Dos países latino-americanos que estabeleceram relações diplomáticas com a União Soviética durante ou no fim da Segunda Guerra Mundial, apenas Argentina, Uruguai e México não romperam esse compromisso nos anos subsequentes. Brasil, Chile e Colômbia suspenderam o diálogo com os russos poucos anos depois; já Venezuela e Cuba tomaram o mesmo rumo no início da década de 1950.

Com a revolução cubana em 1959, os líderes soviéticos perceberam uma grande oportunidade de projeção de poder na região, e as relações diplomáticas foram, evidentemente, reestabelecidas. Em novembro de 1961 foi a vez do Brasil, e em 1964, do Chile.

O processo brasileiro é, em geral, encarado pela historiografia doméstica que trata da política externa brasileira como parte de um momento de afirmação de nossa tão almejada autonomia nos assuntos internacionais iniciada ainda no governo Quadros e que se prolongaria, ou acentuar-se-ia, durante o governo Goulart.

Deve-se levar em conta, no entanto, os interesses soviéticos nessa reaproximação, bem como mudanças no âmbito doméstico da superpotência comunista que influenciaram uma mudança importante em sua política externa após a morte de Stalin em março de 1953. De acordo com documento encontrado no Arquivo Histórico do Ministério das Relações Exteriores em Brasília, já no ano seguinte, antes mesmo da trágica morte de Vargas, a cúpula soviética convidava o governo brasileiro a montar uma comitiva para visitar a URSS.

Em Soviet Internationalism after Stalin (2015), Tobias Rupprecht mostra que o reatamento entre Brasil e União Soviética foi precedido por uma intensa diplomacia cultural e até certo galanteio da superpotência comunista em relação ao Brasil. Na segunda metade da década de 1950, grupos de parlamentares e jornalistas dos dois países trocavam cortesias e visitas oficiais. Nesse período, além das previsíveis visitas de alguns intelectuais comunistas brasileiros ilustres, a União Soviética começava a seduzir e despertar a curiosidade de formadores de opinião brasileiros sem vínculos claros com organizações político-partidárias.

Naquela oportunidade, o país euroasiático era a potência em ascensão. As conquistas espaciais com o lançamento do Sputnik, em 1957, e com a viagem de Iuri Gagarin, quatro anos depois, propagandeavam os êxitos do regime comunista mundo afora. Além disso, os soviéticos já tinham entrado para o clube nuclear pouco tempo depois dos norte-americanos, em 1949. Com a morte de Stalin em 1953, e o famoso discurso em tom autocrítico do novo líder, Nikita Khrushchev, três anos mais tarde, o regime comunista aparentava estar revigorado e sendo capaz de adotar as reformas necessárias para manter o país numa trajetória ascendente de projeção internacional. Mais do que isso, parte significativa da elite soviética acreditava, apesar de alguns percalços, que dentro de uma geração o socialismo substituiria o capitalismo como principal sistema político-econômico global.

Os feitos científicos e tecnológicos da nova superpotência eram inquestionáveis até mesmo para líderes políticos brasileiros severamente anticomunistas como Jânio Quadros e Carlos Lacerda; há diversos registros de ambos reconhecendo os avanços soviéticos nesses campos. Quadros, inclusive, visitou a URSS por duas vezes antes de ter sido eleito presidente.

Missões comerciais brasileiras a Moscou tiveram início ainda no governo Kubitschek e se intensificaram durante as administrações Quadros e Goulart. Visando o incremento do comércio com a URSS e com os países de sua esfera de influência, o presidente trabalhista criou a Comissão de Comércio com a Europa Oriental (Coleste) em 1962. Neste mesmo ano, a União Soviética patrocinou sua maior exposição comercial e industrial num país estrangeiro, no Rio de Janeiro. O comércio bilateral cresceu de forma significativa, mas ainda respondia por uma parcela muito pequena do total das trocas brasileiras.

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Como observou Fernand Braudel, pelos mesmos caminhos que circulam mercadorias circulam homens e ideias. Essa máxima poderia ser usada para justificar a retórica anticomunista que tomava conta de diversos países no mundo desde o final dos anos 1950 até meados da década seguinte. É bom lembrar que ela foi utilizada inclusive para justificar a intervenção civil-militar de 1964 no Brasil.

Entretanto, houve mudanças conjunturais importantes desde o temor despertado pelo reatamento com a URSS em alguns círculos políticos brasileiros influentes até meados de 1964. Em nenhum momento após a tomada de poder pelos militares no país – pelo o que se sabe até agora – foi cogitado o rompimento das relações diplomáticas com a União Soviética. Há dois fatores importantes que devem ser levados em conta aqui: o processo de cisma sino-soviético e a Crise dos Mísseis em Cuba, em outubro de 1962. O primeiro foi um fator externo importante para o fracionamento das esquerdas no início da década de 1960. Já o segundo levou a cúpula do poder soviético a uma maior ponderação sobre sua atuação na região; afinal, em pouco tempo percebeu-se que a manutenção do parceiro caribenho era dispendiosa, e por vezes, conflituosa. Em suma, à época do golpe civil-militar de 1964, a URSS parecia-se mais com uma superpotência que buscava a manutenção do status quo do que com um país com a pretensão de desempenhar o papel de berço de um movimento comunista com ambições globais.

Ademais, já no ano seguinte, o civil mais influente do governo Castello Branco, o ministro do Planejamento, Roberto Campos, visita a URSS procurando incrementar as trocas bilaterais e pondo em funcionamento pela primeira vez uma Comissão Mista Bilateral. Nos anos seguintes, as trocas entre os dois países tiveram incremento significativo, e o Brasil se tornou o principal parceiro comercial latino-americano da União Soviética em 1971 – excetuando-se Cuba.

No âmbito regional, uma nova rodada de aproximação entre a URSS e governos latino-americanos se concretizava entre 1968 e 1970. Foram estabelecidas relações diplomáticas plenas com Costa Rica, Guiana, Equador, Peru e Bolívia. Além dos reatamentos com Venezuela e Colômbia.

Conforme Hal Brands sintetiza em Latin America’s Cold War (2012), para os ditadores anticomunistas latino-americanos, no início dos anos 1970, a imagem da URSS havia se transformado de “potência agressiva revolucionária” em “parceiro comercial responsável”. Adicionalmente, a consolidação das relações poderia servir como um “contrapeso útil” ao domínio norte-americano na região.

No tocante especificamente às relações Brasil-URSS, ao longo da década de 1970 alguns projetos de infraestrutura feitos de maneira conjunta na África se concretizaram, e perspectivas ainda mais promissoras para o adensamento das relações se mostravam críveis no final da década de 1970. No entanto, grandes dificuldades domésticas e da conjuntura internacional – principalmente para o Brasil – no início do decênio seguinte praticamente inviabilizaram planos conjuntos mais substantivos. O exame sobre como esses diferentes fatores se relacionam é uma questão que ainda merece  análise mais minuciosa e detida.


Gianfranco Caterina é doutorando no Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais do CPDOC/FGV no Rio de Janeiro. Sua tese, sob a orientação do Prof. Alexandre Moreli, abordará as relações entre o Brasil e a União Soviética desde os últimos anos da década de 1950 até o início da década de 1980.