Creio ser a primeira vez que órgãos de comunicação com o tipo e o grau de audiência do Financial Times empregam o termo «impeachment» a propósito daquilo que muitos comentadores da «direita» norte-americana consideraram ser uma «traição do Presidente Trump aos Estados Unidos a favor da Rússia». As probabilidades de «impeachment» são ainda remotas mas quem usou o termo não foram apenas comentadores das mídias nem testemunhas europeias; foram vários agentes políticos republicanos com peso no Congresso dos EUA.

Em pouco mais de ano e meio, uma forma qualquer de «impeachment» é, pois, publicamente evocada pelos seus próprios parceiros políticos a propósito de Trump e da sua incontrolável incontinência verbal e da sua total falta de tacto diplomático. Isto deve ter começado a preocupar seriamente não só aqueles que o presidente norte-americano designa por «foes» – nós, os seus «inimigos» europeus – como aqueles a quem ele chama «amigos», tais como antigo membro do KGB, Vladimir Putin, atual autocrata da Rússia, e o perigoso fantasista da dinastia comunista norte-coreana.

Se assim é, o que irá passar-se daqui a menos de quatro meses, quando tiverem lugar as eleições de 6 de Novembro próximo – a meio do mandato do atual presidente – para eleger mais de um terço dos senadores; a totalidade dos 435 membros da Casa dos Representantes, que são eleitos proporcionalmente em cada estado; e para 39 governadores, além de outras candidaturas?

Considerando que, a nível nacional, Trump teve menos dois milhões de votos do que a candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, a qual não estará presente em Novembro próximo para confundir as coisas, o mais provável é um terremoto eleitoral que se arrisca a fazer com que os Republicanos percam uma das «Casas do Congresso», se não as duas. Com efeito, a dimensão de surpresa que a eleição de Trump teve em Novembro de 2016, devido à complicada e inigualitária maquinaria de seleção dos candidatos à presidência e do vencedor final, não se repetirá.

Agora, os eleitores estão devidamente informados acerca de quem é Trump. Todos aqueles que, se soubessem o que sabem hoje, teriam votado em Hillary Clinton, desta vez não se absterão e tenderão, apesar das influências locais, a votar por candidatos Democratas, os quais não deixarão naturalmente de remexer as feridas que Trump já fez e continuará a fazer. Com efeito, perante o comportamento – impróprio em quaisquer condições – do atual presidente ao longo de um ano e meio, nada leva a crer que ele emendará a mão mesmo que tenha oportunidade de o fazer e que os seus conselheiros lhe peçam.

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Trump tem, efetivamente, essa questionável qualidade de ser sempre igual a si próprio. Não abotoa o casaco como não sabe escrever mais palavras do que as do «twitter», para não mencionar a sua incomensurável ignorância da história da humanidade e o seu limitado vocabulário. Assim como já há muitas pessoas circunspectas que se questionam acerca da perfeita sanidade mental do presidente norte-americano, podemos ter a certeza que ele não será capaz, ao contrário dos outros «populistas», de agir contra a sua natureza, fazendo alguns favores eleitorais como o governo português, por exemplo, não deixará de a fazer até às eleições.

Em princípio, o sistema eleitoral norte-americano funcionará. Se os próprios candidatos Republicanos estão seriamente preocupados com as centenas de lugares que irão a votos em breve e alguns deles estarão mesmo chocados com a arbitrariedade comportamental de Trump, algo farão para deitar água na fervura e tranquilizar o eleitorado, mas não é verosímil que consigam fazer do presidente o «cabo eleitoral» do partido. O alcance do eleitorado de Trump não irá mais longe do que a convicção de imunidade dos EUA contra todos os males do mundo e, pior do que tudo nas atuais condições do globo terrestre, a energia soberanista e protecionista que os anima.

Nisto, Trump e os seus apoiantes não estão sós. É isso, aliás, o mais perigoso para a democracia e para a equanimidade sócio-económica de que, melhor ou pior, a parte do mundo a que pertencemos tem beneficiado, apesar da crise aberta há dez anos nos Estados Unidos devido aos efeitos da globalização, que em contrapartida só eles próprios podiam ter lançado nos anos ‘70, desvinculando-se do padrão monetário de Bretton Woods e aliando-se com a China comunista… Até ao dia em que os conservadores ingleses e muitos trabalhistas quiseram sair da UE e descobriram que não sabiam como!

Trump crê-se o defensor do protecionismo nacional e das chamadas vítimas da globalização. Afinal, não é tão diferente de muitos, como o PCP e o BE, que também são contra a globalização e a UE. Em nome da pátria, os «populistas» do mundo inteiro gostariam era de abrir essa «gaiola de ferro» da racionalidade capitalista que teria, segundo Max Weber, encerrado os cidadãos dos seus países… Está-se mesmo a ver a outra «gaiola» em que Trump e os «populismos» – assumidos e por assumir – nos querem meter!

Cientista social, professor aposentado da Universidade de Lisboa. Investigador Jubilado do Instituto de Ciências Sociais e diretor do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa. Colunista do periódico on-line Observador, de Lisboa.