Enquanto o primeiro-ministro de Portugal se congratula com aquilo que, felizmente, não aconteceu mas podia ter sucedido em Monchique, pois a reforma florestal ainda nem começou, a desordem internacional prossegue no seu pior sentido desde o acesso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Sinais já havia como se viu com o referendo sobre o «Brexit», poucos meses antes da eleição de Trump, abrindo uma brecha impossível de remediar no gigantesco processo de globalização iniciado há exatamente 47 anos, quando os EUA puseram termo aos acordos de Bretton Woods e depois Nixon foi à China. Entretanto, entre outros acontecimentos decisivos para o processo, em 1989 caiu o muro de Berlim e a seguir implodiu o império soviético.

Segundo a literatura sobre a erosão do processo de globalização, apesar de a desigualdade económica ter diminuído à escala mundial, o seu factor principal deve-se à cisão sócio-cultural que se criou nos países mais desenvolvidos entre os grupos «ganhadores» e os «perdedores» da globalização. Foi tipicamente o caso do referendo do «Brexit», com uma margem mínima de «perdedores» a impor aos «ganhadores» a saída da UE. Menos de 6 meses depois, a eleição presidencial norte-americana deu inesperadamente o poder a Donald Trump. Com menos votos populares mas mais «votos preferenciais» do que a adversária, Trump foi eleito e, para surpresa de muitos, vem prosseguindo sistematicamente o desmantelamento da globalização, rasgando os acordos de comércio internacional assim como o acordo de Paris sobre as alterações climáticas.

Caprichosamente, lê-se hoje que o PCP – um dos parceiros do atual governo português – subscreve o mesmo tipo de soberanismo com que Trump ganhou as eleições e desencadeou o combate à globalização, ao atribuir «a responsabilidade de “iminente ruptura” do sector ferroviário às regras impostas por Bruxelas». A culpa é sempre do estrangeiro e é sintomática a forma pretensamente patriótica como o soberanismo da «esquerda» se confunde com o da «direita».

Ora bem, eis-nos de volta à atualidade acelerada que o processo da «desglobalização» está a tomar com Trump e quem o apoia. Abriu-se, com efeito, uma briga de morte entre dois países até há pouco aliados quando o proteccionismo comercial norte-americano atacou a Turquia e levou a moeda a uma queda brusca e possivelmente fatal. Com o seu ataque comercial, Trump não parece estar a fazer política. Contudo, a destruição do modelo econômico turco opera resultados que a política nunca conseguiria obter. É por isso que a crise da Turquia já irradia múltiplas consequências para as economias mais frágeis e para a geo-política do Médio Oriente. Um ponto minúsculo mas significativo dos efeitos das taxas anti-dumping norte-americanas é o anúncio de hoje, segundo o qual esse aumento provocou a «fuga de investidores» de um dos maiores exportadores portugueses, a Navigator, que perdeu ontem mais de 18% na bolsa.

Leia mais:  1968: um Maio que valeu por toda uma história

É a nova economia política em ação! Repare-se que o conflito pouco tem aparentemente de ideológico: tratar-se-ia de meros interesses comerciais. Como é de calcular, não tenho qualquer simpatia pelo regime de Erdogan. Com efeito, sejam quais forem as críticas que se podem fazer hoje à Turquia oriunda do antigo regime laico de Mustafá Kemal Atatürk, já a atual islamização da sociedade turca promovida desde o fim do século passado pelo partido de Erdogan bem como a instauração de um regime ditatorial e repressivo impediram o país, felizmente, de entrar na UE. Ao mesmo tempo, a Turquia mantinha até agora relações muito próximas com os EUA e com a NATO, o que nos deixa perplexos quanto aos instáveis equilíbrios geo-políticos ainda em vigor, para não falar do «contrato financeiro» da UE com a Turquia para esta deter os «refugiados» do Médio Oriente que pretendem emigrar para a Europa!

Sob a aparente ausência de ideologia, salvo o alegado patriotismo da defesa económica de cada país, partilhada desde o PCP até Trump, passando pelos demais soberanistas, este mero golpe contra a economia turca contém em si não só riscos económicos iminentes como também ameaças em inúmeras frentes não-económicas. Nomeadamente, esta crise em marcha põe potencialmente em causa as frentes geo-políticas vigentes até aqui, o que se arrisca a conduzir a uma guerra de todos contra todos na qual, obviamente, os países mais fracos serão os que mais perderão.

A força de cada país reside no tamanho e na estrutura do PIB. Portugal não estará certamente entre os mais fortes, nem pela dimensão nem sobretudo pela estrutura estatista de uma economia mais virada para dentro do que para fora. A imprensa já diz que o FMI está ultrapassado pelos acontecimentos e os estudos especializados já identificaram os países que poderão vir a estar na linha de mira dos especuladores: um deles é o Brasil em plena eleição presidencial. A nossa única defesa é a União Europeia.


Publicado em Observador, 14 Agosto 2018.

Cientista social, professor aposentado da Universidade de Lisboa. Investigador Jubilado do Instituto de Ciências Sociais e diretor do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa. Colunista do periódico on-line Observador, de Lisboa.