É curioso que a derrota dos partidos da esquerda parlamentar nas eleições italianas tenha causado mais desconforto aos «media» do que o acesso ao poder dessa mesma esquerda em Portugal, para não falar da sobrevivência do Syriza após dez anos de crise na Grécia. Na realidade, o problema é sobretudo da oligarquia internacional que tem dominado a cultura política europeia. A «culpa» não é da Itália nem do seu legado fascista, que é mais curto e mais remoto do que em Espanha e Portugal, para nada dizer do legado comunista dos países do antigo bloco soviético que aderiram à UE.

Por mais que os resultados eleitorais de domingo passado tenham contrariado o mainstream mediático europeu, a verdade é que a fragmentação do sistema partidário italiano provém da longínqua operação dos magistrados contra a corrupção, conhecida como «Mãos Limpas», que corroeu as bases europeístas do anterior sistema partidário. Basta lembrar que a «primeira república» italiana terminou em 1992 com a fuga de Bettino Craxi, líder do partido socialista e antigo primeiro-ministro, a qual desembocou nos dez anos de governação de Berlusconi, que por sua vez terminou do modo lamentável que se sabe. Nas sete décadas de democracia, a Itália teve 64 governos!

E se é exato que a cultura política italiana é marcada pelo «qualunquismo», que pode traduzir-se por um «deixa andar», os resultados de domingo passado continuam a reproduzir o contraste permanente entre o Norte e o Sul, agora sob a forma de diferentes «populismos»: a norte de Nápoles domina a coligação de centro-direita (37%), que vai do eterno Berlusconi à extrema-direita da «Lega», e a sul domina o «Movimento das 5 Estrelas» (32%), que é o partido mais votado, embora longe da maioria; a coligação de centro-esquerda teve apenas 23%.

A divisão entre o Norte «rico» e o Sul «pobre» mantém-se pois, distribuindo-se os votos entre diversos «populismos» soberanistas separados, contudo, pelos motivos da revolta anti-partidária: os primeiros contra os «imigrantes» que procuram refúgio em Itália e os segundos contra o empobrecimento crescente e a dependência política do «Mezzogiorno». Ambos são anti-europeístas mas com modalidades e graus distintos de oposição às políticas europeias, o que não favorece qualquer aliança para formar governo.

Uma alternativa inesperada mas logo publicitada pelo Financial Times, seria a proposta do «Cinco Estrelas» ao Partido Democrático (PD) no sentido de formarem uma aliança governamental maioritária. Matteo Renzi, líder do PD ainda no poder, apressou-se a recusar a proposta, o que abriu brechas imediatas no «centro-esquerda. Um tal governo comum parece irrealizável mas há quem conceba uma espécie de «geringonça» em que o PD viabilizaria um governo do «5 Estrelas», apoiando a sua investidura bem como algumas políticas sociais.

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Ora, por inimaginável que a ideia fosse antes das eleições, como aliás aconteceu com a formação da «geringonça» portuguesa que viabilizou o acesso do PS ao poder sem ter ganho as eleições, um governo do «5 Estrelas» com o apoio daquilo de sobra da esquerda italiana histórica poderia ser um princípio de solução para o facto de a maioria dos partidos de índole social-democrata e cristã-democrata do pós-guerra estarem a desaparecer ou, como se diz na retórica de Gramsci, a perder a «hegemonia político-cultural» em favor da «hegemonia eleitoral» dos populismos…

Como se tem visto na Grécia, a força material da União Europeia continua a ser suficiente para limar e absorver os movimentos centrífugos da esquerda populista. Concretamente, na Itália o peso da moeda única prevalecerá sobre os ímpetos soberanistas, sobretudo depois do sarilho em que o Brexit meteu a «orgulhosa Albion». Neste sentido, a ideia de uma desmontagem do «euro» com que sonham todos os soberanistas é altamente improvável. Pelo contrário, a política europeia será obrigatoriamente a de consolidar a união monetária, forçando se necessário os países incapazes de fazer as reformas necessárias a sair do «euro» e a desaparecer na voragem da globalização!

Na verdade, tanto os europeísmos como os anti-europeísmos estão longe de ser monolíticos. Dividem-se em «famílias» como as identificadas pelo Politico, variando de um polo de rejeição (14% dos Europeus) ao polo oposto do «federalismo» (8%) e passando pelos grupos de «europeístas hesitantes» (36%) e de «satisfeitos» (23%), acompanhados pelos «pró-europeus frustrados» e pelos «revoltados com a “austeridade” (9% cada).

O que isto quer dizer é que, se a hegemonia partidária «centrista» da maioria dos países da UE se está a esvair, já o conjunto dos Europeus está longe de rejeitar maciçamente a União, como provam os 40% de «satisfeitos», «federalistas» e os que são a favor do «aprofundamento», perante cuja efetiva hegemonia o grosso dos 36% de «hesitantes» tenderá a inclinar-se. [Artigo publicado no diário online “Observador”, de Lisboa, 9/3/2018]

Cientista social, professor aposentado da Universidade de Lisboa. Investigador Jubilado do Instituto de Ciências Sociais e diretor do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa. Colunista do periódico on-line Observador, de Lisboa.