Por Kate Aronoff,  da Dissent


Os últimos anos foram um pouco como uma montanha-russa para a esquerda europeia. Na linha de frente estava Yanis Varoufakis, o carismático economista e ex-ministro das Finanças grego que em 2015 entrou em guerra com a troika – a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional – que tentava infligir uma austeridade brutal como penalidade pelas dívidas e pela decisão dos gregos de eleger um governo abertamente de esquerda, liderado pelo Syriza. O Syriza perdeu essa luta, mas Varoufakis escapou praticamente ileso. Em meio ao Brexit e uma onda de euroceticismo, ele fundou o Movimento Democracia na Europa em 2025 (DiEM25 – Democracy in Europe Movement 2025), pressionando por um continente mais democrático e inclusivo, livre de austeridade. Nas eleições europeias de maio de 2019, o grupo lançou vários candidatos sob o manto de uma primavera europeia, incluindo o próprio Varoufakis. Eles não conseguiram obter um único assento, embora seu total de votos tenha chegado a um centésimo de ponto percentual abaixo do limite de 3% necessário para obter representação. Enquanto a centro-direita vacilou em maio, o mesmo aconteceu com a esquerda.

Particularmente entre os eleitores jovens, os partidos progressistas e social-democratas – incluindo aqueles na órbita do DiEM25 – parecem ter perdido muitos dos seus votos para os Verdes (European Greens), que aproveitaram com sucesso o impulso dado pelos protestos Fridays for Future, liderados por jovens pela Europa, e pelo Extinction Rebelion no Reino Unido. Os eleitores em todo o continente agora incluem a crise climática entre suas principais preocupações. A grande ironia nos partidos de esquerda é que, do La France Insoumise ao Partido Trabalhista no Reino Unido, eles são mais verdes do que nunca, rejeitando, em muitos lugares, a visão produtivista da velha escola que os ditou os rumos políticos no pós-guerra.

Na Europa, toda política é agora sobre política climática. A questão é se a esquerda pode fundamentar a conversa sobre o aquecimento global, aliando-a uma visão igualitária mais ampla, que seja capaz de fazer frente às respostas oferecidas pela tépida tecnocracia centrista e pela extrema-direita xenofóbica. Em seu estímulo para um Green New Deal, o DiEM25 aposta que pode, mas não acredita que não haverá obstáculos ao longo do caminho. A participação simbólica nas eleições para o Parlamento Europeu fez parte de um esforço maior que continuará, ao passo que a esquerda tenta elaborar um tipo de resposta sistêmica e internacionalista para a questão climática nos termos que a ciência está exigindo.

Yanis Varoufakis é o autor de Adults in the Room e The Global Minotaur, entre outros livros.

A entrevista abaixo foi gravada alguns dias antes do início da votação em maio do presente ano.

O DiEM25 e muitos outros estão defendendo um Green New Deal, algo em que você trabalhou por vários anos. O que você pensa sobre esse enquadramento que está chamando a atenção das pessoas, apesar de ser aparentemente um tanto quanto norte-americano?

Varoufakis: O que é importante sobre um Green New Deal é que ele se concentra numa tarefa principal, que é encontrar rápida e eficientemente um vigoroso financiamento para uma causa de interesse público. O New Deal começou com Roosevelt nos anos 1930, no meio de uma Grande Depressão. A inovação do pensamento de Roosevelt, que não era exatamente um radical, era concentrar-se no fato de que, mesmo durante a Grande Depressão – quando todos tinham pouco dinheiro – havia uma montanha de dinheiro ocioso, que poderia ser convertida em investimento. Então, ao invés de pensar em um sistema social diferente, como mudar os direitos de propriedade, ele usou o conjunto de ferramentas do governo federal e, em particular, do Tesouro dos EUA, para colocar bilhões de dólares a serviço de investimentos em empregos, na construção de estradas e hospitais. até mesmo em projetos de arte e assim por diante.

Nossa versão do Green New Deal combina os objetivos originais e a inspiração de Franklin Roosevelt. Queremos que os governos usem instrumentos financeiros públicos para aumentar maciçamente o investimento em empregos de boa qualidade, tecnologias e instalações que são necessárias para a transição verde nos setores de energia, transporte, manufatura e agricultura. Isso é absolutamente essencial, e é nisso que estamos trabalhando há anos.

