As eleições primárias abertas e obrigatórias na Argentina foram pensadas como um mecanismo para evitar a fragmentação eleitoral, e gerar incentivos para a concorrência interna dentro das coalizões. Se esperava que, com isso, seria possível estabilizar o sistema de partidos com duas ou três grandes frentes que aglutinariam ao conjunto das preferências.

Entretanto, e já desde 2017, e com exceção a alguns casos excepcionais a nível provincial ou municipal, os partidos passaram a definir previamente os seus candidatos, e assim as primárias se transformaram numa eleição antecipada, uma espécie de primeiro turno que não vale, ou uma grande pesquisa eleitoral.

Foi o que aconteceu neste domingo (11/8). Os eleitores definiram suas preferências eleitorais, com a maioria apoiando a candidatura da Frente de Todos, que apresentou a chapa com Alberto Fernández e Cristina Fernández de Kirchner (ou Fernández/Fernández, se destacado o sobrenome de solteira da ex-presidenta), dona de 47% dos votos e uma vantagem de 15 pontos sobre a candidatura do atual presidente – cuja missão será reverter um resultado bastante adverso. Importante lembrar que no primeiro turno real, que acontecerá no último fim de semana de outubro, a dupla Fernández/Fernández precisará de 45% dos votos para ser eleita já nessa instância.

Virtualmente, Alberto Fernández já é o presidente, embora ainda não tenha sido oficialmente eleito. Um contrassenso típico de um país como a Argentina, e que levará, certamente, a meses de grande instabilidade política e econômica no país, até a proclamação do novo governo.

Contudo, vale a reflexão: como se chegou a este triunfo da oposição? Para o resto do mundo, o que aconteceu é claramente uma surpresa. Mas para entender isso, vale a pena recordar alguns dados, e resumidos em dez pontos que podem explicar este processo.

1) O triunfo do atual presidente, em 2015, foi por apenas 2% dos votos, o que mostrou uma sociedade praticamente dividida pela metade.

2) Foram quatro as razões que determinaram o triunfo macrista em 2015: a) a situação econômica, que não era ruim, mas havia perdido o dinamismo de anos anteriores, e entrou em uma espiral de altos e baixos que gerava tensões sociais e frustação na cidadania, principalmente entre os mais afetados pela inflação; b) os questionamentos midiáticos (principalmente) e judiciais sobre a corrupção governamental; c) a pressão tributária sobre setores da classe média, junto com as medidas que restringiam o acesso ao dólar; e d) um esperado anseio por alternância, após 12 anos de kirchnerismo.

3) Com tudo isso, por uma pequena, porém majoritária margem, os cidadãos acreditaram que Mauricio Macri seria capaz de suprir essas demandas, acreditando em sua consigna de que “manteria o certo e mudaria o que está errado” nos governos anteriores.

4) O modelo imposto pelo macrismo mostrou seus limites rapidamente, tanto no plano político como no econômico. A ideia fundamental era que ser benevolente com os fundos internacionais faria com que eles viessem à Argentina, e isso ajudariam em seu desenvolvimento. Para isso, tiraram todas as travas impositivas ao investimento especulativo, o que levou a um processo de endividamento externo sem igual. Por outro lado, em termos comerciais, a Argentina se abriu às importações, considerando que, desta maneira, além de reduzir os preços internos, os outros países também abririam seus mercados, favorecendo suas exportações, coisa que não aconteceu, e terminou com um aumento importante do déficit da balança comercial, e a incapacidade de gerar dólares para pagar a dívida.

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5) Após o fracasso dessa ideia, em março de 2018, os investidores e prestamistas externos observaram as fragilidades da economia argentina e começaram a se retirar do país, deixando a Argentina a um passo da quebra. A reação do governo foi a de rogar ao Fundo Monetário Internacional (FMI) por um acordo de resgate, e também a um modelo insustentável de capitalização financeira, com a economia presa a um estado permanente de inflação e recessão, que persiste até hoje.

6) Isso afetou o conjunto da população, fazendo com que os setores mais vulneráveis enfrentassem níveis de fome, os pobres já não conseguiam cobrir seus gastos e tiveram que se endividar, e a classe média teve que diminuir bastante seu consumo e conforto.

7) Foi nesse cenário que se iniciou o processo eleitoral. A estratégia do governo buscou a polarização com a figura da ex-presidenta Cristina Kirchner, cuja imagem, para um setor da sociedade seguia sendo muito negativa. O slogan oculto do macrismo era “somos ruins, mas voltar ao passado é pior”.

8) Cristina, por sua parte, representa uma liderança permanente para outro setor da sociedade. Um setor minoritário, mas superior a 30% da população. A partir desse patamar, ela tomou a decisão de mudar o panorama, com o gesto inesperado de dar lugar a um velho colaborador de Néstor Kirchner como nome principal da candidatura, o que destruiu parcialmente o argumento do governo. Votar em Alberto Fernández, portanto, seria como votar em Cristina e no retorno do kirchnerismo, mas já não era tão igual, era diferente.

9) Alberto Fernández foi chefe de gabinete e principal articulador de Néstor Kirchner entre 2003 e 2008. Foi tão bem nesse papel que conservou seu cargo no início do governo de Cristina Fernández de Kirchner. Porém, após o conflito com os ruralistas, em 2008, ele deixou o governo e se afastou da então presidenta, com quem manteve rusgas até 2018, quando veio a reconciliação. Durante o período de farpas, Fernández foi bastante crítico com o governo kirchnerista, e tentou construir laços com lideranças como Sergio Massa e Florencio Randazzo, buscando fortalecer um peronismo sem Cristina.

10) A ideia da larga avenida do meio (o peronismo sem Cristina, ou a “Coreia do Centro”, como chamam os argentinos) finalmente fracassou, devido à estratégia polarizadora do governo e ao apoio incondicional a Cristina de grande parte da população. Nesse sentido, a proclamação de Alberto Fernández permitiu a incorporação à nova frente de todos aqueles peronistas que não aceitavam a liderança de Cristina, levando a uma unidade do peronismo e de algumas expressões de centro-esquerda e de esquerda, que chegaram ao peronismo graças ao kirchnerismo.

Tudo isso foi o que levou o país ao resultado eleitoral deste domingo. Agora, restam dois meses e alguns dias até o dia 27 de outubro, quando acontecerão as eleições gerais. Com um presidente sem poder, e outro que ainda não foi eleito. Se cristaliza a tradicional síndrome do pato manco, do governante que não tem legitimidade para governar, e que, devido a esse sistema de primárias, acaba se estendendo por longos dois meses. Como experimento político, será interessante observar as consequências, mas desde já se lamenta os custos sociais, que provavelmente serão altíssimos, além da possibilidade de uma erosão institucional cujo desfecho ainda é incalculável.


Também publicado em Carta Maior. Tradução de Victor Farinelli