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Em meio à ofensiva diplomática do presidente americano Joe Biden no Leste Europeu, no início do mês o presidente da Rússia, Vladimir Putin e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, assinaram em Nova Déli um ambicioso plano de dez anos para cooperação bilateral em assuntos militares, científicos e econômicos. O encontro marcou o 50º aniversário do Tratado de Cooperação e Amizade entre Índia e URSS, firmado em 1971 diante da aproximação dos EUA com China e Paquistão no governo Nixon.

O aprofundamento de laços com Moscou, apesar da aproximação com Washington nos últimos anos, confirma a busca de autonomia na política externa do governo indiano, que destacamos no artigo “Nacionalismo na Índia de Narendra Modi e do BJP”, escrito com Henoch Mandelbaum e Marcel Artioli, a ser publicado em breve na Revista Mural Internacional, da UERJ. Putin mostrou capacidade de iniciativa e trunfos para desenvolver boas relações com potências emergentes e tratou a Índia como grande potência. E Modi destacou os esforços russos na produção de vacinas para combater a covid-19.

Modi e Putin fizeram menção ao aumento da parceria Ric, acrônimo de Rússia, China e Índia. São potências dos Brics e parceiros que Nova Déli quer ter a seu lado em seu pleito de inclusão como membro permanente no Conselho de Segurança da ONU. Não houve referência a Brasil e África do Sul.

O protocolo fixou metas anuais de US$ 30 bilhões de comércio e de US$ 50 bilhões de investimentos, com 28 acordos em produção naval, de energia, recursos minerais e defesa. Os mais polêmicos incluem a joint venture Indo-Russian Rifles Private Ltd (IRRPL) para produzir rifles Ak-203 na Índia a partir de 2023 e a reafirmação do interesse de Nova Déli de receber os mísseis russos S-400 comprados em acordo de US$ 5,5 bilhões.

Esse fluxo comercial de armamentos preocupa os EUA. Desde 2017, Washington pune parceiros que estabeleçam tais negócios com seus rivais, caso das sanções e restrições comerciais contra a Turquia, em 2020, pela compra de mísseis russos similares. A Casa Branca hesita em fazer algo semelhante contra um pilar de sua estratégia no Indo-Pacífico, mas evita descartar punições, diante da pressão de congressistas para cumprir as regras. Nos últimos anos, EUA e Índia estabeleceram diversos acordos militares, incluindo compartilhamento de informações e inteligência geoespacial, além de exercícios navais conjuntos. Washington insiste que a parceria se mantém por confiança mútua e qualquer passo em direção aos rivais pode gerar resultados indesejáveis.

Desde a Guerra Fria, Nova Déli e Moscou usam rublos e rúpias em acordos de tecnologia militar e espacial, de modo a blindar os acordos contra restrições a pagamentos em dólar, com a previsão de pagamentos e swaps nas próprias moedas. Em 2018, os dois países reafirmaram esta prática para contornar bloqueios em sistemas de pagamentos ocidentais, inclusive ameaças de restrições no sistema SWIFT.

Apesar da aproximação com os EUA frente ao crescimento da China, Nova Déli acredita que Moscou cumpre papel importante em sua política externa. Muitos analistas apontam capacidades obsoletas do exército indiano e houve aumento na aquisição de armas de Israel, França e África do Sul. Entre 2016-2020, a Índia foi o maior comprador da indústria bélica russa, com 23% do total. A Rússia continua sendo parceiro importante no setor por permite acordos de produção de armamentos na própria Índia. A fabricação local dos rifles Ak-23 interessa ao programa de industrialização lançado por Modi em 2014, que ainda não obteve os resultados prometidos. Moscou é também importante na energia. A Índia é muito dependente de importação de combustíveis fósseis, petróleo e carvão, e a volatidade de preços e oferta afeta seriamente a balança comercial e a quantidade de matéria prima disponível. Em 2021, as usinas de carvão, 70% da matriz enérgica do país, ficaram com reservas em níveis críticos. Houve forte
descontentamento da Índia com a demora de seus principais fornecedores: Austrália, África do Sul, Canadá e EUA. Nova Déli buscou a Rússia para reduzir a dependência desses países e reabastecer a produção de energia.

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Ademais, o aumento dos preços do petróleo alertou as autoridades econômicas indianas. Temem-se dificuldades de se cumprir metas de responsabilidade fiscal. Com isso, durante a visita de Putin, a refinaria Rosneft assinou um acordo com a Indian Oil Corp para fornecer 2 milhões de toneladas de petróleo aos indianos no próximo ano. Igualmente, os dois países estabeleceram diálogos para a expansão de recursos renováveis, como a exploração do hidrogênio como fonte de energia.

Para a Rússia, a aproximação reforça vínculos com um país também preocupado com a ação de grupos terroristas islâmicos na Ásia. Foram criados novos diálogos estratégicos de nível ministerial e foram reafirmados interesses comuns no combate ao terrorismo e ao narcotráfico na Ásia. O memorando conjunto emitido após a visita oficial de Putin enfatizou as cooperações em ações na ONU e o estabelecimento de grupos de ação nos Brics e na Organização de Cooperação de Xangai.


A Rússia procurou interessar a Índia em parcerias na exploração de recursos em seu vasto Extremo Oriente e no Ártico, regiões que também interessam à China. Modi tem participado de reuniões organizadas pela Rússia sobre o tema. O comunicado oficial da reunião reforçou o interesse de ambos os países em operacionalizar uma linha de crédito de US$ 1 bilhão para promover projetos de conexão marítima, engenharia ambiental, extração de minerais preciosos e investimentos de empresas na região. É curioso que Modi e Putin tenham se referido ao aumento da parceria RIC, acrônimo de Rússia, China e Índia. São as principais potências dos Brics e são os dois parceiros que Nova Déli quer ver ao lado de seu pleito de inclusão como membro permanente no Conselho de Segurança da ONU, o que não foi assumido no comunicado. Não houve referência aos dois outros membros do Brics.

Embora a Rússia venha ensaiando aumentar suas relações com o Brasil, e Modi frequentemente seja apresentado como liderança próxima ao governo brasileiro, as movimentações geopolíticas estão focadas no grande jogo do Indo-Pacífico. A ausência de estratégia pragmática brasileira reduz as possibilidades de nosso país lograr dividendos neste
contexto.


*Revisão: Marcel Artioli

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI), do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI/UNESP).

*** Este artigo foi publicado anteriormente pelo jornal Valor Econômico.

Autor(a)

  • João Paulo N. Gabriel é doutorando em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP). Carlos Eduardo Carvalho é professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP) e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC).