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México: cenários para 2018


Apesar de ainda faltar mais de um ano para as eleições presidenciais no México, as especulações correm livres.

De acordo com a última pesquisa eleitoral feita pela Buendía & Laredo-El Universal, em fevereiro de 2017, Andrés Manuel Lopez Obrador e Margarita Zavala são os candidatos mais citados pelos mexicanos quando é mostrada uma lista com os possíveis nomes para 2018. No cenário em que aparece Miguel Ángel Osorio Chong, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), López Obrador sai em primeiro (27%). No cotado com Eruviel Ávila, também do PRI, vence Zavala (27%). Em quarto lugar, aparece Miguel Ángel Mancera, do Partido da Revolução Democrática (PRD). Interessante notar que Miguel Ángel Osorio Chong é Secretário de Governo na atual administração de Enrique Peña Nieto, ao passo que Eruviel Ávila é governador do Estado do México e Miguel Ángel Mancera é o atual chefe de governo da Cidade do México.

Os nomes que aparecem na pesquisa, contudo, não estão confirmados para a disputa no ano que vem. Isso porque dentro dos partidos há muita disputa para saber quem estará no pleito, em junho de 2018. Pelo PAN, além de Margarita Zavala, menciona-se Ricardo Anaya, presidente da organização. Entre os candidatos independentes, estão citados Jorge Castañeda, ex-secretário de relações exteriores, Jaime Rodríguez “El Bronco”, governador de Novo León, o jornalista Pedro Ferriz e o milionário Carlos Slim. Na pesquisa realizada em novembro de 2016, Margarita Zavala aparecia em primeiro lugar (30%), seguida por López Obrador (25%) e Osorio Chong (16%).

Apesar de López Obrador estar à frente nas pesquisas quando mencionados os candidatos, o PAN aparece antes do Movimento Regeneração Nacional (Morena) quando questionado acerca do partido que o eleitor votaria. Neste caso, a pesquisa mais recente aponta PAN (23%), Morena (21%) e PRI (13%). É importante observar que 21% dos eleitores não apresentaram respostas, o que aumenta a indefinição. O PRI é, de todos os partidos, o que apresenta maior número de opiniões “muito ruins”, tendo vindo, desde setembro de 2016, deteriorando-se.

De todos os nomes, chama atenção a trajetória de Andrés Manuel López Obrador (AMLO). Primeiro, foi membro do PRI de 1976 a 1988, quando saiu para fundar o PRD. Esteve no partido de desde sua criação, em 1989, até 2011, quando encabeçou a fundação do Morena. No período em que esteve no PRD, foi presidente nacional do partido e chefe de governo do Distrito Federal, de 2000 a 2005. Em 2006, inicia sua campanha como candidato a Presidente da República, quando denunciou fraudes nas eleições que deram a vitória ao seu oponente do PAN, Felipe Calderón. Tentou novamente a presidência em 2012, quando vence Enrique Peña Nieto.

Considerado um candidato de esquerda, Andrés Manuel vem, contudo, adotando um tom mais moderado diante da crise com os Estados Unidos. Crítico das reformas estruturais do “Pacto pelo México”, as quais abriram o setor petroleiro no país, demonstrou apoio ao presidente atual diante das recentes investidas de Donald Trump. Na ocasião da visita oficial aos EUA, que não se realizou, AMLO pediu uma postura firme do governo e unidade nacional, alegando que Enrique Peña Nieto representa os mexicanos.

Andrés Manuel López Obrador diz ser a terceira via. Colocando-se como o candidato “da esperança para o México”, vem reiterando sua oposição às reformas aprovadas, prometendo democratizar o Estado mexicano e convertê-lo novamente em um mecanismo de desenvolvimento político, econômico e social. Nas relações exteriores, não dá grandes detalhes de como pretende “mudar substancialmente a relação com os Estados Unidos”, destacando apenas a necessidade de alavancar a cooperação para o desenvolvimento, ao invés da militar vigente. Já no âmbito estatal, promete cortar altos salários de funcionários públicos e cancelar grandes pensões, fazendo com que para o povo “custe menos manter o governo”.

Apesar de suas propostas terem de fato adesão em vários setores no México, vencer as eleições será um grande desafio para o candidato e seu partido. Isso porque, diante das pesquisas eleitorais, os outros partidos já começam a se mobilizar em termos de alianças. O que pode ajudá-lo, contudo, é que estes estão muito divididos, não havendo consenso em torno de um candidato único e, inclusive, com vários dos seus membros manifestando apoio à candidatura de López Obrador. Na semana passada, o coordenador do PRD no Senado foi destituído do cargo depois de apoiar claramente a sua candidatura. López Obrador deve, também, reverter a opinião ruim que muitos cidadãos têm a seu respeito. Na pesquisa de fevereiro, ele aparece como o candidato mais aprovado pelos eleitores (36%), mas também o com maior rejeição (33%).

De toda forma, as especulações para 2018 dizem muito do momento atual no México. Enrique Peña Nieto possui apenas 12% de aprovação, menos de dez pontos percentuais do que apresentava em novembro de 2016. No começo do ano, isso se explica em grande parte pelo decreto do aumento da gasolina, mas não somente. Há grande incerteza no país a respeito do que vai ser negociado com os EUA e que impactos haverá no México, que já vem apresentando sinais econômicos preocupantes. Por mais que o PRI ganhe nas eleições para governador, a serem realizadas em junho próximo, isso pode não ter efeitos reais para o partido em 2018.

Se as especulações já começaram cedo, isso mostra que muitos já “sepultam” o último ano do sexênio de Peña Nieto. Para o PAN, o grande desafio de Margarita Zavala será apagar ou pelo menos minimizar a herança do seu marido, Felipe Calderón, conhecido pela estratégia militarista de combate ao narcotráfico. Em pesquisa de agosto de 2011, 70% da população acreditavam que a violência associada às drogas havia aumentado, enquanto apenas 13% acreditavam ter diminuído. Diante da baixa percepção de segurança que gerou a guerra às drogas, 51% dos entrevistados acreditavam que a estratégia deveria ser alterada.

Nesse cenário de descrédito dos partidos tradicionais, o Morena parece ganhar força.

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Marcela Franzoni

sobre Marcela Franzoni

Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e mestranda no Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP). Atualmente, pesquisa a diplomacia econômica mexicana e as suas relações com os Estados Unidos e a América Latina.

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