Coréia do Norte e Coréia do Sul têm estado, desde a década de 1950, numa condição de conflito iminente e de desconfiança mútua, com direito a uma zona de fronteira altamente militarizada. A movimentação inesperada de 50 dos 77 submarinos norte-coreanos esta semana fez com que aumentasse ainda mais o nível de atrito entre os dois países, alarmando também Estados Unidos e China.

Esta espiral de tensões começou no início do mês (04/08), depois que dois soldados sul-coreanos ficaram feridos por uma explosão de minas terrestres localizadas ao longo da fronteira que, segundo o governo sul-coreano, teriam sido instaladas por soldados norte-coreanos.

Como retaliação, o governo sul-coreano reiniciou a transmissão de propaganda anti-Pyongyang através de alto-falantes ao largo da zona fronteiriça. Na sequência, a Coréia do Norte enviou uma carta a Seoul informando que realizaria uma ação militar caso o vizinho do sul não interrompesse as propagandas dentro de 48 horas. Além disso, Pyongyang informou estar disposta a resolver o conflito, ainda que considerasse tais propagandas uma espécie de declaração de guerra.

Mesmo que as propagandas não tenham sido interrompidas, ambos os países iniciaram sessões de diálogo na vila de Panmunjom, com o intento de amenizar as tensões. A inusitada opção feita por ambos os lados pelo diálogo foi considerada, principalmente pela vizinha China, como um bom sinal.

Os acontecimentos, no entanto, trouxeram novamente preocupações acerca da estabilidade da região. Na semana passada (20/08) os dois países dispararam artilharias numa zona desmilitarizada de fronteira. Até a última quarta-feira (26/08), os submarinos ainda não haviam sido localizados, levando autoridades da Coreia do Sul a suspeitarem de um possível ataque surpresa a navios de guerra ou comerciais sul-coreanos.

Para o porta-voz do Ministério da Defesa sul-coreano, Kim Min-Seok, a fonte de preocupação está no fato de que a detecção dos submarinos é dificultada quando estão submersos e de que o número desses submarinos mobilizados é cerca de dez vez maior do que o número usual de movimentação militar norte-coreana neste aspecto.  “Levamos a situação muito a sério”, declarou na terça-feira (veja aqui).

Apesar de a maior parte dos analistas concordarem que, na eventualidade de um cenário de guerra na península coreana, as forças somadas de Estados Unidos e Coréia do Sul derrotariam facilmente o poderio bélico norte-coreano, não é de se desconsiderar os impactos nocivos e o sentimento de pânico que a força militar do regime de Kim Jong Un poderia causar no vizinho do sul.

Em artigo para o The National Interest, Harry J. Kazianis destaca cinco tipos de armamentos e ações que poderiam acarretar, senão a vitória numa guerra hipotética, fatalidades em grande escala para a população sul-coreana (veja aqui).  Instalação de bombas nos túneis subterrâneos que a Coréia do Norte mantém na zona fronteiriça e em metrópoles populosas sul-coreanas (como Seoul); uso de armas químicas e biológicas; ataques cibernéticos a setores estratégicos (como rede elétrica) e instalação de malwares em centros de comando militar sul-coreanos, estão entre aqueles os cinco tipos. Para Kazianis, a Coréia do Norte é “a caixa de Pandora que ninguém quer abrir”.

Devemos lembrar que a artilharia norte-coreana é uma das maiores do mundo, com aproximadamente dez mil peças em seu arsenal, todas apontadas para Seoul. O regime Kim já havia sido acusado também de ciberataques pelos Estados Unidos no caso da Sony, e pela Coréia do Sul por ataque a um reator nuclear nacional, ambos em dezembro de 2014.

Além disso, apesar de ter assinado o Protocolo de Genebra que proíbe a produção e o uso de armas químicas, a Coréia do Norte não prevê punição para a produção e a posse das mesmas em seu território. A Nuclear Threat Initiative estima que o país possua o terceiro maior estoque desse tipo de armamento do mundo (depois de Estados Unidos e Rússia): entre 2.500 e 5.000 toneladas de armas químicas, incluindo químicos de uso dual como fosgênio (agente tóxico corrosivo), cianeto de hidrogênio (agente que bloqueia a recepção de oxigênio pelo sangue) e sarin (age sob o sistema nervoso) (veja aqui).

Muito pouco se sabe sobre a capacidade do programa de armas químicas e biológicas norte-coreano. Seu complexo industrial químico foi iniciado no rescaldo da Guerra da Coréia. Sob a percepção de uma ameaça nuclear vinda dos Estados Unidos, a Coréia do Norte buscou uma alternativa menos onerosa para seu poderio bélico: impulsionar, através de “Planos Econômicos”, sua incipiente indústria química para a produção de armamentos químicos. Em 1961, Kim Il Sung emitiu uma “Declaração de Quimicalização”, cujo objetivo era promover o desenvolvimento de uma indústria química independente, capaz de suportar distintos setores da economia. Neste período foi estabelecida a organização básica do que viria a ser o Escritório de Defesa Química e Nuclear, e o país ainda recebeu assistência da antiga União Soviética (URSS) e da China.

