Requer a Constituição americana que os chefes de Estado descrevam todo início de ano a situação do país e elaborem a agenda legislativa dos meses seguintes. O discurso conhecido como o “State of the Union Address” e proferido no Congresso é ocasião das mais solenes no calendário político dos EUA. No dia 30 de janeiro, Trump fez seu primeiro State of the Union na noite anterior.

O discurso, este ano intitulado “Construindo uma América segura, forte e orgulhosa”, tem quatro eixos fundamentais, alguns parcialmente elaborados durante a fala de Trump em Davos na última semana. O primeiro eixo é a economia americana, em particular a solidez da recuperação e os esforços que o governo tem feito para trazer investimentos para os Estados Unidos e melhorar o ambiente de negócios. A reforma tributária aprovada em dezembro de 2017 – e sobre a qual já escrevi nesse espaço ,– além de medidas para desmontar regulações tidas como excessivas, muitas erguidas no governo Obama, têm sido exaltadas como os pilares da recuperação econômica e da queda do desemprego iniciados em 2009.

O segundo eixo do discurso é a infraestrutura, que, verdade seja dita, está mesmo em frangalhos para padrões norte-americanos. Como o plano trilionário para reconstruir pontes, estradas e ferrovias não tem financiamento garantido, e os cortes de impostos da recente reforma tributária tampouco estão cobertos, as duas medidas em conjunto deverão elevar consideravelmente o déficit e a dívida pública, o que poderá descarrilar a recuperação atual mais à frente.

O terceiro eixo é a estratégia para as políticas de comércio internacional. Em Davos, logo após a imposição de salgadas tarifas de importação sobre máquinas de lavar e painéis solares, em clara sinalização protecionista, Trump discorreu sobre a necessidade de que o comércio seja livre, justo, e recíproco. Embora a ideia de justiça comercial seja mais ou menos clara – ela pressupõe que parceiros comerciais não utilizem medidas desleais que aumentem a competitividade de seus produtos –, a reciprocidade alardeada por Trump e membros de seu governo é mais complicada. Quando a reciprocidade reflete a noção de que parceiros comerciais tratam-se da forma como gostariam de ser tratados individualmente, ela remete à necessidade de ter um sistema de regras internacionais para regular o comércio. Esse sistema existe, e chama-se Organização Mundial do Comércio, cujo defensor principal – até recentemente – foram os EUA.

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Sob Trump, a OMC tem sofrido intensos bombardeios. Portanto, a reciprocidade trumpista trata-se não de exaltar as regras e instituições existentes, mas de requerer que o comércio entre países seja equilibrado, em alusão à sua cruzada contra os déficits comerciais. Para qualquer economista, esse conceito deturpado de reciprocidade não faz qualquer sentido. Afinal, países vendem aquilo que produzem com maior eficiência relativa, e compram aquilo que não são capazes de confeccionar com a mesma eficiência relativa. Não há comércio equilibrado que atenda a esse preceito fundamental.

A falta de um entendimento básico do governo Trump a respeito de como funciona o comércio internacional, os fatores que geram déficits externos, e as medidas para reduzi-los quando isso é necessário – o que nem sempre é o caso – é o calcanhar-de-aquiles da economia global. É essa ignorância que pode levar os EUA a uma guerra comercial com a China, ou mesmo com países aliados como o México, o Canadá, os membros da União Europeia.

Por fim, o quarto eixo do discurso de Trump é o eterno fetiche com a militarização e a defesa, e sua outra grande cruzada contra os imigrantes. Deixando a defesa de lado, a cruzada contra a imigração é tiro na cabeça. Se os EUA até hoje conseguiram escapar da desaceleração estrutural da economia devido ao envelhecimento populacional que atinge o Japão, mas também os países europeus, foi por causa de suas políticas de imigração, como mostram tantos estudos sobre o tema. O discurso ultrapassado anti-imigração é a outra faceta do protecionismo comercial. Atende aos anseios equivocados daqueles que não querem entender a complexidade desses temas enquanto enfraquece as bases de sustentação da economia no médio prazo. No final, o que resta é uma América insegura, fraca, ainda que cheia de orgulho de seu próprio desconhecimento.


Artigo publicado em O Estado de S. Paulo, 31/1/2018.

Economista, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University.