É certo que os independentistas catalães souberam aproveitar a fragmentação do sistema partidário espanhol (e catalão), assim como a crise política larvar que reinava no país desde as sucessivas eleições legislativas de 2015 e 2016, para desestabilizar o frágil equilíbrio conseguido pelo governo do Partido Popular. Não é menos verdade, porém, que o modo inapropriado – passivo e repressivo ao mesmo tempo – como o primeiro-ministro Mariano Rajoy lidou com fracção independentista catalã só agravou a crise político-partidária espanhola, apesar dos bons resultados econômicos de Espanha, bem melhores que os da “geringonça” portuguesa.

Foi contudo a sentença condenatória do tribunal acerca da corrupção reinante no PP – enquanto partido e não só de tal ou tal indivíduo – que precipitou a demissão de Rajoy e a queda do governo minoritário do PP (137 num total de 350 deputados). É importante começar por registar a corajosa decisão do tribunal, coisa que em Portugal seria impensável, apesar de aqui estar a correr há anos um processo contra o antigo primeiro-ministro Sócrates, de quem o PS só há poucos dias se demarcou partidariamente, e mais três cúmplices identificados pela prática de crimes de corrupção ativa enquanto titulares de cargos políticos…

Com a queda de Rajoy, sobreveio a improvável chegada ao poder do líder do PSOE, Pedro Sánchez, que seguramente não pensava nisso antes da condenação do PP e foi obrigado a mendigar votos aos independentistas catalães, bem como aos nacionalistas bascos, mediante a promessa de manter o orçamento de Estado fixado pelo PP… Não sendo a pior solução, é muito má e não é provável que o PSOE consiga formar um governo sustentável a partir dos seus magros 84 deputados.

No debate transmitido em directo, destacaram-se, cada um a seu modo, os dois outros partidos com mais deputados (Podemos, 71; Ciudadanos, 32). Estes últimos, vigorosamente anti-independentistas mas críticos da política de Rajoy em relação à Catalunha, bem como da corrupção do PP na sequência da do PSOE, procuraram convencer Rajoy a demitir-se e a provocar novas eleições, que então se presumia serem favoráveis a Ciudadanos mas que ficaram adiadas enquanto Sánchez tentará governar, não se sabe bem como nem com quem…

Sendo o Senado actual dominado pelo PP, o PSOE terá forçosamente que governar por decretos-lei, o que antes rejeitava. Em suma, é pouco verosímil que este parlamento fragmentado e este governo artificial cheguem a 2020. Vigorará, pois, uma instabilidade permanente até às próximas eleições!

Quanto ao líder de Podemos, Pablo Iglésias, que ainda há dias teve de pedir perdão ao seu partido por se ter portado como um rico burguês, ele e a mãe das futuras filhas de ambos, também deputada do Podemos, não escondeu o ódio a Rajoy e chamou fascista a Albert Rivera, líder dos Ciudadanos. Ao mesmo tempo, tentava seduzir o PSOE com promessas de um feliz governo social-democrata para todos, enquanto Sánchez aparentemente se derretia com os elogios e com a ascensão ao poder.

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Com efeito, tudo leva a crer que o regresso do PSOE ao governo de Espanha tenha de ser partilhado com Podemos (84+71=155 deputados), ficando mesmo assim bastante abaixo da maioria absoluta de 176, assim como dos 169 deputados que o PP e Ciudadanos poderão reunir contra muitas decisões do próximo governo. A ideia predominante neste momento é, contudo, que Ciudadanos tem tudo a ganhar em ficar fora de qualquer aliança, mesmo pontual, com o PP. Por conseguinte, não se sabe por quanto tempo, Portugal receberá da Europa meridional mais este presente envenenado que é a viragem à «esquerda» e/ou ao «populismo», do qual o «esquerdismo» de hoje mal se diferencia, na senda do proclamado «soberanismo» do «Brexit».

Desde a Itália à Grécia, passando agora também pela Espanha, o conjunto da Europa do Sul, da qual a Inglaterra foi durante séculos o «patrono», entra todo ele em divergência política e, daí, financeira e econômica, com a União Europeia, a qual não irá mudar de estratégia, por todas as visitas que a Chanceler Merkel nos faça.

Tendo em conta que o vento em popa que o governo português recebeu até há pouco da conjuntura internacional, está a exaurir-se. Portugal perderá inevitavelmente, com a viragem partidária que a Europa meridional tem sofrido, clientes económicos – vendas, compras e investimentos – da dimensão da Itália e sobretudo da Espanha, sem falar da Inglaterra em constante declínio.

No mundo globalizado, nenhum país é independente dos outros, muito menos os membros da UE. Esta apostou – e bem – em que só uma união financeira e económica rigorosa garantiria futuramente a solidez da união política europeia, até ao limite do federalismo desejado por muitos, perante os nossos concorrentes: Estados Unidos, China, Índia, Rússia, produtores de petróleo, etc.. E não é impossível que os efeitos negativos das derivas partidárias em curso tenham os seus previsíveis efeitos negativos mais depressa do que se pensava ainda há pouco.

Com Edmond Solé em Tarragona (Catalunha, Espanha)


Artigo publicado no periódico Observador, de Lisboa, 31/05/2018.

Manuel Villaverde Cabral

Cientista social, professor aposentado da Universidade de Lisboa. Investigador Jubilado do Instituto de Ciências Sociais e diretor do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa. Colunista do periódico on-line Observador, de Lisboa.