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A Política de Defesa de Trump: o que há de novo?


Em anúncio recente, Donald Trump apresentou as linhas gerais do plano orçamentário de 2018, que será encaminhada ao Congresso estadunidense em maio, e que chamou atenção pela intenção de elevar em 54 bilhões de dólares o orçamento de Defesa, com um corte equivalente em programas ligados à ciência, educação e energias renováveis. A declaração vai ao encontro de declarações anteriores, favoráveis a aumentos quantitativos nos gastos militares e no efetivo das Forças Armadas. Isso, contudo, é basicamente o que se sabe sobre o planejamento estratégico de defesa do novo governo até agora. Nesse ponto, Trump não se diferencia muito da sua rival democrata ou de seus antecessores de ambos os partidos: inexiste, há alguns anos, um debate sério acerca da grande estratégia dos Estados Unidos. E o resultado disso tem sido não apenas a proliferação de intervenções externas de pequeno porte e o aumento da presença internacional das Forças Armadas norte-americanas, como também o aumento sistemático e progressivo do orçamento do Pentágono.

Os gastos em defesa previstos para 2017, legado do governo Obama, já se situam em torno da marca de 600 bilhões de dólares anuais. Esse, aliás, mesmo levando a cabo uma redução da presença estadunidense no Iraque e no Afeganistão, manteve os gastos de defesa em um patamar maior do que os do governo Bush, que foi o responsável pelo início das duas conflagrações. Quais as causas para a aparente ausência de direcionamento estratégico da maior potência mundial e do tamanho do orçamento de defesa atual? A resposta para ambas as questões pode ser encontrada em dois processos correlatos e concomitantes. O primeiro consiste na porosidade do Estado americano ao poderoso lobby do Complexo Militar-Industrial, ao passo que o segundo diz respeito a um conjunto de transformações estruturais profundas pelas quais passaram as Forças Armadas dos Estados Unidos desde o final da Guerra do Vietnã.

O que se argumenta aqui é que o centro de todos os esforços de modernização militar em curso nos Estados Unidos desde o final da Guerra do Vietnã esteve focado em reduzir a dependência de grandes números de unidades em solo. Ou seja, objetivou-se, de maneira deliberada, despender cada vez menos “mão-de-obra” formada por cidadãos norte-americanos. Esse processo se iniciou com o fim do recrutamento militar obrigatório após a Guerra do Vietnã, se aprofundou com a Revolução Tecnológica e a mudança doutrinária levada a cabo nos anos 1990, e ainda está em curso com o uso intensivo de forças mercenárias e sistemas de armas autômatos. Tais transformações possibilitaram o uso do intervencionismo como ferramenta corrente, e não como último recurso da diplomacia, tornando a guerra constante em algo politicamente sustentável. Essa maior aquiescência social, decorrente do distanciamento da maior parte da população da realidade da guerra, resultou em um maior poder de influência do aparato militar-industrial em Washington.

Como ocorreu esse processo?

Historicamente, nos Estados Unidos, o núcleo de seu poderio militar repousou na mobilização de sua capacidade industrial, financeira e humana – esta última garantida pelo recrutamento militar obrigatório – para efetuar grandes operações convencionais e derrotar o inimigo em uma guerra de atrito. Contudo, como argumentado pelo historiador William Mcneill, esta capacidade de “uma sociedade tecnicamente proficiente para exercer uma força esmagadora sobre seus inimigos depende, no fim das contas, de um acordo anterior sobre os fins para o qual a habilidade e o esforço coletivos deveriam ser dirigidos” [McNeil, 1982, p. 375]. Esse acordo se assentava, em grande medida, sobre um amplo pacto social formado em torno das redes públicas de assistência criadas no New Deal e expandidas pelos governos do pós-guerra, em muito como uma “recompensa” à sociedade pela prestação do serviço militar dos soldados conscritos e pelo trabalho dos trabalhadores civis.

