As recentes flutuações drásticas no mercado acionário chinês aumentaram ainda mais as preocupações com relação à saúde econômica real da China.

O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do país caiu 5,4% no mês passado com relação a agosto de 2014, a maior queda em mais de um ano, revelando a fraca demanda interna e apontando para um potencial risco de deflação.

A atividade industrial chinesa em agosto encolheu num compasso mais acelerado em pouco mais de seis anos, fazendo com que crescesse o receio dos investidores com relação a um pouso forçado da economia chinesa. A empregabilidade no setor industrial, por conseguinte, apresentou queda pelo 22º mês consecutivo. Ainda mais preocupante foi o arrefecimento do setor de serviços, visto até então como um dos poucos pontos saudáveis da economia chinesa, que cresceu em sua menor taxa em mais de um ano, e apresentou o menor nível de empregabilidade desde agosto de 2013.

O índice Caixin/Markit Manufacturing Purchasing Manager (PMI), que analisa a dinâmica da demanda por bens e fatores de produção na China, com foco nas pequenas e médias empresas (mis atingidas pela queda no mercado acionário), caiu de 47,8 em julho para 47,3 em agosto, o que representou a maior queda desde março de 2009 (a leitura acima de 50 pontos indica crescimento em bases mensais, abaixo indica contração econômica).

Ao que parece, o cenário aponta para uma conjuntura pessimista para os planos econômicos chineses. O crescimento econômico global mais fraco do que o esperado, os baixos preços produtivos e os decrescentes lucros empresariais ainda são barreiras importantes para as principais metas chinesas deste ano.  Com a demanda interna e o conjunto da economia em retração, também se poderia esperar a compressão da política estratégica chamada go global, colocada pelo governo desde o 12º Plano Quinquenal.

Ela é baseada no suporte financeiro às empresas chinesas, sobretudo estatais, para incentivá-las a investir e operar no exterior. Utilizando parte das reservas estrangeiras, através do China Investment Corporation (CIC), o plano é focado prioritariamente na garantia de suprimento de matérias primas para o país e na expansão das exportações de produtos chineses nos mercados globais.

No entanto, apesar do risco do país estar seguindo rumo uma “armadilha de liquidez” – injeção excessiva de moeda na economia através de flexibilização da política monetária -, o governo tem lançado uma série de planos de suporte à continuidade do crescimento econômico, acelerando o gasto com infraestrutura e mantendo repetidas reduções na taxa de juros e nas reservas bancárias. A redução anunciada na última terça-feira (01) já é a segunda em dois meses. O Banco Popular da China (PBOC) realizou acordos de recompra inversa — reverse repurchase agrements (repo), nos quais o banco central compra títulos de outros bancos com o compromisso de revendê-los no futuro –, no valor de CNY 150 bilhões (US$ 23,4 bilhões). Não obstante, na última quarta-feira (02/09) o governo central anunciou o lançamento de um fundo nacional de aproximadamente CNY 60 bilhões (US$ 9,4 bilhões) para encorajar o crescimento de micro e pequenas empresas. (veja aqui)

Esta necessidade de injetar liquidez no mercado também foi impulsionada pela queda de novos fundos em yuan destinados ao câmbio e pela depreciação da moeda chinesa. Apesar de economistas do PBOC apontarem a desvalorização do yuan como um ajuste “singular” e sem maiores repercussões prejudiciais a longo prazo no comércio exterior (veja aqui), a desvalorização de 4,66% do yuan contra o dólar em meados de agosto tem sido fator de preocupação.

Desde o início de agosto o Banco Central chinês ordenou que a paridade central das cotações diárias relatadas ao China Foreign Exchange Trade System antes de o mercado acionário abrir deveriam ser baseadas nas taxas fechadas no dia anterior – tanto oferta quanto demanda – e no movimento dos preços das principais moedas internacionais.

Embora esta medida seja coerente com a estratégia chinesa de liberalização gradual e permita ao mercado uma maior influência na taxa de câmbio do yuan, ela tem sido relacionada à tentativa do Politburo de alavancar novamente seu setor exportador através de manipulação cambial.

Os recentes cortes na taxa de juros e os ajustes na taxa de câmbio vão ao encontro da determinação chinesa de transformar o yuan numa moeda de alcance global, passando a formar parte da cesta de moedas do Fundo Monetário Internacional (Special Drawing Rights –SDR), da qual já faz parte o dólar, o euro, a libra esterlina e o yen. As medidas também contribuiriam para aproximar as taxas de câmbio onshore e offshore do yuan com vistas a atingir uma taxação única tanto na China continental quanto em Hong Kong. Para isso, o governo central vê como essenciais a abertura gradual do movimento de capitais e o afrouxe paulatino dos controles no mercado cambial, de maneira a alcançar um “novo normal” da economia chinesa.

