Matias Spektor

Doutor pela Universidade de Oxford e professor de relações internacionais na FGV. Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo em 6/10/2016 (http://www1.folha.uol.com.br/), onde Matias é colunista.


 

Quando os embaixadores do Conselho de Segurança comunicaram à imprensa que António Guterres será o próximo secretário-geral das Nações Unidas, houve alívio mundo afora.

Como o secretário possui a tarefa quase impossível de nunca melindrar os cinco membros permanentes (China, Estados Unidos, França, Grã Bretanha e Rússia), o escolhido tende a ser medíocre. Não é o caso desta vez.

Guterres é um sopro de renovação depois de uma década de Ban Ki-moon, diplomata correto e empenhado, mas sem nenhum tipo de independência, criatividade ou liderança. Se nunca atrapalhou, Ban Ki-moon tampouco reformou uma organização esclerosada em que a ineficiência, e até mesmo a corrupção, ficam muitas vezes sem reposta.

É claro que os poderes de Guterres serão tão limitados quanto os de seu antecessor (e somente nas próximas semanas saberemos quais acordos ele costurou com a Rússia, país que mais resistência opunha a seu nome).

No entanto, os sinais iniciais são positivos. Basta lembrar que Guterres não era o vencedor natural. Pelo contrário, o cargo parecia estar destinado a nacionais da Europa do Leste, preferencialmente mulheres. Foram as novas regras do jogo de seleção que abriram caminho para o português.

Pela primeira vez em 70 anos, o Conselho de Segurança publicou uma lista de candidatos que se apresentaram em público, respondendo a perguntas sob o escrutínio da imprensa internacional. A publicidade dos procedimentos terminou limando os candidatos mais fracos. A opção por níveis de transparência antes inexistentes no processo seletivo é resultado da pressão da sociedade civil organizada.

Leia mais:  O futuro da produção no Sul global

Nessas sabatinas, Guterres provou ser o melhor dos 13 postulantes. Além de reconhecer os problemas da burocracia gigantesca que está prestes a comandar, num ato incomum, ele afirmou que a Europa não vai sobreviver se fechar suas portas à imigração, sinal de que pretende ter voz própria no exercício da função.

Não dá para esperar milagres. Neste momento da conjuntura global, os Estados Unidos e a Rússia encontram-se em confronto aberto na Síria. O programa nuclear da Coreia do Norte, o mar da China e a crise de refugiados na Europa dividem a comunidade internacional. De quebra, falta dinheiro para as 16 operações de paz em andamento. E num mundo onde o nacionalismo ganha força, o ideal cosmopolita das Nações Unidas perde fôlego.

O consolo é que, desta vez, a opção do Conselho de Segurança não foi pelo mínimo denominador comum, uma baita diferença na hora de escolher a pessoa que se dedica a juntar os cacos quando os cristais estão estilhaçados.