Como esperado, Vladimir Putin venceu a eleição presidencial russa de 2018 com larga vantagem. O quarto mandato do presidente foi assegurado com cerca de 77% dos votos, percentual maior do que o projetado pelas pesquisas de intenção de voto pré-eleitorais. Putin estenderá seu governo até 2024, tornando-se, desse modo, o mais longevo líder russo desde Leonid Brezhnev, que comandou a União Soviética de 1964 a 1982.

No segundo e terceiro lugares, Putin foi seguido pelos candidatos dos partidos Comunista (KPRF) e Liberal Democrático (LDPR), representantes do que na Rússia se comumente designa como “oposição sistêmica”: grupos que, em troca do acesso a recursos e à exposição pública, moderam suas críticas ao regime e subscrevem, no parlamento, as decisões mais relevantes deste último. O KPRF e o LDPR também convergem ideologicamente com a visão putinista de um Estado forte, centralizado e praticante de uma política externa assertiva frente às potências ocidentais. Pelo KPRF, Pavel Grudinin, substituto do histórico líder do partido Gennady Zyuganov, conquistou 11,8% dos votos, ao passo que Vladimir Zhirinovsky, o histriônico nacionalista chefe do LDPR, obteve 5,7%.

Principal novidade da eleição, Ksenia Sobchak concorreu pelo pequeno Iniciativa Cidadã com uma plataforma marcadamente liberal e ocidentalista para os padrões russos, atingindo ao redor de 1,7% dos votos. Ela foi seguida por Grigory Yavlinsky, veterano liberal lançado pelo partido Yabloko, que conquistou 1%. Boris Titov, do Partido do Crescimento, obteve 0,8% com a agenda de modernização econômica e reformas liberalizantes. Por fim, os dois últimos candidatos foram Maksim Suraykin, do Comunistas da Rússia, e Sergei Baburin, da União Panpopular Russa, nostálgicos do passado socialista e defensores de alguma forma de restauração da URSS (no caso de Baburin, com discurso temperado por um nacionalismo russo de vertente eslavista-civilizacional). Ambos conseguiram cerca de 0,7% dos votos.

A folgada vitória de Putin reflete, primordialmente, sua elevada popularidade, decorrente do sucesso na estabilização política da Rússia, da restauração de seu status de grande potência e da ascensão dos indicadores socioeconômicos do país desde os anos 2000. Além dos característicos constrangimentos ao dissenso e à competição política – simbolizados pela não permissão à candidatura de Aleksei Navalny, seu mais eminente opositor – , também contribuiu para o resultado expressivo de Putin a percepção de estagnação na cena política da Rússia: embora parcela considerável dos russos apoie reformas políticas e econômicas, a ausência de alternativas críveis faz com que muitos atribuam ao presidente reeleito, de forma paradoxal, a capacidade de promover mudanças no país.

Nesse sentido, o pleito de 2018 foi marcado pela apatia, especialmente se comparado ao último, realizado em 2012. Seis anos atrás, o contexto era o da maior onda de contestação a Putin desde que chegou ao poder, consubstanciada nos grandes protestos de rua ocorridos nas maiores cidades russas. O momento era de efervescência nos debates políticos, com críticas e cobranças vindas de diversos grupos e figuras públicas (inclusive aliados de Putin) sobre temas como as fraudes eleitorais, a corrupção e o marasmo do regime governante – este último fator simbolizado pela abstenção de Dmitri Medvedev, tido por muitos como um sincero reformador liberalizante, à reeleição. Em contraste, a campanha de 2018 foi monótona, sem grandes ideias, debates e agitação social significativa – à exceção, talvez, do movimento de boicote capitaneado por Navalny, que não alcançou a adesão desejada por seu mentor.

Nesse contexto, e certamente levando em conta preocupações mais prementes no front externo, como a deterioração nas relações com os EUA e o conflito na Síria, o próprio Putin não se engajou de forma ativa na eleição. Ao contrário de 2012, por exemplo, o presidente não lançou os famosos textos de cunho programático em que expôs seus pensamentos sobre questões domésticas e externas da Rússia. O site da campanha de 2018 nem mesmo apresentou um programa. Putin também não participou dos debates entre os candidatos, atividades que, nas palavras de seu porta-voz Dmitri Peskov, seriam “em essência, sem sentido” no contexto russo.