Como parte disso, você também pediu para remodelar as instituições de Bretton Woods e fez referência ao Plano Marshall, que, como você escreveu, ocorreu por uma série de razões, sendo uma das quais o autointeresse dos formuladores de política dos EUA em ter aliados em todo o mundo no contexto da Guerra Fria. Como a remodelação das instituições de Bretton Woods se daria nos dias hoje? Existe um apelo semelhante a ser feito nos termos daquele autointeresse que impulsionou o Plano Marshall?

O sistema de Bretton Woods foi originalmente concebido pelos New Dealers como uma estrutura global dentro da qual o New Deal de Roosevelt, desenvolvido nos Estados Unidos, poderia prevalecer. Hoje, se quisermos um Green New Deal europeu ou um Green New Deal norte-americano, teremos que olhar para além das fronteiras de nossos países para criar as condições nas quais um [novo] New Deal possa se globalizar. Requer algo como um novo Bretton Woods. Se você olhar para as antigas instituições de Bretton Woods que ainda estão conosco, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, elas se tornaram tóxicas na era da financeirização. Elas se tornaram prejudiciais aos interesses das multidões ao redor do mundo. No DiEM25, mas também como parte de uma internacional progressista que estamos construindo lentamente com nossos amigos e colegas nos Estados Unidos, no Japão, na Islândia, na África, e assim por diante, estamos imaginando um novo Bretton Woods que terá muito pouco a ver com o antigo Bretton Woods, exceto na ideia original de criar a estrutura e as instituições internacionais que são absolutamente necessárias para manter um Green New Deal internacional.

Como isso contorna alguns dos problemas enfrentados por órgãos como as Convenções-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática na tentativa de chegar a uma solução global para esse problema?

As abordagens que você mencionou estiveram focadas em restrições. Agora, isso é muito importante, ficou claro: os limites físicos para o crescimento e o estabelecimento de tetos para os gases CO2 ou metano são essenciais. Mas o problema com esses acordos internacionais é que, enquanto todos os países do mundo se beneficiariam se todos se restringissem, cada um deles tem um incentivo para encontrar algum pretexto, seja de forma encoberta ou direta, com que justificar a quebra desses compromissos. No entanto, se os acordos internacionais sobre mudança climática passarem a criar ferramentas financeiras públicas que permitam que os bancos colaborem para emitir títulos que absorvam o excesso de liquidez, então de repente o incentivo estaria lá para os países aderirem aos acordos. Este seria um fundo de investimento internacional de grande escala com objetivo de criar empregos e fazer coisas boas em relação a tecnologias para energias renováveis e assim por diante. Um plano internacional de investimento verde de grande escala ofereceria não apenas as bases instrumentais, mas também as recompensas para que os países participassem dos acordos internacionais – algo que nunca foi tentado antes.

Adam Tooze [professor de História e diretor do European Institute na Columbia University] respondeu a alguns dos seus escritos sobre este ponto argumentando que o poder não está realmente contido nas nações como estava ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando essas instituições foram criadas. Agora, está concentrado entre os bancos centrais, advogados e economistas financeiros. Como você responde a essa crítica?

Eu concordo com isso. Nunca devemos subestimar a importância dos funcionários, tanto dos funcionários que trabalham para os Estados quanto dos funcionários que trabalham para grandes corporações. Mas para dizer que, por estarem desproporcionalmente dotados de poder, o resto de nós deveria simplesmente levantar as mãos para os céus e se entregar à mudança climática ou ao subinvestimento ou ao que Larry Summers se refere como estagnação secular, é uma aberração para mim. Minha avaliação de Bretton Woods em 1944 é que ele foi impulsionada por um compromisso moral muito poderoso por parte de pessoas na administração dos New Dealers que sentiram nos ossos as desigualdades e a miséria da Grande Depressão, e não queriam viver para ver de novo. Essa força política moral, ideológica, se você quiser, era uma condição necessária, mesmo que não fosse suficiente. Como Adam Tooze ressalta, foram necessários muitos advogados e funcionários que reconheceram o interesse próprio em participar desse majestoso novo projeto internacionalista, para então realizá-lo. Não vejo por que não devemos fazer a mesma coisa neste momento. O ano de 2008 foi espetacularmente semelhante ao de 1929.

