Filmes que foram considerados um fracasso nas bilheterias americanas ainda assim conseguiram lucrar milhões de dólares, como por exemplo, Warcraft e Resident Evil: The Final Chapter. O retorno financeiro destas películas decorre do faturamento em um dos maiores mercados consumidores em ascensão, a China, responsável pela metade da arrecadação dos US$ 433 milhões de Warcraft, por exemplo. O país asiático tornou-se o segundo maior mercado deste setor, com um total de US$ 6.6 bilhões em receitas de ingressos de cinema em 2016, atrás apenas dos EUA.

O avanço de dois dígitos ao ano nos lucros no período recente é uma das faces do crescimento econômico chinês. E dado à importância do cinema como ferramenta de propaganda, o setor é regulamentado pelo Estado. Entre 1978 e 1984 houve uma expansão do cinema chinês com produções locais em diferentes gêneros, contrastando com o período anterior da Revolução Cultural, que inibia esta diversificação. No entanto, nos anos seguintes houve uma queda nas receitas do setor, devido em parte à ineficiência da indústria de cinema chinesa, como informa Marzol Aranburu.

Em face desta situação nos anos 90 o Departamento de Filmes, ligado ao Ministério de Rádio, Cinema e Televisão, divulgou o “Projeto 9950”, no qual 10 filmes estrangeiros por ano seriam autorizados a circular nas salas de cinema do país, entre 1996 e 2002. Dado ao sucesso destes filmes nas bilheterias e à continuidade na queda das produções nacionais, o governo extinguiu o ministério e criou a Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão (SARFT, em inglês), que passou a investir nas produtoras locais, com filmes direcionados à propaganda do regime incorporando a estética e o modelo de filmagem de Hollywood, alavancando os lucros da indústria de cinema nacional

A entrada da China na OMC no começo dos anos 2000 teve como um dos seus efeitos a pressão dos demais países para que aumentassem os filmes estrangeiros permitidos na China, resultando na expansão continua das quotas, que atingiu 34 filmes em 2016. Ademais, o governo estabeleceu um sistema de coprodução em 2004, no qual as produções estrangeiras deveriam acatar as leis e regulamentações do governo, bem como respeitar os costumes e crenças da sociedade chinesa, mantendo o controle sobre os filmes divulgados no país, conforme pesquisa de Robert A. Peacock.

Este sistema permite que produtoras estrangeiras se associem a produtoras locais elaborando filmes que não precisam se submeter a tais cotas, desde que cumpram requisitos pré-estabelecidos, como possuir um terço do elenco de origem chinesa, utilizar equipamentos e locais de filmagens chineses. Alguns dos filmes produzidos segundo estas regras foram “Karatê Kid” de 2010, “Transformers: A Era da Extinção” de 2014 e “Kung Fu Panda 3” de 2016.

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Além da censura do regime de coprodução, Hollywood também realiza uma autocensura visando ter acesso às cotas anuais de filmes estrangeiros na China. As mudanças vão desde pequenas alterações, como em “Guerra Mundial Z” (2013), filme que retrata a expansão de um vírus sobre a humanidade, cujos executivos da Paramount se preocuparam com uma das cenas que apontavam a China como origem de tal doença. Na visão dos dirigentes isto poderia prejudicar as chances do filme ser aprovado pela censura chinesa, de modo que optaram por modifica-la. Outros mudaram a estrutura do filme, como em “Amanhecer Violento”, que retrata a invasão do exército norte-coreano nos EUA. O longa-metragem foi gravado em 2009 pelo grupo MGM, porém dado a problemas financeiros foi arquivado até 2012, ano de sua divulgação. Na versão original tal exército era de origem chinesa, mas quando a MGM retomou a produção a China havia se tornado o segundo maior mercado do setor e um dos que mais cresciam anualmente. Assim optaram por gastar US$ 1 milhão a mais para alterar a origem do exército e tentar passar pela censura chinesa. Já produções como “Homem de Ferro 3” (2013) incluíram cenas com atores chineses na versão divulgada no país asiático para atrair o público. Outros filmes, como “Doutor Estranho” (2016), que em fase de pré-produção alterou um dos personagens, originalmente do Tibete, para uma pessoa branca, visando evitar abordar um assunto sensível na China e conseguir acesso a uma das cotas.

O controle sobre o cinema na China tende a aumentar com a decisão de Xi Jinping de submeter o SARFT ao controle do Departamento de Propaganda do Partido Comunista, gerando um maior escrutínio sobre quais elementos podem ou não estar presentes nos filmes de coprodução e os que são aceitos para as cotas de filmes estrangeiros. Ademais, Hollywood deverá competir com as produções nacionais, que nos últimos anos vem ocupando posições de destaque nas bilheterias do país.

Mestrando no PPGRI San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP). Áreas de interesse: Política Internacional, América Latina, política externa chinesa e Economia Política.