Sem aparentar a melancolia e o cansaço esperados de um lame duck, o presidente Barack Obama fez seu discurso de despedida na madrugada desta quarta-feira (11), em Chicago, após oito anos à frente da ainda principal potência mundial. O tom foi diferente daquele tradicionalmente adotado em um discurso de posse ou nas falas do State of the Union (SOTU) – importantes peças de retórica e de declaração de intenções do Executivo americano –, seja para consumo doméstico, seja para consumo externo. Nesses dois momentos, a expectativa é que o presidente ofereça as linhas gerais de como será seu governo, de como conduzirá a Economia e a Política Externa e, mais adiante, que divulgue um balanço anual de sua gestão.

Especialmente no SOTU, há uma inflexão autocongratulatória que reforça ganhos e conquistas, enquanto pendências e omissões ficam em um relativo segundo plano. Afinal, ainda se tem tempo para, talvez, avançar em promessas de campanha que poderão fazer parte daquilo que tanto mobiliza os presidentes americanos: o legado a ser deixado.

Em seu Farewell Address, simbolicamente pronunciado em seu reduto eleitoral, Obama se concentrou no que faltou fazer e nos riscos que pairam sobre a “excepcional” democracia da América.

Depois de uma lacônica apresentação dos pontos positivos de seu governo, destacou áreas onde foi cobrado por não ter tido uma postura mais incisiva, ou por não ter avançado o suficiente, como desigualdade socioeconômica, discriminação, racismo, imigração, meio ambiente, Estado Islâmico, fechamento da base militar de Guantánamo. Temas que já eram (ou se tornaram) bastante sensíveis em um contexto político polarizado em níveis pouco vistos no país e que devem enfrentar resistência e até mesmo sofrer recuo na gestão de seu sucessor, o republicano Donald Trump.

Embora transição pós-vitória nas urnas e governo tenham natureza e dinâmicas diferentes da campanha eleitoral, o magnata nova-iorquino já sinalizou, com seus tuítes, suas declarações e as nomeações para compor o futuro gabinete, o que é possível dele esperar. Além disso, os republicanos mantêm maioria em ambas as Casas do Congresso.

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Síria, Obamacare e a reforma sobre porte e posse de armas não foram mencionados pelo democrata esta noite.

Apesar de citado uma única vez, Donald Trump e o que ele parece hoje representar em termos de agenda e valores para uma fatia do eleitorado estiveram bastante presentes nas palavras de Obama: no alerta sobre potenciais desafios e ameaças à democracia; na defesa da luta contra o extremismo, a intolerância, a xenofobia, o sectarismo e o chauvinismo; na qualificação de Rússia e China como “rivais”; no apelo por unidade e reconstrução das instituições democráticas; na advertência sobre a corrosão do diálogo político e o consequente enfraquecimento dos laços e valores que definem os americanos.

“Nossa democracia é ameaçada sempre que a damos como certa”, observou o presidente.

No momento mais emotivo do discurso, Obama homenageou a primeira-dama dos Estados Unidos, aquela que “tornou a Casa Branca um lugar que pertence a todo mundo”, que se tornou um “modelo” para a nova geração e “deixou o país orgulhoso”. Talvez nesse breve instante esteja o prenúncio de uma futura candidata à Presidência, quem sabe já para 2020. Pressão do Partido Democrata não faltará. Em pesquisa do Instituto Gallup de agosto de 2016, Michelle aparece com 64% de aprovação – popularidade que se manteve nesse patamar até agora, em média, segundo diferentes enquetes publicadas até dezembro passado.

Aprovada pelo Congresso em 1947 e ratificada em 1951, a 22ª Emenda da Constituição americana proíbe seus presidentes de tentarem um terceiro mandato, ainda que intercalado. Há os que se retiram da vida pública, com eventuais aparições protocolares. Há os que criam uma fundação com seu nome e mantêm um alto perfil. Seguem tentando influenciar o debate e recriar sua própria narrativa, livres que estão dos constrangimentos do poder. Em seu último discurso, marcado pelo otimismo, pelo chamado à conciliação política, pela convocação de mais envolvimento dos americanos com a vida pública (sobretudo os mais jovens) e pelas notas de esperança, Obama disse “até logo”, e não “adeus”.