Levando em conta esse quadro, a importância da vitória está localizada largamente no campo simbólico, a começar pela data da eleição: em 18 de março de 2014, a Crimeia era formalmente anexada pela Rússia, o que certamente foi o maior ato de afirmação da grandeza e da potência do país em sua contestação da ordem internacional dominada pelos EUA no pós-Guerra Fria. Na ausência de uma concorrência realmente séria na própria figura dos candidatos que participaram da eleição, para Putin foi conveniente a vitória simbólica sobre as ideias e os estereótipos que eles representaram. Isso é especialmente válido no caso de Ksenia Sobchak, que recebeu atenção midiática, tanto na Rússia quanto no exterior, desproporcional à fatia do eleitorado conquistada. Vista por figuras públicas e analistas russos como uma marionete do Kremlin, a candidata encarnou, de forma caricatural, bandeiras do minoritário, porém crítico setor liberal russo. Afora os típicos apelos pela democratização da Rússia, Sobchak, em seu programa, enquadrou o país como pertencente à civilização europeia e afirmou que a OTAN não representa uma ameaça à sua segurança. Já a Crimeia foi classificada como território da Ucrânia, e um referendo foi sugerido para definir o status da região anexada pela Rússia. Em turnê pelos EUA, Sobchak defendeu a aproximação da Rússia à União Europeia e à OTAN, e responsabilizou Putin e sua política externa por ressuscitar a Guerra Fria. Ao público norte-americano, desculpou-se, ainda, pela alegada interferência russa nas eleições dos EUA de 2016.

Outra alternativa ideacional a Putin foram as formas de estatismo e nostalgia pelo socialismo, encarnadas, principalmente, por Grudinin e o KPRF. O programa do segundo colocado propôs a ampla estatização da economia russa, bem como a restrição de sua integração aos grandes fluxos comerciais e financeiros internacionais. O tipo de dirigismo econômico defendido na campanha de Grudinin conjugou-se ainda com a agenda de expansão da rede de bem-estar social russa e a retórica de cerceamento do poder dos “oligarcas” na economia e na política do país. O fato de o candidato do KPRF ser diretor de um sovkhoz, isto é, uma grande empresa agrícola de moldes soviéticos, reforçou a ideia de uma espécie de repaginação capitalista da URSS oposta à preferência putinista por uma economia capitalista moderna, competitiva e bem integrada ao circuito econômico mundial (respeitando, é claro, as idiossincrasias institucionais domésticas da Rússia).

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Na campanha, o descrédito simbólico das alternativas a Putin foi atingido de diversas maneiras. Uma delas foi o próprio comportamento dos candidatos nos debates televisivos promovidos pelo principal canal estatal russo, o Rossiya 24. Em certas ocasiões, os concorrentes nem mesmo estiveram presentes, enviando, em seu lugar, representantes de campanha. Os encontros também foram marcados por baixarias, como a discussão que fez Sobchak atirar água em Zhirinovsky, o choro de Sobchak ante a “perseguição” de seus competidores e a quase luta corporal entre Suraykin e o representante de Grudinin. O candidato do KPRF, inclusive, foi atingido por uma polêmica em torno de seu patrimônio não declarado, fato que remete ao tipo de escândalo que se conhece na Rússia como kompromat.

Em conjunto, esses episódios contribuíram para caricaturizar os competidores de Putin como irresponsáveis, incoerentes, fracos e instáveis – incapazes, em outras palavras, de atingir o nível do presidente. Cultivou-se assim, o slogan de campanha de Putin: “presidente forte-Rússia forte”, que denota a imagem de superioridade e indispensabilidade do presidente, idealizado como único personagem capaz de manter a ordem e a estabilidade políticas na Rússia e conduzi-la ao desenvolvimento socioeconômico em condições de permanente cerco externo. Mesmo formalmente excluído das eleições, Navalny também não passou incólume a essa narrativa: por sua mobilização de protestos e a acidez de suas críticas, o opositor mais vocal de Putin foi associado pelo presidente reeleito à desordem e ao caos, razão pela qual foi comparado a Mikheil Saakashvili, o aventureiro político pró-ocidental da Geórgia que estabeleceu na Ucrânia o terreno para sua cruzada revolucionária supostamente democratizante.

