Era um momento de virada, mas a Europa não virou. Apesar dos temores de um repentino aumento populista de direita, a maioria dos eleitores em todo o continente votou nos partidos pró-União Europeia nas eleições recentes para o Parlamento. Os principais blocos de centro-direita e de centro-esquerda perderam a maioria, mas continuarão a dominar o corpo legislativo de 751 membros. O centro se manteve, por enquanto.

No entanto, a extrema direita nacionalista e anti-Bruxelas, que inclui partidos como a Reunião Nacional (RN), de Marine Le Pen, na França, e a Liga, de Matteo Salvini, na Itália, que recebeu apoio e conselhos de Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump, fizeram progressos. Espera-se que tais partidos, juntamente com outros eurocéticos, fiquem com cerca de 25% dos assentos do Parlamento Europeu, quando o novo órgão se reunir pela primeira vez em julho.

A extrema direita pode não ser dominante, mas agora deve ter ficado claro para todos que esse movimento não vai embora tão cedo. Dos cinco partidos políticos individuais com a maior representação no novo Parlamento Europeu, com os resultados eleitorais de 2019 em toda a Europa, “quatro” são o resultado de votos antieuropeus em toda a União Europeia.

Não muito tempo atrás, políticos e especialistas tradicionais encaravam a extrema direita como pouco mais do que um movimento de protesto: as pessoas votaram contra o establishment nas eleições europeias para enviar uma mensagem, mas ninguém realmente queria que esses políticos conseguissem governar. Esses partidos não eram vistos como sérios na política – eles estavam apenas fazendo política.

Agora, não há escolha a não ser admitir que a extrema direita populista está se tornando uma característica permanente da política europeia. Salvini foi coroado (ou pelo menos coroou a si mesmo) como líder desse movimento. Durante a campanha, ele se reuniu com colegas nacionalistas em toda a Europa e organizou um grande comício em Milão para unir as partes.

Seu sonho agora é construir um bloco de votação coeso no novo Parlamento que possa moldar a agenda legislativa. Ele provavelmente fracassará. Os nacionalistas não são conhecidos pela cooperação nem pelo compromisso, e muitas questões os dividem, em particular a Rússia. Mesmo assim, eles são uma força a ser levada em conta.

Fragmentação

Nenhum desses partidos parece ainda apoiar a saída da União Europeia ou da zona do euro. Em vez disso, eles querem mudar as coisas de dentro. Se a extrema direita nacionalista conseguir mobilizar um terço dos votos do Parlamento Europeu, criando a motivação para uma causa comum com outros conservadores, poderá causar muitos danos, por exemplo, bloqueando qualquer tentativa da Comissão Europeia de punir algum país que viole o estado de direito.

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No ano passado, o Parlamento Europeu emitiu uma advertência desse tipo contra a Hungria. A mesma coisa seria possível em 2020? Não é difícil imaginar a União Europeia se tornando uma união de democracias liberais e não liberais. Felizmente – e por isso podemos ser gratos aos eleitores –, os nacionalistas eurocéticos não são a única força nova a ser considerada no Parlamento Europeu.

Partidos liberais e verdes foram a surpresa da votação. Juntos, eles ganharam cerca de 60 assentos adicionais, dando-lhes um total de 176, o que virá com muita influência política. Talvez os verdes usem seu sucesso para exigir que o combate às mudanças climáticas se torne uma prioridade para o continente.

Os verdes encontraram o seu apoio predominantemente entre jovens pró-europeus urbanos que respaldam a ideia de uma Europa unida, mas são críticos da União Europeia tal como ela existe hoje. Eles veem Bruxelas como avessa a riscos e negligente quando se trata de problemas de longo prazo, como o aumento da desigualdade e questões do meio ambiente.

Então, esses são os vencedores: liberais ecológicos que querem preservar a vida na Terra e populistas nacionalistas que querem preservar seu modo de vida. Mas o que eles têm em comum é a sensação de que a atual trajetória da política e da sociedade não é sustentável. Ambos ofereceram mudança – e mudança estava em falta.

Na véspera das eleições, uma pesquisa do Conselho Europeu de Relações Exteriores concluiu que, embora a confiança na União Europeia seja maior do que em qualquer outro período nos últimos 25 anos, a maioria dos europeus acredita que o bloco vai desmoronar em um prazo de 20 anos.

Por enquanto, os defensores da União Europeia não precisam entrar em pânico. As eleições demonstraram que as previsões de Bannon de uma revolução nas urnas eram fantasiosas. A extrema direita nacionalista não vai acabar com a União Europeia tão cedo. Mas, embora essas eleições tenham conseguido conter a ascensão do euroceticismo, o verdadeiro problema não vai embora: o “europessimismo”.


Publicado em The New York Times e em O Estado de S. Paulo, 29 de maio de 2019. Tradução de Claudia Bozzo.