1. Um ano depois da sua eleição para o Eliseu, Emmanuel Macron ainda não frustrou as expectativas europeias sobre a sua entrada triunfal no grande palco da política. Não é o messias. Como Obama também não foi, apesar das enormes expectativas que a sua eleição espalhou pelo mundo inteiro. Era o Presidente americano, em primeiro lugar. Macron é o Presidente da França, carregando consigo a história milenar de um país que ainda hoje se vê, pelo menos às vezes, como o centro das Luzes. O que faz é em nome dessa França mas também em nome de uma Europa que foi quase sempre útil à França para projetar o seu poder para lá das suas próprias capacidades. Até ao dia em que a Alemanha se reunificou.

Macron teve a ousadia de se apresentar ao eleitorado como o defensor sem concessões de uma União Europeia que deve continuar a integrar-se, da globalização, mesmo que suavizada por uma “Europa que protege”, da abertura aos outros, dos princípios e valores que estão na gênese da grande aventura europeia da segunda metade do século XX. Quer duas coisas que não são incompatíveis: devolver à França o seu lugar na liderança da Europa e dizer ao mundo que a Europa está de regresso.

É uma ambição enorme. E uma lufada de ar fresco no cinzentismo dos líderes europeus, da sua falta de ambição e da sua incapacidade de passar à ofensiva contra a crescente emergência de forças políticas populistas e nacionalistas cujo objetivo, mesmo que às vezes o tentem disfarçar, é o regresso às fronteiras nacionais, a rejeição dos outros, o fechamento a um mundo que olham hoje como adverso. Nem vale a pena dizer que a Europa não resistiria ao dia em que fossem maioritários nos governos da União. Provavelmente, nem seria necessário chegar tão longe.

2. Macron era também o Presidente com que a Alemanha sonhava. Depois da experiência frustrante de François Hollande, incapaz de se libertar da imagem de uma França fraca e imobilista, o novo Presidente foi eleito com a promessa de reformar a França e refundar a Europa: as duas metades inseparáveis da “revolução” que prometeu aos franceses.

Representou uma ruptura. Não apenas do discurso, mas na “destruição criativa” do sistema político do país que inventou o conceito de esquerda e direita, cujo sistema assentou em duas grandes forças políticas, nas suas várias reencarnações: os socialistas e os gaullistas. Até ao dia em que a Frente Nacional entrou de rompante no sistema (2002, quando Jean-Marie Le Pen passou à segunda volta das eleições presidenciais), não mais abandonando o seu lugar de terceira força política capaz de desafiar os partidos do sistema.

Macron quebrou o molde, quase destruiu os socialistas (foi ministro da Economia de Hollande), remetendo-os para um nicho mais ou menos esquerdista, fraturou o centro-direita, atraindo o centro e empurrando os Republicanos de Sarkozy para uma direita cada vez mais próxima de Marine Le Pen. Criou uma grande força de centro radical, que atraiu os sectores mais jovens, mais inovadores e mais educados da sociedade francesa, mesmo que consiga recolher votos de todas as camadas etárias da sociedade.

Dizem os analistas que teve sorte. Não é toda a verdade. Assumiu o risco antes de saber se teria sorte, o que é completamente diferente. Assumir riscos é talvez a sua característica mais marcante e mais rara entre os políticos europeus. Mas não é só isso.

3. No livro, altamente recomendável para se conhecer o personagem, Macron, un président philosophe, Brice Couturier descreve o percurso intelectual que o levou ao Eliseu com apenas 39 anos. “Nenhuma das suas palavras é fruto do acaso”. Do jovem atraído por Hegel que teve um período de aprendizagem com Paul Ricoeur, que lhe ensinou que o futuro depende das escolhas dos homens e não de uma Razão que conduz a História até ao seu fim. “Compreender Emmanuel Macron é inquirir sobre o modo como se formou a sua concepção do mundo.” E do poder. Em França, diz o Presidente, “há sempre duas dimensões que não se confundem: o exercício do poder e a encarnação do país”.

Macron, o filósofo, não nos apresenta qualquer utopia encarnada num homem predestinado. Mas não tem vergonha de visitar o túmulo de Joana D’Arc, até agora monopólio da Frente Nacional, ou de proclamar a sua boa relação com o Presidente americano pela simples razão de que é o Presidente da grande democracia americana. Tudo faz parte da sua estratégia de afirmação da França na Europa e no mundo, dizem vários analistas, provavelmente com razão. Mas ser recebido na Casa Branca como um amigo, mesmo que sem qualquer resultado, é melhor para a Europa e para o mundo do que aumentar a distância entre os dois lados do Atlântico. Facilita as coisas.