Se no início da década de 1980 a Agência de Inteligência em Defesa dos Estados Unidos estimava a capacidade de armamento químico norte-coreana apenas como “defensiva” (veja aqui), hoje ela é vista como extremamente “ofensiva”. Apesar de não haver evidência publicamente disponível, o regime Kim tem sido acusado por ativistas de direitos humanos, desertores norte-coreanos e pelo governo sul-coreano de experimentar agentes químicos de uso dual em prisioneiros políticos e crianças com deficiência no Campo de Detenção 22 e numa ilha perto da província de Hoeryong. (veja aqui)

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Causou desconforto internacional ainda maior a publicação, pela mídia estatal norte-coreana, de fotos de Kim Jong Un visitando uma suposta fábrica de fertilizantes (Pyongyang Bio-technical Institute) que, de acordo com especialistas, serviria como fachada para a produção de massivas quantidades de anthrax para uso belicista (veja aqui). As imagens revelam instalações maiores, com melhores equipamentos, e com maior capacidade de produção do que a planta-piloto construída em 2005. Os dados são alarmantes e confusos, já que instalações de armas biológicas são notoriamente difíceis de identificar e monitorar, devido ao seu uso dual.  O que poderia parecer, num primeiro momento, uma instalação civil, pode funcionar também como uma instalação militar, já que o Instituto é dirigido pelas Forças Armadas norte-coreanas.

É importante destacar que o aumento das tensões entre as Coreias está subjacente a um exercício militar realizado por Estados Unidos e Coréia do Sul. O Ulchi Freedom Guardian (UFG), que ocorre entre 17 e 28 de agosto e envolve trinta mil soldados estadunidenses e cinquenta mil de sua contraparte sul-coreana, é, de acordo com o Comando de Forças Combinadas, “um exercício de rotina e orientado à defesa, delineado para aumentar a agilidade do CFC, proteger a região e manter a estabilidade na península coreana” (veja aqui). O UFG realiza uma série de exercícios e simulações com o fim de agilizar a resposta a possíveis incêndios, potenciais ataques terroristas e ameaças de armas químicas e biológicas nas grandes metrópoles sul-coreanas. É provável que a Coréia do Norte assuma tais exercícios como uma ameaça velada de guerra, tendo inclusive ordenado o cancelamento da operação.

Entre 20 a 28 de agosto (ou seja, basicamente nos mesmos dias do UFG), as forças navais chinesas e russas realizaram o Joint Sea-2015 (II), na costa de Vladivostok, na Rússia, passando inclusive pelo mar do Japão. Segundo o porta-voz no Ministério de Defesa da China, Yang Yujun, o exercício militar conjunto visa reforçar a parceria estratégica global entre a China e a Rússia, e aprofundar a cooperação prática entre as forças armadas dos dois países, melhorando sua capacidade de lidar com ameaças à segurança marítima da região (veja aqui).

Ainda que para alguns analistas chineses a “interpretação geopolítica excessiva de um exercício militar específico não seja nem necessária nem justificável”, é difícil desvincular o maior nível de tensão na península coreana de um cenário prospectivo de maior instabilidade regional. É preciso considerar também as consequências que tais ameaças representam a longo prazo no equilíbrio estratégico no Leste asiático. A ameaça representada pela Coréia do Norte à Coréia do Sul poderia levar esta última a participar mais ativamente nos acordos de segurança triangular com os Estados Unidos e o Japão.

Ao longo dos últimos anos os Estados Unidos têm mudado seu foco geopolítico e estratégico em direção à Ásia, o que tem sido chamado de “pivô” ou “rebalanceamento”. Ainda que Washington tente minimizar os efeitos deste redirecionamento, há componentes militares significativos na estratégia. Conceitos como o AirSea Batlle e o Joint Operational Access Concept (JOAC) são, claramente, destinados à contenção da China. Ademais, desde 2011 os EUA anunciam acordos para reforçar a presença militar norte-americana na Austrália. Nesse sentido, as tensões na península coreana poderiam fornecer a rationale estratégica de que os Estados Unidos precisavam para manter quantidades cada vez significantes de sistemas de defesa de mísseis balísticos implantados na região.

Uma quantidade cada vez maior destes sistemas certamente poderia incomodar o Politburo chinês, que veria suas capacidades anti-acesso ameaçadas. Isto porque os mísseis de defesa utilizados para proteger bases norte-americanas e de aliados dos Estados Unidos na região, potencialmente poderiam ser usados contra mísseis chineses num hipotético – ainda que remoto – conflito entre ambos os países, prejudicando as capacidades assimétricas da China (A2/AD).

Por este motivo, e no intuito de resguardar também a estabilidade político-econômica doméstica, o Politburo chinês tem clamado pelo diálogo entre Coréia do Norte e Coréia do Sul de forma veemente: “a China se opõe a qualquer movimento que possa pesar sobre a já frágil situação na península e acredita ser imperativo que os dois lados exercitem moderação e lidem corretamente com a contínua tensão através de engajamento e diálogo.” (veja aqui)

Para além da impossibilidade em se fazer previsões sólidas, o fato é que os pontos de fricção do Leste asiático se tornam cada vez mais delineados, com possíveis implicações para a realidade geopolítica regional e global. Ainda que seja difícil crer num direcionamento das tensões por ambos os países à base de diálogo aberto e entendimento – como sugere a China – conjecturar um conflito direto a curto prazo com o respaldo de Estados Unidos, Japão, China e Rússia seria da mesma forma um equívoco.  Resta aguardar que interesses político-econômicos de primeira ordem se sobreponham ao toma-lá-dá-cá de hostilidades militares presente há muito tempo na península.