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Existe a tendência de tratar o clima como algo que pode ser separado do setor financeiro ou de questões de imigração. Você poderia dizer explicar por que reformas massivas no sistema financeiro são tão importantes para lidar com o problema climático?

Se você olhar para o que está acontecendo em Wall Street hoje, é como se 2008 nunca tivesse acontecido. O setor financeiro é como um motorista que foi pego dirigindo a 130 milhas por hora, recebe uma multa enorme, e depois de meia hora esquece tudo sobre a multa e começa a acelerar novamente. Quanto às mudanças climáticas, no meu próprio país, temos uma festa que está sendo preparada pelos oligarcas do leste do Mediterrâneo, incluindo os gregos, e as empresas multinacionais norte-americanas que em breve irão extrair petróleo e gás natural dos poços do fundo do mar. Tudo isso está sendo financiado por um setor financeiro que está ficando descontrolado novamente, como se 2008 nunca tivesse acontecido.

Nos anos 1930 e 40, ocorreu uma mudança real no modo como as pessoas entendiam o papel do Estado na economia e a atuação dos governos. Houve uma mudança de paradigma semelhante na década de 1970, que criou uma abertura para os neoliberais. A crise climática oferece hoje esse tipo de oportunidade para as pessoas que buscam colocar um novo paradigma para que se possa realmente lidar com isso?

Eu acho que essa mudança já aconteceu. A maioria das pessoas em todos os países percebe que a fé de Alan Greenspan na capacidade dos mercados de se autorregularem nada mais era do que uma forma particularmente tóxica de idiotice. A questão agora, no entanto, é a seguinte: como vamos do enfraquecimento do paradigma libertário para a criação de um consenso político em direção a um Green New Deal? Esta é a tarefa que temos pela frente para todos nós. No momento, em vez de progressistas se unirem e planejarem um novo Bretton Woods, o que temos é uma internacional neofascista liderada por pessoas como Matteo Salvini na Itália, Marine Le Pen na França, a Alternative für Deutschland na Alemanha, Orban na Hungria, Steve Bannon – que atravessa o continente espalhando seu veneno -, Donald Trump na Casa Branca, Bolsonaro no Brasil, Modi na Índia.

Estamos tentando criar uma internacional progressista, mas estamos apenas no início. E o chamamento da internacional nacionalista neofascista é: Make America Great Again, Make Greece Great Again, Make Italy Great Again. Por um lado, eles estão dizendo que são nacionalistas, mas, por outro lado, estão combinando forças de maneira muito eficiente em todo o mundo. O que precisamos fazer é imitar efetivamente seu sucesso mas sem imitar suas táticas. Eles estão usando a xenofobia: culpam muçulmanos, judeus, gregos e todos os tipos de categorias e conjuntos de pessoas, nacionalidades e religiões. Alegam estar fazendo isso em nome do povo, mas, uma vez no poder, empregam os piores criminosos de Wall Street. Donald Trump levou o pessoal da Goldman Sachs e os inseriu no Fed e no Tesouro.

Precisamos usar o Green New Deal como uma convocação em todo o mundo. O Green New Deal é uma mensagem positiva de realismo. Nós temos excesso de liquidez. O mundo nunca teve poupanças tão altas quanto as que temos hoje. Portanto, tudo o que precisamos fazer é encontrar maneiras de transformar esse recursos em empregos verdes de boa qualidade.

Fala-se que os Estados de Bem-Estar dependiam do petróleo barato. Se precisarmos realmente manter os combustíveis fósseis no solo, como poderemos construir um Estado de Bem-Estar de baixo carbono?