Macron também quebrou um outro molde que espartilha hoje a ação política: o dos resultados. Nas cimeiras, nas visitas de Estado, nos encontros entre líderes. Há uma agenda. Há uma lista. Cada item recebe uma cruz ou um visto. Com Macron esse método não dá. Ou não é o único critério que conta. Da mesma maneira que a melhor forma de analisar os resultados da sua política interna não pode ser feita apenas olhando os resultados separadamente ou somando o número de greves ou de manifestações. Macron funciona ao contrário. Tem um desígnio no qual se inscreve a sua ação politica. Mantém uma visão de conjunto. O êxito não está garantido. Mas quem sugere outro caminho?

Leia mais:  Um pouco de populismo econômico pode ajudar

A chanceler e o presidente

4. O seu maior desafio está bem próximo e tem um nome: Angela Merkel. A chanceler e o Presidente não podiam ser mais diferentes na sua formação e na sua experiência de vida. Da mesma maneira que não haverá dois países mais distintos do que a França e a Alemanha, em cuja fronteira a Europa se digladiou durante séculos pela hegemonia europeia. Do lado de cá do Reno, uma nação imperial. Do lado de lá, uma nação que apenas se construiu no século XIX, com uma cultura romântica, contra a Razão das Luzes, ocupando o centro de uma Europa culturalmente diversa e dividida em múltiplas identidades nacionais que, na falta de um império colonial, quis fazer da Europa o lugar da sua expansão. A União Europeia deslegitimou qualquer espécie de nacionalismo e transformou-a numa nação civilizada.

Merkel faz contas. Experimenta cuidadosamente quantas gotas contidas na pipeta do seu laboratório europeu chegam como reagente. Estudou química quântica para fugir às “interpretações” comunistas de outras áreas científicas. Chegou ao poder com uma estratégia implacável de eliminação dos adversários, que o seu sorriso agradável e os seus modos simples não permitiam antecipar. Governa a Europa desde 2005, mas a grande concentração de poder em suas mãos aconteceu durante a crise dos últimos dez anos. A sua forma de liderar a Europa é oposta à de Macron: passo a passo. Gota a gota. O mínimo possível para aguentar o barco europeu a flutuar. Tem objetivos mas não tem desígnios.

Continua a olhar para o seu país com meia dúzia de preocupações fundamentais sobre o futuro. A demografia, o risco da radicalização política, a preservação do seu modelo económico, assente na poupança e nas exportações. Abriu as portas a mais de um milhão de refugiados, por considerar ser esse o seu dever, mas também porque a Alemanha, ao contrário dos EUA, França e Reino Unido, envelhece a passos largos. Talvez seja esta a maior vulnerabilidade da sua poderosa economia. Justificou a austeridade punitiva com a preocupação de evitar a emergência de uma força de extrema-direita antieuropeia na Alemanha, capaz de influenciar o jogo político. Falhou.

Acabou por ganhar o respeito em muitos países europeus, que perceberam que ela era, apesar de tudo, a melhor opção que tinham na Alemanha para manter a Europa unida. Ainda hoje se comporta da mesma maneira. Meticulosa. Não gosta de grandes tiradas. Firme naquilo que pensa que são os interesses da Alemanha, mas mais enfraquecida politicamente e, provavelmente, com menos margem de manobra. As reformas levadas a cabo pelo seu antecessor do SPD, Gerhard Schroeder, prepararam a economia alemã para a globalização. Convém recordar que, nos anos 90, a Alemanha era “o homem doente da Europa”.

Em França é tudo mais difícil. Não tem a cultura do consenso que os alemães praticam desde a II Guerra. A flexibilização do modelo social é mais difícil de negociar, graças ao peso enorme do Estado e ao papel central que lhe é atribuído pela cultura política francesa. O Arco do Triunfo, no centro da estrela composta pelas grandes avenidas de Paris, é a imagem de marca. Mas França também é o país do aeroespacial ou das centrais nucleares, do TGV que existe há décadas, e de um sistema de ensino pré-universitário do melhor que há no mundo. A Alemanha exporta carros de luxo. A França exporta o próprio luxo.

5. Macron diz ao que vem. As democracias têm de ter os seus heróis, numa altura em que estão a ser desafiadas pela mais básica das demagogias. Merkel é a anti-heroína. Macron quer uma construção europeia flexível, assente num núcleo de países mais próximos uns dos outros na forma como veem o futuro. Merkel ainda prefere manter a União a 27. A sua obsessão com o Leste é compreensível. Vê nesses países um interesse estratégico da Alemanha. Como dizia o historiador britânico Timothy Garton-Ash, sente-se melhor rodeada de “Ocidente” por todos os lados. Nem sempre consegue os seus objetivos. Queria um eslovaco à cabeça do Eurogrupo. Manteve, contra tudo e contra todos, a sua candidata a secretária-geral da ONU, Kristalina Georgieva. É um misto de “arrogância” e de estratégia.

A Europa depende, em boa medida, da capacidade de entendimento entre a chanceler e o Presidente. Espera-se que estejam ambos à altura da responsabilidade que têm perante os europeus, e não apenas perante os franceses ou os alemães.


[Publicado no periódico português Público, 07/05/2018]

Teresa de Sousa

Jornalista e articulista do jornal português Público.