O clima político nos Estados Unidos torna-se mais “animado” à medida em que as primárias começam a gerar contornos em relação aos futuros candidatos à presidência pelos Partidos Democrata e Republicano. Mas as discussões não têm se limitado às definições oficiais e aos processos institucionais – como nunca foram. Especialmente no país de que falamos, o papel da cultura pop é essencial para que se compreenda como certas influências moldam a opinião do público.

Podemos partir de uma premissa: a de que o governo do Presidente Barack Obama – especialmente em seu segundo mandato – assumiu caráter mais liberal e engajado em questões relacionadas às minorias. O tom de confrontação aos grupos e alas partidárias mais conservadoras definiu parte de suas ações ao discursar abertamente sobre os direitos das mulheres, da comunidade LGBT (ou LGBTTT – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), e acerca da intolerância e discriminação contra os afro-americanos. Dentre suas maiores vitórias esteve a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo pela Suprema Corte no primeiro semestre de 2015.

A segunda premissa é a de que a agenda progressista (por falta de termo melhor) veio para ficar. É possível perceber uma aceleração da concessão de direitos e maior organização de grupos representantes dessas minorias nos últimos dez anos, tanto nas discussões domésticas, especialmente dos países europeus e americanos, quanto na busca por maior normatização dentre as instituições internacionais, desde OINGs (Organizações Internacionais Não-Governamentais) até a própria ONU. No caso estadunidense, a Human Rights Campaign e, no brasileiro, a Conectas, conseguiram destaque por promover o debate público e pressionar diretamente os governos de seus países.

A terceira premissa é a de que esses fenômenos vêm acompanhados de abordagens menos tradicionais, pela música, pelo cinema etc. O engajamento de artistas e esportistas nos Estados Unidos não é algo recente, esteve presente em Jogos Olímpicos e na busca por dirimir o impacto de catástrofes naturais, por exemplo. Mas há que se ressaltar um detalhe: o mundo de hoje não é o mesmo de vinte, dez, cinco anos atrás. A facilidade com que se propagam ideias por meio de intervenções ao vivo a qualquer momento e em qualquer lugar altera o cenário e incrementa o poder de persuasão e interação entre os agentes emissores e os receptores – o público em geral.

A evolução das redes sociais e o maior acesso a smartphones e à internet aumentaram muito a penetração do que se produz em termos artísticos, por exemplo. Especialmente entre o público mais jovem, que tem maior sensibilidade a esse tipo de mudança, o acesso à informação vem menos da televisão e da mídia impressa e mais de sites de notícias, aplicativos especializados e por meio da interação em redes como o Facebook, Twitter, Instagram e Snapchat. Não se quer apenas ler ou saber, o objetivo é compartilhar, mostrar, interagir. E aqueles que produzem a informação sabem disso – ponto importante da nossa discussão.

Nosso destaque inicial é o vídeo da música Formation, cuja intérprete é Beyoncé. A estética claramente voltada à cultura dos negros e, especialmente, do sul dos Estados Unidos reforça o caráter político da cantora nessa música. O uso de gírias, roupas e até mesmo o gênero musical e as coreografias ressaltam a intenção de quebrar um padrão anterior, mais pop – e aí surge um questionamento importante. Se pop vem de popular, afinal, o que é ou não pop? E quando falamos que existe a intenção de construir uma narrativa política em torno dos direitos de um grupo específico, ainda assim seria possível afirmar que se trata de um fenômeno popular?

O vídeo da música e a própria música em si geraram tanta comoção que um programa de humor dos Estados Unidos (o Saturday Night Live) fez uma paródia com o frenesi, com uma ironia fina e direcionada. Eles criaram uma espécie de trailer de cinema com a seguinte chamada: “O dia em que Beyoncé tornou-se negra” – ora, ela sempre foi negra e a “brincadeira” foi exatamente essa. Enquanto cantava e dançava com o cabelo alisado e com letras “universais”, Beyoncé era branca ou, pelo menos, o público se permitia ignorar a cor de pele da cantora. Formation quebra essa regra porque não se exime de assumir sua identidade, e a letra da música é marcante nesse sentido:

My daddy Alabama, Momma Louisiana

You mix that negro with that Creole make a Texas bamma

I like my baby hair, with baby hair and afros

I like my negro nose with Jackson Five nostrils

Earned all his money but they never take the country out me

I got hot sauce in my bag, swag

As referências às regiões, artistas e expressões saem do padrão anterior da artista de promover tacitamente determinada identidade racial para engajar-se num tom político de confrontação – o título faz essa alusão junto da letra quando reforça a estética de organização no sentido quase militar. Sucintamente ainda podemos citar a abordagem semiótica: em alguns momentos nos quais a “formação” é realçada o cenário é de uma penitenciária, por exemplo.

