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Armadilhas do wishful thinking


Tudo na política suscita paixões. Disso todos sabemos. E apoiar causas, em geral, não deveria ser uma questão, já que não existe, neste mundo, nenhum agente desinteressado. O problema começa quando, de forma irresponsável, somos levados a tomar como verdades meros pensamentos desejosos. Isso porque não se trata apenas de reproduzir análises permeadas por uma lógica falha e pouco científica, mas, sobretudo, de incentivar um comportamento tóxico que desqualifica o debate público e premia a desonestidade intelectual.

Com Donald Trump não tem sido diferente. Desde os tempos da campanha, uma sonora torcida (favorável e contrária) cria ruídos que dificultam o diálogo e a compreensão da realidade.

Todos têm acompanhado, por exemplo, que desde a posse, o governo divide opiniões entre os que defendem ou rejeitam a hipótese de uma normalização do “Trump presidente” em relação ao “Trump candidato”. Além disso, em face do marco dos 100 primeiros dias de governo, multiplicaram-se avaliações do que se consideram vitórias e derrotas da administração republicana até o momento. O dossiê organizado pelo NEAI tenta fazer um balanço a esse respeito.

O incômodo não está no teor das diferentes interpretações per se, já que o conhecimento se alimenta do contraditório, mas substancialmente na percepção de que, como analistas, muitos de nós estão presos na armadilha da super-simplificação do jogo político em função das próprias preferências. É como se do confortável camarote de nossas convicções ignorássemos a complexidade da vida real, sua descoordenação e nuances.

No universo das narrativas, parece razoável dizer que ao menos três são os pecados capitais. Em primeiro lugar, todos perdem quando preferimos os adjetivos aos verbos, pois são precisamente os adjetivos os que mais nublam o juízo. Em segundo lugar, todos perdem quando ignoramos a implicação do uso impreciso ou inadequado de conceitos caros ao que pretendemos debater. Em terceiro lugar, todos perdem quando menosprezamos o caráter horizontal da discussão e encontramos na desqualificação do outro a nossa fortaleza estratégica.

Logo: 1) Trump não é um maluco, tampouco é genial; 2) Trump não pertence à extrema-direita conservadora, nem é uma versão 2.0 de Reagan; 3) rejeitar ou apoiar Trump jamais deveria dar, a qualquer pessoa, salvo conduto para fazer análises que privilegiam o “dever ser” em detrimento do “ser”.

Nada disso nos ajudará a compreendê-lo. Ao contrário, apenas servirá como distração na trajetória de combate à ignorância.

Texto originalmente publicano no blog “Cidadãos do Mundo”, em 09 de maio de 2017.

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Fernanda Magnotta

sobre Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é mestre e doutoranda pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP), pós-graduada em Globalização e Cultura (FESP-SP) e bacharel em Relações Internacionais (FAAP). Desenvolve pesquisa no campo de Teoria Política, Teoria das Relações Internacionais, Análise de Política Externa e, especialmente, Política Externa dos Estados Unidos (EUA). Suas principais áreas de interesse são tradições políticas, ideologias políticas, processo decisório e formulação da grande estratégia dos EUA. Foi estagiária no Americas Program do Center for Strategic and International Studies (CSIS), em Washington D.C., e atualmente é professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP. Autora do livro “As Ideias Importam: o Excepcionalismo Norte-Americano no Alvorecer da Superpotência” (2016) pela editora Appris.

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