Eu não estou convencido de que o Estado de Bem-Estar foi construído com energia barata. O Estado de Bem-Estar social foi simplesmente construído a partir das pressões políticas sobre o capital para aproveitar alguns dos seus lucros a fim de estabilizar seu domínio sobre o trabalho. Foi um resultado do conflito de classes. Já vemos que a energia renovável é mais barata que o petróleo. Então, uma questão que teria sido muito pertinente nos anos 1970 –  época na qual as energias renováveis ​​não estavam disponíveis ou eram muito caras – não é mais pertinente. Hoje, tudo o que estamos perdendo é um investimento massivo na transformação das tecnologias e no aproveitamento das tecnologias renováveis ​​existentes que, nos próximos cinco anos, passarão a ser a base da geração de energia.

Eu rejeito o argumento de que precisamos voltar a uma existência bucólica para salvar o planeta. Quando conversamos com pessoas que estão lutando para sobreviver até o final do mês, dizendo a elas que nos próximos cinquenta anos vamos perder espécies, elas dizem: “Não dou a mínima! Eu mal consigo fazer face às despesas hoje”. Temos que conversar com as pessoas de uma forma que combine essas ansiedades com as questões do meio ambiente. Se não conseguirmos fazer isso, falharemos. Mas acho que podemos.

Nas últimas décadas, o crescimento do PIB tem sido a principal métrica pela qual a saúde de uma economia é julgada. Existe uma relação teimosa entre o crescimento do PIB e as emissões, mas também é verdade que o crescimento do PIB não é necessariamente um grande indicador do bem-estar humano, ou de muitas outras coisas que consideramos importantes em uma economia. O crescimento é uma métrica útil? Deveria haver outros?

O PIB é uma métrica terrível. Não há dúvida de que o crescimento do PIB não tem sentido em termos de realizações humanas, felicidade e sucesso. Você queima uma floresta, o PIB sobe. Mas não precisamos apenas de uma nova métrica, precisamos de um sistema diferente de organização da vida econômica. Precisamos transcender o capitalismo. Mas enquanto estivermos com o capitalismo, qual é o objetivo? Digamos que eu fosse projetar uma nova métrica fantástica que valorizasse muito as árvores, a poesia e todas as outras coisas que precisam ser valorizadas. Se vivemos no capitalismo, isso é irrelevante.

Entre os economistas, a resposta para como lidar com a mudança climática tem sido corrigir a falha do mercado ao fazer com que o preço do dióxido de carbono reflita seu verdadeiro valor: o custo social do carbono. Você enxerga esse consenso num horizonte próximo?

Economistas são criaturas muito engraçadas. Quando os economistas analisam o valor de mercado, o desastre completo no ambiente, ou mesmo nos mercados financeiros, não é reconhecido como uma falha do mercado. Então, o que eles estão propondo? Mais mercados. Eles esperam que o mercado realize seu milagre e um esquema de comércio de emissões criará um preço sombrio para o carbono que tornará mais provável que a humanidade reduza o uso de carbono. Agora, se você está interessado em salvar a ideologia do livre mercado do fracasso e de se tornar humilhado pelos fatos, então é claro que isso é o que você faz. Mas se você está interessado em salvar a humanidade, apenas lembre a si mesmo que partiu do axioma errado, e o axioma errado é “o mercado sabe o que é melhor”. O mercado não sabe.

Agora estamos a alguns dias das eleições europeias (maio 2019). Quais serão os próximos passos?

Quando anunciamos há um ano que íamos concorrer às eleições europeias, fomos muito claros ao dizer que não consideramos o Parlamento Europeu tão significativo. O que sempre esperávamos era participar do processo de eleitoral numa mesma semana em toda a Europa, o que nos permitiu colocar o Green New Deal na agenda da Polônia, Dinamarca, Portugal, Grécia, França, Alemanha e Itália. Isso tem sido notável. Então, após a eleição, vamos avaliar o que aconteceu, como fomos bem-sucedidos em colocá-lo na agenda e conseguir que algumas pessoas fossem eleitas. Veremos quais são as novas ferramentas que temos, se temos alguns novos recursos como resultado da eleição ou alguns de nós no Parlamento Europeu. A próxima etapa será de eleições nacionais na Alemanha, na Grécia, talvez na Itália. Esta não será uma luta fácil e não terminará tão cedo. Não é um evento discreto. É uma campanha contínua.


Publicado em https://www.dissentmagazine.org/article/an-interview-with-yanis-varoufakis

Traduzido e adaptado por Marcel Artioli.