Paulo Timm

Economista, Pós-Graduado CEPAL/ESCOLATINA, professor aposentado da UnB. Fundador do PDT (Lisboa, 1979), partido pelo qual foi candidato aos governos de GO e DF.  Site: http://www.paulotimm.com.br/


Julho 2016. A Europa se recupera da decisão da saída da Grã-Bretanha da União Europeia, enquanto ainda se debate, em seu interior, com as sequelas da crise de 2008. Seu maior banco, o Deutsch Bank, dá sinais de que está em situação difícil, muito parecida com a do Lehmann Brothers, nos Estados Unidos.  Pode-se dizer que se vive, no continente europeu, uma época de reflexões e mudanças. Acabou o sossego, ainda que a vida, em geral muito interiorana em toda a Europa, seja bastante tranquila. Portugal, por exemplo, é o quinto país mais pacífico do mundo. Neste quesito, nós, brasileiros, nada herdamos.

A primeira mudança se faz na Grã-Bretanha, com a posse de nova primeira-ministra Thereza May, em meio a um cenário de brutal queda do valor da libra esterlina, provocada pelo anúncio da saída da União Europeia, e riscos de separação da Escócia – talvez Irlanda do Norte -, para não falar da forte reação da população londrina, que chegou, até, em falar de se constituir em Cidade-Estado.

Thereza May terá, entretanto, que lidar com todos os velhos e novos problemas, começando pelos procedimentos para o retorno à economia de um só e soberano país. Tem, ela, contudo, a seu favor, o fato de ter recolocado o Partido Conservador fora do alcance das figuras apoteóticas e demagógicas, que pesaram a favor do Brexit. Está “empoderada”, sem constrangimentos aliados, no centro do partido e do governo.

Thereza May lembra muito sua antecessora, a Dama de Ferro, Margareth Thatcher, também conservadora, nos anos 1980, mas talvez se pareça mais com Angela Merkel, chanceler da Alemanha. Os tempos mudam e moldam novas personalidades afinadas com novos desafios. Há uma nova geração conservadora na Europa mais aberta ao diálogo com os costumes e com as demandas contemporâneas. Aquela era uma época de forte declínio da ideologia socializante no mundo inteiro, na antevéspera do fim da União Soviética. O pacto social-democrata, vigente em toda a Europa desde o fim da II Guerra, em 1945, inspirado numa esquerda moderada voltada à criação de um Estado de Bem-Estar, demonstrava seus limites e abria uma era de renovação (neo) liberal – privatizações, maior competitividade e estímulos ao livre mercado -, a qual arrastaria em seu curso, inclusive, tradicionais figuras do socialismo europeu, como François Mitterrand, na França, e Tony Blair, na Inglaterra.

Anthony Giddens foi o maior ideólogo desta nova postura, que acabou subsidiária do “Consenso de Washington”. Num artigo publicado no jornal El País, em julho de 2007, ele sintetizou os pontos mais fortes da nova posição, antes chamada de “Terceira Via”. Há uma série de princípios estratégicos principais, bem diferenciados do pensamento da esquerda tradicional.

O primeiro é: apoderar-se do centro político. Nenhum partido social-democrata pode hoje triunfar se pretender atrair uma determinada classe. O importante é tratar de mover o centro da gravidade política para a esquerda. Nos últimos dez anos, o trabalhismo soube fazê-lo.

O segundo princípio é: assegurar a solidez da economia. Garantir mais justiça social significa contar com uma economia mais sólida, não o contrário. Os governos trabalhistas anteriores, quase sem exceção, acabaram em crise econômica poucos anos depois de terem chegado ao poder.

O terceiro princípio é realizar grandes investimentos nos serviços públicos, mas insistindo em que sejam acompanhados de reformas destinadas a fazer com que tais serviços sejam mais eficientes e transparentes e tenham maior capacidade de reação. Para isso são essenciais a possibilidade de escolha e a competência.

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O quarto princípio é criar um novo contrato entre o Estado e os cidadãos, que inclua tanto direitos, quanto responsabilidades. O governo deve proporcionar os recursos necessários para ajudar a gente a construir sua própria vida, mas a gente deve cumprir sua parte no pacto. Por exemplo, até agora, as indenizações por desemprego eram um direito incondicional. Mas agora, essa situação convida a não assumir nenhuma responsabilidade e tem o efeito de impedir o acesso dos trabalhadores a certos postos de trabalho. As pessoas que perdem seus empregos devem responsabilizar-se pela procura de trabalho e, ao mesmo tempo, devem ter a possibilidade de atualizar sua formação quando o necessitem.

Por último, o princípio mais controvertido – embora crucial para o êxito do trabalhismo: não permitir que a direita política monopolize nenhuma questão. A direita tende a prevalecer sempre em áreas, como a ordem pública, a imigração e o terrorismo; temos de buscar soluções de centro-esquerda para estes problemas. Dadas as repercussões de viver num mundo mais globalizado, é preciso que encontremos um novo equilíbrio entre as liberdades civis e a segurança.

A nova posição isolou a esquerda mais radical em seus respectivos países e quebrou muitas das conquistas sociais do período anterior, mas também contribuiu para a unificação da Europa, acima do princípio das antigas soberanias nacionais, altamente beligerantes, e das fortes pressões corporativas.  A União Europeia, enfim, foi a realização de um velho sonho dos espíritos mais lúcidos da região. Hoje, ao contrário, é o neoliberalismo que está em crise, mesclado com a persistente tensão nos mercados financeiros, altas taxas de desemprego em vários países da União Europeia e a inusitada crise dos refugiados.  Só a Alemanha recebeu um milhão deles. Desencanto, portanto, chegando ao pessimismo em vários caos.

Diante deste novo cenário emergem duas reações, ambas altamente contestadoras à estabilidade da União Europeia: (1) o conservadorismo clássico da Europa é ameaçado, à direita, pelo populismo xenófobo, à la Trump,  fazendo com que até se louve a sua sobrevivência em personagens como Angela Merkel e Thereza May; (2) A esquerda reacende seus ideais igualitários redividindo-se em quatro ou cinco grandes grupos, todos bastante articulados em toda a Europa, mas sem fronteiras nem ideários muito rígidos: o Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia no qual se situa, dentre outros, o Partido da Esquerda Europeia, reunindo antigos Partidos Comunistas, eurocomunistas e socialistas democráticos, bem como o Syriza, da Grécia, único no poder, mas já com uma dissidência em busca de uma Frente Democrática, identificada pelo Manifesto DiEM-25, na defesa da democratização da União Europeia; e uma esquerda anticapitalista europeia, informal, mais radical, de pouca representatividade, à que se somam, na margem, os anarquistas, em franca ascensão.

Não se sabe bem no que estas transformações todas no cenário europeu acabarão dando. O tempo, senhor de todas as verdades, o dirá.

Enquanto isso, curte-se mais um verão quente, cheio de realizações culturais por toda a Europa, muitos jovens andando de um lado pra outro, como se nada houvesse. Nos cafés, os mais velhos. Vida que segue. Como sempre, até na guerra, até que os as bombas estourem sobre nossas cabeças. Uma coisa é atmosfera, outra é o front, outra, ainda, a retaguarda, onde acalentamos sonhos de amor e paixão eternos. A vida é bela. E nós sempre teremos Paris…

Economista, formado pela UFRGS. Pós Graduado na ESCOLATINA, da Universidade do Chile e CEPAL/BNDES. Foi professor da Universidade de Brasilia- UnB – e Técnico do IPEA, órgão do Ministério do Planejamento, em Brasília.