Fernanda Ramone

Mestranda em gestão da indústria cultural pela Universidade de Beijing, onde morou por nove anos. Foi correspondente da BandNews Tv, trabalhou na Rádio Internacional da China e atua como empreendedora cultural. Idealizadora e organizadora do DocBrazil Festival. É professora na Casa do Saber.

Artigo publicado no portal Olga, em 29/4/2016: http://thinkolga.com/2016/04/29/nem-aqui-nem-na-china/

 

20 anos depois da realização em Beijing da IV Conferência Mundial sobre as Mulheres da ONU, quanto o país avançou em relação à conquista dos direitos das mulheres em sua sociedade? As escalas megalômanas que costumam envolver a China se aplicam também ao universo das violações praticadas contra as mulheres. São altos os índices das agressões domésticas e rapto de jovens, as taxas de suicídio feminino são das maiores do mundo.

Falando sobre morte, vida e estatísticas que envolvem o universo feminino, o anúncio recente sobre o fim da política do filho único, depois de quase quarenta anos de vigência da lei, deve ser celebrado. Mesmo quando o principal motivo por trás da decisão esteja relacionado ao rápido envelhecimento da população antes que o país tenha prosperado, e não necessariamente à vontade de mulheres e casais em relação ao número desejado de filhos. Mas o fato é que, a partir de agora, inúmeros casos traumáticos de abortos forçados já não terão mais razão de ser praticados, já que é possível ter o segundo filho. Melhor ainda, as bebês poderão ter suas vidas poupadas e assim o país caminhar na tentativa de reverter o maior problema de desigualdade entre gêneros do mundo.

“Por muito tempo as mulheres enfrentaram sofrimentos terríveis em função da política do filho único e todas as consequências dela decorrentes. O governo chinês só se sensibilizou com os resultados negativos desta política quando as pesquisas começaram a apontar a terrível diferença entre os gêneros. O infanticídio feminino nunca foi motivo de preocupação para o governo, mas o fato dos homens não conseguirem encontrar mulheres para casar sim”, diz Wang Zheng, professora de estudos femininos na Universidade de Michigan, EUA.

Uma jornada de mil léguas começa com um simples passo, escreveu o famoso filósofo chinês Lao Zi. Restam outros tantos para que a jornada chinesa consiga equilibrar a bagagem das tradições paternalistas feudais e do código de conduta moral e ético milenar, o confucionismo, que organizam sua sociedade em direção a uma realidade de maior paridade.

O país de dois sistemas que há pouco mais de trinta anos se abriu ao mundo e às influências ocidentais criou uma classe de empreendedores que prosperou e enviou seus filhos e filhas para universidades, em especial nos EUA. Agora, deve aprender a lidar com o fato de se terem formado mulheres independentes e de opinião, que voltam para a China aptas a ocuparem espaços no mercado de trabalho e na própria sociedade, espaços estes antes destinados exclusivamente aos homens. Exatamente em função deste conjunto de fatores, elas são denominadas “mulheres refugo”.

Não há homem chinês em toda a China que vislumbre se casar com uma mulher que eventualmente possa ter formação superior à dele, experiência pessoal ou profissional com mais destaque e maior salário. Logo, as mulheres com este perfil são rejeitadas, viram refugo. De acordo com a professora Wang Zheng, não importa o quão capaz uma mulher seja: no subconsciente coletivo da sociedade chinesa nunca será boa o suficiente como um homem.

O matrimônio em geral acontece imediatamente após a graduação, ou seja, casam-se muito jovens. Os homens, que passam incólumes a esta fase, o fazem ligeiramente mais tarde e preferem o enlace com garotas da mesma idade ou mais novas, dotadas de atributos considerados inferiores, como ser de uma província rural, ocupar um posto de trabalho tido como medíocre, ter se graduado numa universidade privada ou não ter cursado qualquer uma que seja. Para que desta forma a família, que agora poderá ter dois filhos, tenha início. Providenciarão o quadro a ser pendurado no quarto do casal com a foto dos dois trajando vestes da cerimônia, assim como vem sendo feito desde sabe-se lá qual dinastia. Sobre o homem paira uma institucionalização estabelecida desde sempre, sobre práticas esperadas e aceitas atribuídas ao sexo masculino. Sobre mulher, o status de ser meiga, 可爱- Kěài, palavra muito comum e usada para elogiar o estereótipo de mulher chinesa.