Para a narrativa putinista, a vitória expressiva veio a confirmar a indiscutível superioridade de seu modelo ante qualquer concepção alternativa sobre a organização política, o modelo de desenvolvimento socioeconômico e o lugar da Rússia na política internacional. Especialmente útil, nesse sentido, é o resultado de Sobchak. O momento de confrontação com os EUA e as potências ocidentais tem repercutido internamente na consolidação de uma identidade que acentua a singularidade civilizacional e a resiliência do status de grande potência da Rússia frente àqueles Estados. O baixo percentual de Sobchak demonstra, aos olhos de Putin, seus aliados e seus partidários, a baixa legitimidade e ressonância entre os russos de um programa liberal equacionado à capitulação frente ao Ocidente.

Por fim, um último aspecto que completa o peso simbólico da vitória relaciona-se à faceta legalista de Putin. Tanto em assuntos domésticos como em política externa, o presidente russo preza por amparar seu poder e suas decisões em procedimentos e fundamentos legais que lhe confiram legitimidade e fortaleçam o discurso de um ator ordeiro e responsável. Assim os governos de Putin (incluindo o período em que foi primeiro-ministro do ex-presidente Medvedev, de 2008 a 2012) conduziram e justificaram acontecimentos como as mudanças constitucionais que expandiram o mandato presidencial, bem como o envolvimento militar russo na Geórgia (2008), na Ucrânia (2014) e na Síria (2015). Nesse sentido, o cumprimento do ritual eleitoral em 2018 traz mais credenciais à narrativa de legitimidade de Putin.

Garantida a vitória, Putin terá que lidar, nos próximos seis anos, com muitas das tensões e contradições que caracterizam o modelo político e de desenvolvimento que construiu ao longo das duas últimas décadas. O presidente fez a alusão esses fatores no já célebre discurso à Assembleia Federal, o congresso russo, no início de março. A fala, considerada por analistas como equivalente ao programa eleitoral de Putin, recebeu grande atenção midiática nos países ocidentais, que enxergaram exagerado tom belicista no trecho concernente aos assuntos de segurança e defesa. Contudo, o discurso também foi, em grande medida, destinado aos problemas domésticos da Rússia. Mesmo reconhecendo o potencial militar do país e sua relevante posição na hierarquia de poder mundial, Putin alertou para o atraso tecnológico e socioeconômico como fatores de risco para a sobrevivência e a autonomia do Estado russo no futuro. O presidente falou, nesse sentido, de diversas medidas por meio das quais pretende superar tais problemas.

A junção dos dois eixos no discurso de Putin não foi acidental: ela expressa o histórico nexo entre desenvolvimento e segurança que tem orientado os líderes russos desde o amadurecimento do status de grande potência do país em séculos passados. Historicamente tendo enfrentado um ambiente externo hostil em várias direções, os líderes russos associaram o desenvolvimento político e econômico à capacidade de se defender e resguardar a soberania do país. Ao longo da história, as tentativas mais bem sucedidas de atingir tais objetivos se deram sob Estado forte e de autoridade centralizada, com o poder concentrado nas mãos de uma pequena elite cuja coesão dependeu, em grande medida, de relações patrimonialistas e clientelistas que permearam o sistema político russo de tensões.

Esses dilemas históricos se manifestam também na era Putin. Não obstante a ascensão econômica associada ao modelo de maior condução estratégica do Estado, a economia russa permanece relativamente pouco competitiva e dependente do setor energético em comparação com as economias capitalistas mais avançadas. Já a estabilização política, embora tenha sido proporcionada em grande medida pela centralização do poder em Moscou, também repousa em arranjos de poder informais que atenuam o alcance da autoridade federal em regiões historicamente conturbadas como a Chechênia. Além desses fatores, a ambiguidade legal, a corrupção e o faccionalismo característicos do modelo putinista mostram-se como potenciais obstáculos para a ação estratégica do Estado e constituem fonte de descontentamento social. Nesse complicado quadro, os próximos seis anos proverão mais uma oportunidade – talvez, a derradeira – para Putin mostrar se de fato tem a intenção, a disposição e a capacidade para mitigar as tensões históricas do desenvolvimento da Rússia e de sua inserção na política internacional.

Gustavo Oliveira Teles de Menezes

Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp/Unicamp/PUC-SP).