Veja um raio de luz enquanto o sistema Israel Iron Dome intercepta foguetes lançados de Gaza Crédito: BBC

Já há algum tempo a polemologia tem buscado se emancipar das amarras de um mero pensamento estratégico e esquemático que se limita a narrar as tomadas de decisão relativas à guerra. Essa busca tem por objetivo alcançar as pradarias de um pensamento crítico, capaz de computar em sua análise os arranjos estéticos e discursivos dos conflitos, os quais tem a faculdade de autorizar e normalizar abusos de agentes bélicos. É a propaganda de guerra, nesse sentido, que é capaz de transformar omissões em “erros”, genocídio em “efeito colateral”, sistemas massivos de destruição em “armamentos cirúrgicos”, e com isso fazer girar uma máquina necropolítica cujo eixo central é a produção da morte como efeito disciplinar e assujeitador, e que, portanto, nada tem a ver com a guerra – disputa entre dois ou mais agentes deliberadamente inscritos.

Como nos lembra Paul Virilio, a primeira coisa que morre na guerra é a verdade, e como nos esclarecem Frédéric Gros e Grégoire Chamayou, muitas vezes a própria atribuição da noção de “guerra” ou “conflito” a uma política unilateral e indiscriminada de violência é recursiva, pois nos faz perder de vista uma série de práticas, como a produção deliberada de mortes, e caçadas humanas. Em seguida, a produção de narrativas (fantasiosas ou distorcidas) que incivilizam e desumanizam os alvos, é um dos elementos centrais desse dispositivo de naturalização e normalização do abuso. Por fim, o enquadramento estético-discursivo privilegiado a sistemas de armas, denominando enquanto cirúrgicos, automáticos, rápidos e infalíveis é também parte desse dispositivo. É com base nessa construção virtuosa dos armamentos, nas propagandas de guerra, que James der Derian aponta que diversas incursões militares desastrosas vão sendo autorizadas, depositando uma fidúcia no automatismo e na técnica.

O recente estado de violência que estoura nas regiões palestinas ocupadas evoca a necessidade de investigar de forma atenciosa a produção estético-discursiva israelense, sem a qual a produção de morte encampada pela potência ocupante se revela menos heroica. A atual produção narrativa a respeito da atual escalada de violência se inicia, de acordo com boa parte da mídia ocidental e afinada com o governo israelense, com o disparo de mísseis realizado pelo Hamas contra assentamentos israelenses próximos a Gaza, o que teria provocado uma reação proporcional e comedida de Israel – que ironicamente – esfacela infraestruturas e ceifa dezenas de vidas com poucos ataques. Essa descrição negligencia de forma descarada uma série de fatos que aconteceram nas semanas anteriores, como a expulsão de famílias palestinas nas proximidades da Cidade Velha de Jerusalém, e a invasão da Mesquita de Al Aqsa pela polícia israelense, que iniciou confrontos com palestinos dentro do território sagrado.

A quebra da temporalidade dos fatos permite que se descreva a ação desproporcional israelense como uma reação justificada a um ato bélico originário, e que deslocaliza a ação do Hamas como um revide a ações discricionárias do Estado Israelenses em Jerusalém.

Um outro artifício na normalização do recente estado de violência israelense contra a Palestina é a atribuição de práticas desumanas a esse segundo. As tomadas de decisões israelenses em bombardear prédios da Cruz Vermelha, e instalações jornalísticas tem como base a ideia de que esses seriam espaços duais: onde operariam redes “terroristas” e atividades formais. Nesse caso, para evitarem se tornar alvos de ataques, palestinos (descritos como terroristas) usariam “escudos humanos”. Assim, é constante que a todo bombardeio israelense a um espaço civil em Gaza siga um argumento de blindagem humana incivil. Ironicamente, isso não impede que os ataques sejam performados, mas sim reforça a ideia de desumanidade do outro, que precisa ser varrido.

Essa produção ativa de um outro despojado de subjetividade, de vidas nuas, se reforça com a produção de uma autoimagem civilizada e humanizada. A definição das Forças Armadas israelenses enquanto forças de defesa é um reflexo disso, de um conjunto de meios “reativos”, como se auto intitulam. A produção estética é aqui extremamente recursiva, uma breve visita ao Instagram das Forças israelenses (@idf) é notável como eles buscam se conformar como aparato militar-humanitário ocidentalizado, segurando bebês, apresentando mulheres na linha de frente, descrevendo narrativas de vítimas, e representando de forma deturpada e desumana palestinos.

