Referi-me brevemente em um de meus últimos textos a um estudo da Chatham House do fim de 2017 intitulado «as tribos políticas europeias». Vale a pena aprofundar o assunto. Com efeito, a mensagem principal desse estudo é a seguinte: «Esqueçam os pró-UE e os anti-UE». A realidade retratada pelo inquérito feito a mais de 10.000 europeus em dez países diferentes é muito mais complexa do que a dicotomia ilusória entre os que são a favor e os que são contra a União Europeia (Portugal não está incluído na amostra).

Segundo um método estatístico conhecido, o universo dos inquiridos distribuiu-se à escala europeia entre seis famílias de diferentes dimensões mas permite identificar a forma que tomam em cada país. Por ordem de tamanho decrescente, o eleitorado dos países estudados dividiu-se em: 1.º Europeus hesitantes (36% da amostra); 2.º Europeus satisfeitos (23%); 3.º Os que rejeitam a UE (14%); Pró-europeus frustrados (9%); Rebeldes à austeridade (9%) e Federalistas (8%).

Como era previsível, «estas tribos diferem em termos de características sociais e demográficas, bem como de atitudes em relação a uma extensa variedade de assuntos, incluindo a integração europeia, a imigração e a resposta política da UE». A atitude global perante a União está, portanto, relacionada com os países de origem dos europeus mas, sobretudo, com os seus caracteres sócio-demográficos.

A primeira tribo (36% «hesitantes»), composta pelas pessoas menos mobilizadas politicamente, está preocupada com a questão da imigração e dois-terços dela dá a prioridade à soberania estatal relativamente à UE. A segunda considera-se satisfeita com a situação presente (23% «satisfeitos»); assume-se como pró-europeia, é jovem e socialmente liberal, sentindo-se beneficiada pela UE, mas não é a favor de mais integração. A terceira tribo (14%) rejeita por completo a UE; a maior parte dela é socialmente conservadora e contra a imigração, opondo-se diametralmente aos «federalistas» (8%), os quais são totalmente favoráveis à UE; são mais velhos, mais ricos, mais cosmopolitas, mais abertos à imigração e recrutam-se sobretudo entre os homens. Quanto aos «pró-europeus frustrados» (9%), são a favor de mais integração e apoiam a ideia de os países mais ricos ajudarem os mais pobres, mas estão contra a imigração. Pelo contrário, os «rebeldes contra a austeridade» (9%) opõem-se totalmente a mais integração mas, em contrapartida, partilham a ideia do grupo anterior acerca do apoio dos países ricos aos pobres.

Em suma, tanto na sua composição social como nas suas atitudes perante as políticas europeias, as «tribos» estão longe de se opor diametralmente quanto à pertença à UE. Como é previsível nestas matérias, não só a homogeneidade de cada grupo é limitada como a maior «tribo» é a dos «hesitantes», ao mesmo tempo que as posições mais radicais são raras, como o apoio à transferência de poderes para a União, que mal chega aos 20%, ou seja, a mesma percentagem dos que dizem não ter beneficiado com a União.

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É difícil, portanto, fazer coincidir o europeísmo e o anti-europeísmo de cada «tribo» com a clivagem clássica entre Esquerda e Direita. Assim como há em todos os países «soberanistas» de Direita e de Esquerda, também há em toda a União «europeístas» de Direita e de Esquerda. E se há, por vezes, um cheiro de «guerra civil» entre umas e outras tribos, nomeadamente por parte dos «soberanistas», que cada vez se confundem mais com os chamados «populistas», será muito difícil garantir as alianças necessárias em torno de um único eixo pró ou contra a UE.

Na realidade, os posicionamentos eleitorais perante a UE giram, conjunturalmente, em função da imigração, mas só aqueles que rejeitam a UE e em parte os «hesitantes» são contra; os seus grandes apoiantes são, paradoxalmente, os «federalistas» e os «rebeldes». Paralelamente, os «federalistas» e os «europeístas satisfeitos» consideram a UE «muito democrática», ao contrário de todas as outras tribos.

Estruturalmente, que é aquilo que mais pesará no médio-longo prazo, a oposição pró e contra a União gira em torno da maior ou menor integração europeia e do papel incontornável que a moeda única joga neste processo. Aqui se uniriam, segundo um estudo como este, os «europeístas frustrados» e os «federalistas», bem como uma parte dos «satisfeitos», ficando todavia longe da maioria no seu conjunto.

O realismo mostra não ser por acaso que os governos empenhados em manter a Europa unida continuam a lutar pela consolidação da «moeda única». O «euro» está pois no centro do processo. A resiliência do «euro» supõe regras que, após quase 20 anos, têm de ser cumpridas por todos os aderentes como no caso do seu único rival, o dólar norte-americano. As complexas questões da «moeda única» e os seus correlatos políticos e econômicos têm pouco «charme» ideológico, mas é por aí que passa o eixo das opções que se oferecem às várias «tribos europeias».

Manuel Villaverde Cabral

Cientista social, professor aposentado da Universidade de Lisboa. Investigador Jubilado do Instituto de Ciências Sociais e diretor do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa. Colunista do periódico on-line Observador, de Lisboa.