Por outro lado, o comércio exterior chinês segue debilitando-se. Em julho as exportações decaíram 8,3% em relação ao mesmo mês do ano passado. O yuan seguia uma sequência de valorização quase a par com o dólar frente a outras divisas internacionais. Tal valorização encareceu os produtos chineses nos mercados internacionais, sobretudo na Europa, seu principal mercado importador. Este fato, somado à desaceleração da demanda interna, como dito anteriormente, poderia obstruir o objetivo de crescimento de 7% fixado pelo governo central para este ano. Se analisada por este aspecto, a desvalorização recente do yuan pode ser entendida como uma medida emergencial para retomar o setor exportador do país e manter as taxas de crescimento da economia chinesa.

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Independentemente do ponto de vista que se queira tomar, o fato é que a transição interna do país para uma economia dirigida pelo consumo doméstico é muito complexa, e o Politburo chinês tem grande interesse em manter seus incentivos ao investimento, ao menos a curto e médio prazo. Assim, a estratégia go global continuará, por sua vez, going global.

Os acontecimentos recentes na economia chinesa e mundial reforçaram uma alteração no modelo de atuação da China nos mercados globais, ao menos desde a brusca redução da demanda mundial causada pela crise financeira iniciada em 2007/2008: o país deixou de ser o grande beneficiário do comércio mundial e “guincho” da economia mundial, graças a seu peso importador e exportador, e passou a ser provedor mundial de capital, seja para suas próprias empresas, seja como forma de financiamento externo a projetos de outros países ou de Investimento Externo Direto (IED).

Um bom exemplo da revitalização da estratégia go global é a iniciativa chamada “One Belt, One Road” (yídài yílù – 一带一路), composta pelos chamados Silk Road Economic Belt e Maritime Silk Road. Esta estratégia, que ultrapassa os vieses econômicos para abranger também os aspectos geopolíticos, visa a cooperação e a conectividade, sobretudo de infraestrutura logística, de regiões da Ásia Central, do Oriente Médio e da Europa à China.

A intenção manifesta pelo governo central com a iniciativa é, prioritariamente, criar demanda para as exportações chinesas, ao mesmo tempo em que garante o fluxo facilitado e mais rápido das commodities que a China importa da região. Além disso, como aponta o CEO do Banco da China, Li Tong, impulsionaria a transformação do país de “exportador de mercadorias de baixo custo para exportador de mercadorias de alto valor agregado e [exportador] de capital e [produtos de] tecnologia” (veja aqui), objetivos expressos da política estratégica go global lançada anos antes.

Há ainda outros dois exemplos expressivos.

A mais lucrativa produtora de ouro da China, a Zijin Mining Group Co, pretende aproveitar a queda do preço das commodities – impulsionada em grande parte pela própria queda da demanda chinesa – para acelerar suas aquisições no exterior. A queda do preço dos metais permitiu que a empresa elaborasse uma estratégia going abroad para assegurar a produção de bens no exterior, também tendo em vista o aumento do controle ambiental empregado em sua província sede: Fujian. O Diretor da empresa reportou na última quarta-feira (02) que a compra de 50% em participação da mina Barrick Gold Corp’s Porgera, na Papua Nova Guiné, por US$ 298 milhões, é um exemplo do novo padrão de atuação da Zijing e de seus futuros acordos (veja aqui).

Pelo lado das exportações, a maior empresa de comércio eletrônico da China, a Alibaba Group Holding Ltd, ao deparar-se com a potencial saturação do e-commerce no mercado doméstico chinês, anunciou, também nesta última quarta-feira (02), planos de aumentar sua presença externa, com foco no Brasil, seu terceiro maior mercado importador (atrás de Estados Unidos e Rússia). (veja aqui)

Conforme anunciou o novo CEO da Alibaba, Daniel Zhang, em seu primeiro discurso após assumir o posto: “Temos de absolutamente globalizar […] Vamos organizar uma equipe global e adotar um pensamento global para gerir os negócios, e atingir a meta de ‘comprar e vender globalmente’”. (veja aqui)

A Ali Express, uma das plataformas de vendas online da Alibaba, atualmente lidera o ranking de sites internacionais de e-commerce visitados no Brasil. A empresa, que chegou ao Brasil ainda em 2010, recentemente lançou versões do site Alibaba.com em português para melhor atender os clientes brasileiros. Dentre as categorias mais importadas pelo Brasil através do site estão as de equipamentos automotivos, maquinário industrial, roupas e eletrônicos. E dentre as mais vendidas pelo Brasil à China estão comida, bebidas, bens agrícolas, cosméticos, metais e minerais.

Nota-se claramente que o padrão comercial sino-brasileiro está impresso na matriz adotada pela plataforma. O objetivo de expandir as exportações de produtos de maior valor agregado e adquirir produtos primários estabelecido pela estratégia go global é refletido na atuação empresarial chinesa no exterior. A recente desvalorização do yuan, que diminui o preço dos produtos exportados pela China, neste caso, pode impulsionar ainda mais as vendas externas da empresa, mesmo com a retração econômica brasileira.

Do todo, é possível inferir que o governo central chinês, apesar da desaceleração econômica, não deixará de lado sua estratégia go global, que é ainda corroborada com a atual política fiscal proativa empregada pelo Banco Central da China. A desaceleração da demanda doméstica e o interesse chinês em prover liquidez de yuan ao mercado internacional – para além de fatores geopolíticos – continuam a direcionar a economia política chinesa nesse sentido.