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Até aqui, “nada de novo no front”. No entanto, ao acessar essa conta de Instagram me deparei com um vídeo postado na conta das Forças, que descrevia “o momento em que o Iron Dome interceptou uma saraivada de mísseis sobre Tel Aviv e Israel Central”. No vídeo, um conjunto de luzes em ascensão vertical se chocavam com luzes em progressão horizontal, representando um sistema defensivo de baterias anti-aéreas automatizadas. Não demorou muito para que esse mesmo vídeo se desprendesse do Instagram e passasse a circular entre redes de Whatsapp e por outras plataformas. A surpresa e o fascínio por essa sequência imagética se aproximam daquilo que diversos autores tem descrito como “pornografia de guerra”, imagens de precisão de armamentos que, não obstante, são apartadas da destruição e miséria que esses mesmos causam.

Não demorou para que essa sequência imagética estrategicamente divulgada pelas Forças israelenses ganhassem a roupagem discursiva da mídia ocidental. Em poucos dias, diversas manchetes espetaculosas foram surgindo: “Domo de Ferro, é assim que funciona o sistema antimísseis do exército de Israel”; “Como funciona o Domo de Ferro, sistema antimísseis de Israel”; “Iron Dome de Israel bloqueia 80% rockets disparados pelo Hamas”; e “Enquanto os Foguetes de Israel chovem sobre Israel, a Iron Dome prova que pode resistir a artilharia”. Com imagens espetaculares e descrições precisas sobre o funcionamento do sistema, essas reportagens capturam e desviam a atenção dos espectadores, ao mesmo tempo que passam a sensação de supremacia técnica e racionalidade ante um suposto ato selvagem do “inimigo”. Ainda, em uma das reportagens, uma imagem intitulada “O dia seguinte de um ataque a foguetes em Askelon na sexta-feira”, mostra um carro consideravelmente destruído, e nenhum escombro aparente, a não ser alguns poucos detritos sendo limpos por uma pessoa, numa clara demonstração de efetividade do sistema.

A atribuição de virtudes diversas a tecnologia bélica, e nesse caso específico a um aparato de disparo automatizado de mísseis produz dois efeitos mais diretos. Inicialmente,  o Domo de Ferro seria a materialização do discurso de auto defesa israelense, bem como da narrativa de que “Israel tem o direito a se defender”, frequentemente mobilizado por autoridades israelenses. Nesse ínterim, o sistema balístico antiaéreo quase deixa de existir enquanto um aparato militar, se confundindo com uma infraestrutura urbana branda e policialesca, como uma guarita ou poste de iluminação, descaracterizando o urbanismo de guerra diagramado em cada prédio ou muro das cidades israelenses. Por outro lado, a atribuição do caráter “defensivo”, e “precisos” desvia a atenção da logística de guerra e dos sistemas de armas que se orientam para a produção dos “contra-ataques”, frequentemente desproporcionais e imprecisos. Há, assim, uma profunda construção de sentidos no entorno dessas tecnologias, que se configuram como a base material e virtuosa do militarismo israelense.

Há tempos o Estado Israelense lança mão dessa estratégia de decepção, construindo justificativas, e mantendo um sistema de relações públicas que se estende até políticos e empresas de jornalismo estadunidenses. O domo propagandístico que recobre o aparato bélico israelense sustenta, assim, uma atmosfera de permanente desconfiança e de iminente agressão, tornando-a palatável ao olhar civilizatório ocidental.  Nessa incessante produção de narrativas, se estabelece aquilo que Achille Mbembe descreve como o “corpo noturno” da democracia ocidental, que recoberto pelo véu da regularidade procedimental do sistema liberal, aproveita-se da narcolepsia da propaganda militar para normalizar os controles, cerceamentos, exclusões, além de sancionar a perpetuação da violência.

Diferentemente da guerra, onde a verdade é a primeira baixa, na necropolítica israelense, é a vida nua de palestinos que se esvai em primeiro e em último lugar, debaixo de uma infraestrutura de mentira e agressão.


Revisão: Sara Toledo

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI), do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI/UNESP)

Autor(a)

  • Mestre e Doutor em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É pesquisador de Pós Doutorado (FAPESP) no Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador visitante do War Studies Department do Kings College London, Reino Unido. Desenvolve estudos sobre sistemas de reconhecimento facial, governamentalidade e segurança.