Uma mulher meiga sorri timidamente, faz gestos delicados e contidos, não fala muito nem pouco, se veste discretamente, tende a concordar ou se opõe de modo sutil. Uma criatura que não oferece surpresas nem riscos, uma fera domada que nem sequer um dia soube das potencialidades intrínsecas de sua natureza feminina, acostumou-se a ser yin, a passividade. Mas em matéria de China além dos números suntuosos há de se considerar a velocidade com que as transformações, especialmente as sociais, acontecem.

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A nova militância das feministas chinesas (nova por voltar a se organizar depois de períodos políticos mais críticos como o da Revolução Cultural), em especial nas cidades de Beijing e Guangzhou, têm promovido questionamentos e ações visando esclarecer e libertar as mulheres de tamanha meiguice. Propõem reflexões por exemplo geradas a partir do texto Monólogos da Vagina, peça encenada pela primeira vez no país em 2009, levantando questões sobre a sexualidade e, mais do que isso, ao falar sobre a vagina, gerar a conscientização em relação ao próprio corpo, suas necessidades, vontades, desejos e regras. Para que a partir do conhecimento e da informação, os grandes índices anuais de aborto, por exemplo, possam ser reduzidos. Para especialistas, os 13 milhões de abortos praticados em média por ano no país podem ser em número ainda maior, caso sejam considerados os casos realizados em clínicas clandestinas; em boa medida, tudo ocorre por falta de orientação sexual.

As meninas se organizaram em grupos de trabalhos, em coletivos e também no espaço virtual. Promoveram campanhas, ações, fizeram vídeos, foram entrevistar recrutadores nas empresas considerados machistas, reivindicaram paridade, lutaram pelo fim das violências domésticas praticadas contra as mulheres, pelo direito sobre seu corpo, pelo fim do assédio sexual. Ganharam espaço, notoriedade e começaram a incomodar, a causar desconforto.

No dia 8 de março de 2015, após uma marcha realizada no centro de Beijing, foram presas. O caso das cinco jovens, ganhou tanto destaque na mídia internacional e tanta mobilização nas redes que por bem e depois da pressão internacional o governo decidiu soltá-las. Não antes da contestação feita ao presidente chinês Xi Jinping, em setembro daquele ano, durante visita oficial à Casa Branca. Apesar do seu discurso enfatizar a importância sobre a celebração dos vinte anos da Conferência Mundial das Mulheres em Beijing, uma das jovens chinesas militantes continuava presa.

A libertação não necessariamente significou o fim dos problemas, o cerco ao redor das meninas e suas ações passou a ser mais duro, vigiado. Entrou para a lista dos assuntos considerados sensíveis no país. Sensíveis, não meigos!

Li Tingting, uma das ativistas presas por planejar protestos na capital chinesa contra assédio sexual, relata a sensação de medo durante o período em que esteve no cárcere, das humilhações sofridas e da calma que aprendeu a desenvolver para manter sua sanidade. Ressalta, porém, que o medo maior surgiu quando foi solta: liberta, porque agora e para sempre não há mais amarras ou maneiras de detê-la, está em liberdade.

Outras pequenas revoluções cotidianas acontecem no aqui e acolá do território chinês, nem sempre planejadas, apenas deflagram. Sheryl Sandeberg, executiva do Facebook, que o diga. O lançamento na China de seu livro Lean In (Faça Acontecer, no Brasil) culminou numa série de palestras, encontros e gerou um movimento de questionamento em relação às diferenças de remuneração e oportunidades entre homens e mulheres no mercado de trabalho no país, repercutindo em especial entre o público das “mulheres refugo”.

A história e as tradições milenares chinesas; o fato da população urbana do país ter superado a rural há pouco mais de cinco anos; a ascensão de uma classe média que dispõe de alto poder aquisitivo e que tem viajado pelo mundo todo, consumido e questionado o funcionamento de seu próprio país; a influência ocidental; os esforços imensos que o governo chinês vem concentrando na indústria cultural com o intuito de promover sua imagem e conquistar novos adeptos no mundo; tudo isso e uma série de outros elementos precisam ser considerados para poder entender a velocidade, o turbilhão e o potencial para que muitas mudanças aconteçam, e as que já estão em curso.

No caso da luta pelos direitos das mulheres, passados os vinte anos desde a Conferência, os avanços não foram muito significativos. Mas a recente dinâmica de luta dos coletivos atrelada ao trabalho que já vem sendo desenvolvido, em um país que se insere, desponta, participa, atua e dialoga em um novo cenário de poder mundial, parecem propiciar elementos bastante positivos no que tange a todas as lutas. No caso, a das feministas já começou. A luta contra o machismo — tanto aqui como na China — avança.