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Para além de muros e fronteiras vigiadas


A proposta de Donald Trump de completar a construção do muro na fronteira com o México caminha no sentido oposto ao atual nível de interdependência entre os dois países. Há, contudo, muita incerteza. Discute-se acerca da viabilidade da construção, tanto devido à dificuldade geográfica local, como pela necessária aprovação do Congresso estadunidense do orçamento para a obra. Ademais, a fronteira é o principal ambiente em que se expressa o atual nível de associação econômica e social entre México e EUA, apresentando uma dinâmica própria.

A fronteira está viva. Ela é o palco de trocas comerciais, passagem de trabalhadores e imigrantes de toda a América Latina e de vários tipos de produtos e serviços. Seja qual for a orientação ideológica do presidente do México ou dos Estados Unidos, fechá-la ou restringi-la é um processo de grande complexidade, que pode gerar efeitos negativos imediatos para os dois países, ainda mais para as cidades e estados vizinhos. De acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, o comércio diário na fronteira chega a 1,4 bilhão de dólares. No caso do estado do Texas, o México é o principal destino dos produtos exportados, com 4,6 vezes mais do que o comercializado com o Canadá. Com isso, 39% do que é exportado por este estado vão para o país vizinho. O México também é o Estado que mais recebe exportações da Califórnia, representando 15,4% do total.

Muito além das trocas comerciais, a fronteira também reflete a conexão social entre México e Estados Unidos. Desde 2007, observa-se uma significativa diminuição de mexicanos que migram para os EUA, sendo o México hoje, em termos genéricos, um país de passagem para imigrantes provenientes do Triângulo Norte – Honduras, El Salvador e Guatemala.

Nesse sentido, alguns dados são interessantes. Dos migrantes que possuem intenção de entrar nos Estados Unidos, e não apenas permanecerem na fronteira norte do México, mais de 73% nunca estiveram nos EUA antes. De acordo com “Encuestas sobre migración en las fronteras Norte y Sur de México”, de 2015, mais de 56% dos imigrantes cruzam com documentos. É preocupante, contudo, quando mais de 95% dos migrantes afirmam conhecer o serviço consular mexicano, mas apenas 20% dos repatriados estiveram sujeitos à proteção. Isso significa que apesar das dezenas de consulados do México instalados nos EUA, o serviço ainda é deficitário, não chegando a atender número amplo de repatriados. Nos últimos meses, com as propostas de Donald Trump de endurecer a política migratória dos EUA, o governo do México vem lançando políticas de reforço aos mexicanos residentes no país.

Quase 30% dos migrantes que passam para os Estados Unidos possuem de 20 a 29 anos, sendo que, do total, 28% possuem escolaridade até a secundária, completa ou incompleta. Já nos Estados Unidos, mais de 35% dos migrantes trabalham no setor agropecuário, seguido pelo de serviços e comércio. É interessante notar que o setor manufatureiro é o menos representativo no caso dos residentes nos EUA. Já nos que têm como destino a fronteira norte, o setor manufatureiro corresponde a quase 13%, o que sinaliza para o baixo dinamismo das maquiladoras em gerarem postos de trabalho no Norte do México e mais ainda nos estados do sul dos EUA. A pesquisa aponta mudanças significativas nos fluxos de migrantes, com destaque para o aumento do nível da escolaridade e da faixa etária.

E quais os principais motivos apontados para migrarem para os Estados Unidos? Segundo a mesma pesquisa, o principal motivo que levam cidadãos a cruzarem a fronteira é a reunião com familiares ou passeio (31,3%), seguido pela busca por trabalho (30,8%) e trabalhar (21%). Isso é importante porque desmistifica o discurso de Trump quando ele afirma que os mexicanos estariam “roubando postos de trabalho dos estadunidenses”. O fato de grande parte dos migrantes possuírem documentos, não irem por motivos de trabalho e empregarem-se no setor agrário mostra como eles complementam a força de trabalho nos EUA, sendo um importante motor do desenvolvimento daquele país. Por outra parte, mostra como empresas estadunidenses dependem da força de trabalho mexicana, revelando uma relação de forte interdependência entre os dois países.

Tais dados desmistificam também a afirmação de Trump, durante a campanha, acerca do caráter das pessoas que cruzam a fronteira. É inegável que este espaço é securitizado, já que também é palco para o tráfico de drogas e de armas. Mas ele é muito mais do que isso. Apresenta forte componente humanitário e de sociedades com altos níveis de vinculação, econômica ou social. Assim como muitos cruzam em busca de maior estabilidade e uma permanência mais longa, a fronteira é também o caminho para quem trabalha do outro lado e regressa todos os dias para casa. Nesse sentido, ela reflete o dinamismo da relação bilateral entre os dois países.

O estado mais procurado pelos imigrantes nos Estados Unidos é a Califórnia, seguido pelo Texas e pelo Arizona. Mesmo em momentos em que a fronteira esteve mais fechada, como no pós atentados de 2001, ela continuou sendo uma instância importante da relação bilateral México-EUA. Nestes momentos, ela adaptou-se às novas circunstâncias e continuou sendo palco de trocas diversas. Apesar das novas mudanças nos fluxos migratórios, a sua intensidade nas últimas décadas mudou o perfil dos Estados Unidos. De acordo com o Migration Policy Institute, 13,5% dos residentes nos EUA são nascidos estrangeiros, enquanto em 1990 essa taxa era de 7,9%. Ademais, 53% dos estrangeiros são provenientes das Américas, sendo 26,9% só de mexicanos. Dos nascidos estrangeiros, 47,8% são naturalizados cidadãos estadunidenses.

Um último elemento interessante da relação bilateral entre México e EUA são as remessas enviadas por mexicanos residentes nos EUA. Segundo dados do Banco do México, no mês de fevereiro de 2017, chegaram no México mais de 2 bilhões de dólares, dinheiro enviado em sua quase totalidade por transferências eletrônicas em mais de 6 bilhões e 700 milhões de operações. Os números impressionam. Em 2016, a quantidade de remessas que chegaram no México atingiu seu máximo histórico, chegando a mais de 26 bilhões de dólares.

Os dados refletem o atual nível de interdependência entre México e Estados Unidos. Desde antes da assinatura do TLCAN, são países que compartilham intensos fluxos econômicos e sociais, o que somado ao fato de compartilharem fronteira, atribui um caráter muito particular à relação bilateral. O México não é, portanto, um parceiro comum dos EUA. Grande parte dos vínculos estabelecidos, apesar de serem afetados pelos desdobramentos políticos, possuem uma dinâmica própria e altamente complexa. Os números mostram que os EUA também serão afetados pelos desdobramentos da renegociação do TLCAN, ainda mais as cidades que estão na fronteira com o México. Ter clareza de que a dependência é mutua, ainda que assimétrica, é uma grande carta que a diplomacia mexicana deve usar nas negociações.

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Marcela Franzoni

sobre Marcela Franzoni

Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e mestranda no Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP). Atualmente, pesquisa a diplomacia econômica mexicana e as suas relações com os Estados Unidos e a América Latina.

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