A Guerra do Vietnã levou a um tensionamento desse pacto em razão do alto número de vidas perdidas em uma guerra sem resultados conclusivos e com pouca importância aos olhos do público. O clima de antimilitarismo predominante levou à extinção do serviço militar obrigatório, ainda em 1973. Como os custos humanos foram a principal causa da derrota na guerra, os esforços de modernização militar dos anos seguintes buscaram diminuir a dependência do componente humano e aumentar ainda mais a intensidade tecnológica. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento militar, centrais para a Terceira Revolução Industrial, foram essenciais nesse processo. A motivação inicial, em meados dos anos 1970, fora a de aplicar alta tecnologia como multiplicador de poder de fogo das forças da OTAN em um possível confronto com a União Soviética na frente ocidental, na Europa. Posteriormente, a vitória da Guerra do Golfo incentivou as lideranças militares e civis a aprofundarem o processo de reformas. Disseminou-se a percepção de que a vitória estrondosa contra o Iraque se devia em muito às novas capacidades centradas na rede, em tecnologias de informação e na utilização de sistemas de guiagem de precisão.

Assim, buscou-se, ao longo das décadas seguintes, ampliar o controle operacional de modo a vencer com o uso mínimo de apoio terrestre. Embora as campanhas do Iraque e do Afeganistão, na década de 2000, tenham sido marcadas pelo uso mais intenso de “boots on the ground” do que as campanhas de intervenção por bombardeio aéreo dos anos 1990, o governo Obama representou um retorno renovado à abordagem de lighter footprint. Buscou-se reduzir ao máximo as baixas norte-americanas, de modo a evitar contratempos com a opinião pública, levando à proliferação de guerras não-declaradas em regiões do Oriente Médio, Ásia Central e África, com o uso intensivo de VANTs, forças privadas de segurança (mercenários) e de pequenos contingentes das Forças de Operações Especiais, que atuaram de várias maneiras em 138 países diferentes somente em 2016. O panorama geral foi de uma perda quase completa de accountability da política de defesa e segurança nacional, uma vez que a maior parte destas intervenções foi feita frequentemente sem o conhecimento público.

A construção de uma doutrina militar com esse caráter levou à dependência intensiva de sistemas em rede e de alta tecnologia. Esse processo levou a uma inversão da racionalização estratégica, colocando os meios na frente dos fins, e levando à perda de seletividade e discricionariedade do intervencionismo. Contudo, a lógica de inversão de meios e de fins no planejamento de defesa é uma consequência, e não a causa do problema. O que por vezes é retratado como a ausência de definição de grande estratégia é, na verdade, o retrato de um aumento considerável da influência do empresariado ligado ao Complexo Militar-Industrial na determinação de travar novas guerras e intervenções, bem como do engessamento de parte da burocracia e da influência de determinados think-tanks na própria definição dos termos do debate sobre defesa e segurança. São os interesses destes setores, ligados ao planejamento de defesa por uma complexa teia de relações de dependência e lobby organizado, que invertem o planejamento estratégico, submetendo este às aquisições de novos equipamentos e desenvolvimento de novas tecnologias. É isso que faz com que mesmo as questões mais fundamentais acerca do curso das guerras futuras e do remodelamento da estrutura de força sejam enfrentadas a partir de preocupações táticas ou mesmo tecnológicas, e não estratégicas, de longo prazo.

A campanha de Trump, no que se refere à discussão de política de defesa, adotou um tom duramente crítico à política do último governo e foi marcada por duas ideias gerais: a de que os Estados Unidos deveriam reduzir o número de intervenções e engajamentos militares ao redor do mundo, e elevar numericamente os contingentes e sistemas de armas. A ênfase dada a este segundo ponto, tanto no discurso quanto na prática, demonstra a permeabilidade de sua equipe de assessores ao lobby do Complexo Militar-Industrial, sendo, portanto, mais um elemento  de continuidade do que de ruptura com os governos anteriores.

Apesar da retórica anti-intervencionista, a ordem de realizar uma missão de alto risco com Forças Especiais no Iêmen e os cortes de gastos do Departamento de Estado na área de ajuda externa levam a crer o contrário. Embora seja cedo para fazer afirmações categóricas, os indicadores atuais sugerem que uma possível Doutrina Trump será lembrada pela continuidade e aprofundamento da militarização da política externa e da grande estratégia dos Estados Unidos.

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João Arthur Silva Reis

sobre João Arthur Silva Reis

Mestrando do Programa de Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PEPI/UFRJ) e bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trabalha nas áreas de Segurança Internacional, Forças Armadas, Estados Unidos, Inserção Internacional da China, Economia Política e Desenvolvimento.

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