Estados Unidos no ano anterior, 42 eram presididos por homens. Entre eles, alguns dos mais antigos e mais prestigiosos do país, como os já citados Brookings (Strobe Talbott) e CFR (Richard Haass) e o American Enterprise Institute (Arthur Brooks). Em Think Tanks and Power in Foreign Policy (da Palgrave Macmillan, 2004), Inderjeet Parmar relata que o CFR começou a aceitar o ingresso de mulheres apenas a partir de 1969. Os motivos para esta política de exclusão nunca foram muito claros, segundo ele, mas entre algumas das alegações risíveis estavam que mulheres não sabem guardar segredo e não têm bom senso.

Entre os supracitados 50 TTs mais influentes, as mulheres aparecem à frente do Carnegie Endowment for International Peace (Jessica Mathews), Woodrow Wilson International Center for Scholars (Jane Harman), Center for American Progress (Neera Tanden), Center for Global Development (Nancy Birdsall), Urban Institute (Sarah Rosen Wartell), New America Foundation (Anne-Marie Slaughter), Pew Center on Global Climate Change (Eileen Claussen) e Stimson Center (Ellen Laipson). A maioria dos institutos com mulheres no comando é de orientação política, editorial e áreas de pesquisa mais progressistas, ou de centro.

Uma curiosidade: em 2016, o Wilson Center foi o primeiro think tank do mundo a receber o certificado Economic Dividends for Gender Equality (EDGE), que avalia o compromisso e as políticas adotadas pela instituição para garantir a igualdade de gênero.

Com algumas alterações desde 2012, o cenário não mudou muito, de acordo com o Global Go To Think Tank Index Report. O universo dos think tanks se mantém predominantemente masculino. Além dos cargos de presidente, diretora, ou CEO, a assimetria ainda afeta as demais posições de chefia, como vice-presidência, ou vice-diretoria, diretores de departamentos, assim como a composição dos conselhos administrativos. O pano de fundo dos obstáculos erguidos para as mulheres nos think tanks é o mesmo que se esparrama pelo tecido social e é um velho conhecido: a ainda prevalecente e estrutural cultura patriarcal.

No último ranking, referente a 2018, dos 50 principais institutos dos EUA, encontrou-se oito presididos por uma mulher: Heritage Foundation (Kay Coles James), Wilson Center (Jane Harman), Center for American Progress (Neera Tanden), Urban Institute (Sarah Vartell), German Marshall Fund of the United States (Karen Donfried), United States Institute of Peace (Nancy Lindorg), Economic Policy Institute (Thea Lee) e New America Foundation (Anne-Marie Slaughter). Destes oito, apenas a Heritage se identifica (e é assim identificada) como marcadamente conservadora na política americana.

Elaborado pelo professor James McGann, diretor do Think Tanks and Civil Societies Program da Universidade da Pensilvânia, o Global Go To Think Tank Index Report traz o levantamento mais conhecido, amplo (global) e regular (anual) sobre think tanks nos EUA e no mundo. Apesar de algumas críticas em termos metodológicos, como a elasticidade excessiva que transforma o termo em um conceito-ônibus onde cabem tipos institucionais cada vez mais diversos, o ranking contribuiu para popularizar os think tanks, mesmo fora dos círculos acadêmicos e do eixo anglo-saxão.

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‘Pinkwashing’ e baixa visibilidade

Em 2019, uma reportagem do jornal The Washington Post de uma série que trata da ausência das mulheres na Ciência Política relata que, nos think tanks, instituições que reúnem pesquisadores de diversos temas e áreas, as mulheres são mesmo um tipo raro. De acordo com os cientistas políticos Tamara Cofman Wittes e Marc Lynch, citados no artigo, do total de palestrantes de 232 eventos sobre Política para o Oriente Médio realizados em seis think tanks em 2014, em Washington, menos de 25% eram mulheres e, em 65% destas conferências, não havia uma única mulher.

Para evitar mascarar o chamado pinkwashing em painéis totalmente masculinos, Tamara e Marc desconsideraram o papel das moderadoras, o qual não tem o mesmo peso simbólico e intelectual da conferencista. Embora não seja tema deste informe, cabe apontar (sem surpresa) que minorias raciais e étnicas também aparecem amplamente subrepresentadas na investigação – sobretudo na área de Política Externa.

Para as autoras do texto publicado no Post, as pesquisadoras Federiga Bindi e Mimosa Giamanco, ambas do Institute of Women Policy Research (IWPR), estes números mostram, entre outras coisas, que mulheres especialistas em seus respectivos campos continuam sem (ou com muito pouco) espaço para expor e disseminar suas pesquisas.

Esta baixa visibilidade pode contribuir para estagnar a carreira e restringir os canais de diálogo (mesmo entre seus pares), mantendo a discussão sobre políticas públicas em diferentes áreas dominada pelos homens, ou seja, pelo saber, pelas necessidades e pelo olhar masculinos. Mas a sociedade não é feita apenas de homens, muito menos apenas para os homens.

Usando a base de dados montada pela iniciativa Women In International Security (WIIS) Gender Scorecard, Federiga e Mimosa monitoraram a participação de mulheres como conferencistas em eventos de política externa promovidos em 2018 por 20 dos principais think tanks localizados em Washington. Foram 5.192 conferencistas, em 967 eventos públicos, com 34% de participação feminina, entre palestrantes e moderadoras. Em 27% dos painéis, havia apenas homens. Entre as poucas exceções, com uma participação mais equilibrada (+40%), as autoras citam Rand Corporation, CFR, Center for American Progress (CAP), U.S. Institute for Peace (USIP), Center for a New American Security (CNAS) e Stimson Center.

De modo mais amplo, o WIIS Gender Scorecard mostrou que, dos 22 think tanks voltados para questões de segurança nacional que foram analisados, apenas três têm o mesmo número de homens e mulheres. Entre outros números reveladores, observou-se que 68% dos principais think tanks em Washington são presididos por homens; a média de especialistas do gênero masculino nestes institutos em DC é de 73%; e somente três de 22 TTs contam com paridade de gênero de seus pesquisadores (The Nuclear Threat Initiative, The Stimson Center e The US Institute of Peace).

Há muitas perguntas sobre think tanks e questões de gênero ainda não respondidas e que precisam de respostas. Afinal, é necessário ter mais líderes mulheres nos think tanks? Isso tem influência nas missões, nos valores, na gestão institucional, no tipo de financiamento que o instituto privilegiará, ou na escolha dos temas de investigação acadêmica? Que benefícios, ou que tipo de estímulo, a igualdade de gênero pode trazer para estes institutos e sua produção intelectual? Qual o impacto (se existir) disso na política e, por consequência, na sociedade? Há impacto setorial? Que modelo institucional e de negócios um TT pode adotar para estimular a participação de mais pesquisadoras? Tantas questões nos levam a considerar, intuitivamente, que existe aqui uma grande oportunidade e uma promissora agenda de pesquisa, com todo um universo de recortes possíveis.

 


Tatiana Teixeira é pesquisadora do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI-IPPRI /UNESP) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU). É também editora do OPEU (Observatório Político dos Estados Unidos ) e assistente editorial da revista Sul Global, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ).

* Este texto foi publicado originalmente no site do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) https://www.opeu.org.br/