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Essa discussão se insere em outra maior, abordada na atual corrida presidencial: a dos excessos policiais, da privatização das prisões nos Estados Unidos e de um possível fixação racial dos que sofrem perseguição pela justiça e por um sistema que se retroalimenta. A discussão, em suma, do que é ser americano. O principal pré-candidato republicano, Donald Trump, emitiu discursos claramente racistas e xenófobos em diversas ocasiões. Comunidades afro-americanas, muçulmanas e de outras minorias têm rechaçado suas ideias, mas Trump parece não se comover, pelo contrário, assume caráter mais radical em busca de um eleitorado notadamente conservador.

Essa constatação pode parecer contraditória com as premissas que apresentamos inicialmente, mas não acreditamos ser o caso. Pelo contrário, essa reação mais radical provavelmente ganha visibilidade justamente por conta de maior publicidade em relação às demandas das mencionadas minorias. Ou seja, como os grupos progressistas conseguem gerar maior atratividade e interação com o público em geral a reação natural dos grupos contrários é a de demarcar espaços e construir hipóteses distintas. Por essa razão é que afirmamos que o fenômeno do radicalismo conservador não traduz o momento político e social dos Estados Unidos – a popularidade de Barack Obama pode ser apontada como outro bom exemplo nesse caso.

Outro exemplo recente é da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar. Nesse ano, um grupo grande de artistas afro-americanos boicotou o evento com a alegação de que não se sentiram representados dentre os indicados aos principais prêmios da noite – o que é verdade, haja vista os nomes apontados. Como forma de tentar remediar a situação, a Academia indicou Chris Rock, ator e comediante afro-americano, para apresentar a premiação. A emenda saiu pior que o soneto: as críticas foram ainda mais contundentes em relação ao mea culpa. Mesmo com as ácidas piadas do apresentador em relação às alegações de racismo, o discurso não mudou. Afinal, mesmo que o Oscar fosse apresentado por um afro-americano e alguns prêmios fossem entregues por outros afro-americanos, a premiação era dos brancos – a ideia de “servir” ganhou destaque e gerou críticas mais fortes que anteriormente.

Nessa mesma noite, ainda no âmbito da cultura pop, outras discussões sobre os direitos das minorias ganharam destaque. A cantora Lady Gaga se apresentou com a canção (indicada ao Oscar) Til It Happens To You e emocionou o público falar ao falar da violência sexual e da fragilidade em torno do assunto, e ninguém menos que o vice-presidente Joe Biden fez a introdução da apresentação. O prêmio de melhor canção original foi para Sam Smith com Writing on the Wall, o que por si só não seria digno de nota, mas o fato do cantor ser homossexual assumido e discursar a respeito de sua orientação sexual chamou a atenção. E, ainda, a prêmio tão esperado de melhor ator para Leonardo DiCaprio permitiu que ele discursasse a respeito de um tema sensível para os políticos dos Estados Unidos, o aquecimento global. O ator, que tem engajamento prévio no assunto, posicionou-se firmemente contra a ação humana e a negligência dos governos – o tema provavelmente será ignorado por alguns dos atuais pré-candidatos, mas tem ganhado destaque nas políticas ambientais do governo Obama recentemente.

Enfim, é difícil medir até que ponto cada um dos discursos, apresentações e intervenções artísticas mudam ou não os interesses e percepções do público, mas seria negligência intelectual afirmar que esse não é um fenômeno com cada vez maior visibilidade e importância. O número de usuários comentando e interagindo ao vivo cresce a cada dia e a facilidade com que se tem acesso a esse tipo de informação transforma as relações cotidianas – mais indivíduos debatem questões “políticas” porque seus artistas também o fazem. Mesmo que de forma superficial, a ideia de que a fama dessas pessoas se torna catalisadora de determinados posicionamentos ajuda a criar um ambiente minimamente mais crítico ou, pelo menos, permite tirar certos grupos e demandas sociais das sombras e transportá-los ao hype, ou seja, ao nível promocional e facilmente percebido.

O “diferente” é pop.