As relações entre a Rússia e a Turquia ficaram mais tensas em novembro de 2015, quando um avião russo foi derrubado por militares turcos, que afirmaram ter emitido diversas notificações de que a aeronave havia entrado em seu espaço aéreo antes da atitude extrema, que teve ainda uma morte como resultado. As autoridades russas negaram a acusação e afirmaram que o avião estava sobrevoando a Síria. A indignação de Moscou com o ocorrido resultou na adoção de sanções, restrições de viagens e negócios de turcos no país, além da suspensão de um projeto de gasoduto entre os dois Estados.

Porém, o efeito mais significativo e em grande medida responsável pela nova escalada das tensões nos últimos dias foi a aproximação da Rússia com os curdos sírios, inimigos de Erdogan e considerados o tendão de Aquiles da Turquia. O grupo foi acusado por Ancara de ser responsável pelo ataque que deixou 28 mortos e 61 feridos na capital turca na semana passada. A Turquia declarou que responsabilizará Moscou pelos ataques, agravando ainda mais a já delicada conjuntura. Antes disso, no final de janeiro, a Turquia havia acusado uma nova violação russa de seu espaço aéreo.

Na sexta-feira, em reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU, a Rússia tentou aprovar uma resolução para impedir a continuidade dos bombardeios turcos na Síria, porém a iniciativa foi rejeitada. Na ocasião, o embaixador francês para a ONU falou em “uma escalada militar perigosa que poderia facilmente sair do controle e nos levar a um território desconhecido”.

Diante desse quadro, Ancara tem frequentemente apelado à OTAN, porém a Organização tem tratado o assunto com cautela. Muitos interpretam as provocações russas à Turquia como forma de testar a aliança. Mas, para a OTAN, esse tem sido um teste difícil, uma vez que a Organização precisa demonstrar união e apoio mútuo entre os membros e ao mesmo tempo quer evitar um conflito com a Rússia. Por isso, o apoio da OTAN com o qual Ancara está contando em caso de escalada ainda maior das tensões com a Rússia pode não ser tão fácil de se conseguir quanto os discursos oficiais turcos têm feito parecer. Ainda em novembro de 2015, por ocasião da derrubada do avião russo, a resposta do Secretário Geral da OTAN durante a coletiva de imprensa apelou para a diplomacia e o esfriamento das tensões, a fim de evitar incidentes futuros. No mesmo sentido, um diplomata alemão esclareceu em significativa afirmação: “Nós não vamos pagar o preço por uma guerra iniciada pelos turcos”.

As decisões no âmbito do Conselho do Atlântico Norte (principal órgão decisório da OTAN) são tomadas por unanimidade, portanto dificilmente haverá uma ação da Organização a menos que a Rússia ataque posições em solo turco. Neste caso, Erdogan poderia evocar o artigo 5 referente à segurança coletiva, pela qual um ataque a um país-membro é interpretado como um ataque a todos os demais. Porém, se de fato a crise chegar a esse ponto, dois cenários podem ser vislumbrados: o consenso entre os membros para uma resposta conjunta da Organização ou a divisão de posições – o que sinalizaria uma vitória para Putin diante da fragmentação do Ocidente e da ameaça da obsolescência da própria OTAN.

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Diante deste turbilhão de possibilidades, ninguém parece saber como lidar com a Rússia, sensação surgida ainda no começo da crise na Ucrânia. Afinal, se aquela crise culminou com a anexação da Criméia, até onde podem chegar as consequências das ações russas para a Síria, cuja situação é ainda mais grave pela diversidade de potências que ali atuam? Afinal, a contradição entre os objetivos da pluralidade de atores envolvidos – estatais e não estatais – torna ainda mais complexo o conflito, em si mesmo já suficientemente complicado.

Diante do intrincado cenário, algumas análises chegaram ao extremo de classificar o conflito como uma terceira guerra mundial, uma vez que a Síria se tornou o marco zero da geopolítica global (5). Afinal, a situação já ultrapassou há tempos os limites de uma guerra civil, concentrando as pretensões russas de retornar ao seu status de grande potência, uma Turquia cada vez mais autoritária, uma política externa norte-americana incerta, o conflito curdo, a rivalidade entre Irã e Arábia Saudita, o terrorismo, um fluxo de refugiados sem precedentes e a incapacidade de uma União Europeia em crise.

Por isso, o “Ocidente”, esse bloco pretensamente uniforme em seus valores, características socioeconômicas e culturais e posicionamentos políticos, parece estar em teste. E embora seja difícil determinar o que está em jogo, a desconstrução da ideia de unidade e superioridade ocidental em relação ao “resto” pode ser um dos fatores em questão. Assim, a uma União Europeia em crise pode se juntar em breve uma OTAN igualmente em estado crítico, desafiando o chamado Ocidente em níveis que vão desde sua identidade à sua capacidade de manutenção da estabilidade global.

Autor(a)

  • Mestranda pelo Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP) e bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina, com período de formação na University of Birmingham, Inglaterra.